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Ilsinho revela como técnico Mircea Lucescu brincava no Shakhtar Donetsk: 'Eu fui o Pelé da Romênia'

Nesta quarta-feira, o Dynamo de Kiev, da Ucrânia, enfrenta o Gent, da Bélgica, às 16h (de Brasília), pelos playoffs da Uefa Champions League. E, para vencer, o time ucraniano conta com a experiência do técnico Mircea Lucescu.

O treinador assumiu o Dynamo em julho deste ano de forma bastante polêmica, já que ele comandou o maior rival do clube, o Shakhtar Donetsk, por 12 temporadas. O romeno chegou até a pedir demissão depois de quatro dias de trabalho, tamanha a pressão que estava sofrendo, mas depois reconsiderou e seguiu no cargo.

Lucescu é conhecido em todo o mundo por seu amor pelos jogadores brasileiros. A maior prova disso é a enorme lista de "brazucas" que ele levou para o Shakhtar, como Fernandinho, Willian, Luiz Adriano, Jadson, Douglas Costa, Alex Teixeira, Elano, Taison, Marlos, Dentinho, Alan Patrick, Bernard, Fred, Wellington Nem e muitos outros.

Um dos atletas que passou bem pela equipe de Donetsk e ganhou muitos títulos ao lado do treinador foi o lateral-direito Ilsinho, ex-Palmeiras e São Paulo, que ficou quatro anos na equipe laranja e preta e ganhou muitos títulos, como uma Copa da Uefa, cinco Ucranianos, três Copas da Ucrânia e três Supercopas da Ucrânia.

Atualmente no Philadelphia Union, dos Estados Unidos, o hoje meio-campista conversou com a ESPN e lembrou grandes histórias de Mircea Lucescu.

Veja algumas:

Responsabilidade dos brasileiros

"Na minha época, o Lucescu chamava todos os seis jogadores brasileiros do elenco na sala dele antes dos jogos e falava: 'Se for pra acontecer algo nessa partida, quem vai fazer acontecer são vocês!'. Toda partida os brasileiros tinham uma grande parcela de responsabilidade, e ele deixava isso muito claro"

O Pelé da Romênia

"Toda pré-temporada ele levava um jornalzinho velho e trazia para a gente ver. Ele abria e falava: 'Olha aqui, vocês têm que se espelhar em mim! Eu dava passe de gênio com a perna esquerda!' (risos). Naquela época, a seleção da Romênia fazia turnê pelo mundo e disputou vários jogos no Brasil, ficaram mais de um mês jogando contra clubes e seleções. Aí numa dessas turnês saiu uma matéria falando que ele era o 'Pelé da Romênia', que jogava muita bola e fazia muitos gols, como o Pelé. Imagina se ele não gostava de mostrar isso pra gente (risos)? Ele ama o futebol, e é um cara muito bom de contar histórias. Dava pra escrever um livro inteiro só das resenhas dele"

As camisas de algodão

"O Lucescu é da escola mais antiga de técnicos e tem até hoje algumas particularidades. Uma delas é que ele tem preferência por camisas de algodão. Ele era contra qualquer camisa nova ou de dry fit. Chegava o material esportivo novo e ele já soltava: 'Não, isso não serve, isso eu não gosto. Vou mandar fazer de algodão pra vocês'. Aí ele mandava trocar tudo (risos)"

As chuteiras

"Ele olhava as nossas chuteiras e falava que elas não prestavam. O Lucescu gostava até de escolher o tramanho das travas das chuteiras dos jogadores. Ele curtia trava alta, gigante (risos)! E quando você achava que a trava era grande, ele olhava e falava que tinha que ser maior. Toda vez que nevava ele falava para a gente: 'Sua chuteira tem trava muito baixa'. E era engraçado porque, quando ele apontava para alguém no campo para reclamar, o cara escorregava e tomava o maior tombo (risos). Parecia mágica!"

Braço duro

"Eu lembro também que ele tinha fama de ser um motorista não muito bom, digamos assim (risos). Teve uma vez que ele foi parar na linha de trem com o carro dele (risos)

A COPA DA UEFA E A COPA DA UCRÂNIA

Ilsinho chegou ao Shahtar Donetsk na temporada 2011/12, após ser campeão brasileiro pelo São Paulo.

Refletindo hoje sua a transferência, ele reconhece que a parte financeira teve um peso grande na decisão de ir para a Ucrânia.

"Eu tive algumas sondagens na época do São Paulo, mas nada concreto. Quem veio mesmo com tudo foi o Shakhtar. Para falar a verdade, não era o meu maior sonho morar na Ucrânia. Se eu falar que não preferia um país europeu tradicional, vai ser mentira. Eu fui única e exclusivamente pela proposta financeira que recebi", afirmou.

"Era uma proposta muito boa, e que acabou sendo profissionalmente muito boa para mim também. Montamos um time ótimo e ganhamos até campeonato europeu. Eu fui atrás da independência financeira e acabou que foi bom profissionalmente também. Tanto é que o Shakhtar virou uma potência e hoje tem vários ex-jogadores do clube espalhados pela Europa", lembrou.

"O nosso time estava em formação nessa época. Comigo, chegou junto o Willian. Mas a equipe encaixou muito bem. O elenco campeão da Copa da Uefa foi o melhor que já joguei na carreira, em questão técnica. E nosso time ficou muito visado no mercado da bola por todos os títulos que conseguiu", salientou.

O título mais celebrado desta época foi justamente a Copa da Uefa 2008/09, na qual o Shakhtar derrubou vários favoritos em série nos mata-matas (Tottenham, CSKA Moscou, Olympique de Marselha e Dynamo de Kiev) antes de faturar a taça em cima do Werder Bremen.

"Como todo time do Leste Europeu, nós não éramos favoritos nem ao empate em jogos da Uefa (risos). A grande maioria dos adversários menosprezou a gente. Eles deveriam nos estudar, mas não botavam fé na nossa força. Tottenham e Olympique menosprezaram a gente e matamos. Contra Dynamo e CSKA foi mais difícil, pois eles conheciam a gente e havia muita rivalidade. Foram duelos difíceis demais", recordou.

Sobre a grande final, vencida por 2 a 1 sobre o Werder Bremen com gols de Jadson e Luiz Adriano, Ilsinho se lembra até hoje do porto físico dos adversários.

"Uma cena marcante foi quando enfileiramos para entrar na final e o time do Werder era muito grande. Todos tinham mais que 1,85m (risos). E o nosso time era só baixinho (risos). O maior da nossa equipe nem alto era. Eles olhavam pra baixo pra gente e devia pensar: 'Não é possível que esses moleques joguem bola' (risos)", gargalhou.

"Era muita diferença física, mas a gente compensou com muita técnica. Eles olharam diferente para a gente depois. Sabiam que nosso time era bom, mas não levaram tão a sério assim. A gente jogou de igual para igual e tivemos a felicidade de sermos campeões", festejou.

"Até hoje lembro da festa do título também. Parou toda a região de Donetsk, e montaram um palco no meio da praça. Recemos a medalha do presidente da Ucrânia! E o presidente do Shakhtar virou o cara mais feliz do mundo (risos)", contou.

Curiosamente, logo após a conquista da Copa da Uefa, os jogadores do Shakhtar tiveram o famoso "choque de realidade".

"No jogo seguinte, pela Copa da Ucrânia, pegamos três horas de ônibus e um hotel que a cama era da largura do corpo. Não dava nem para virar de lado (risos). A gente ria demais. 'Somos campeões europeus e agora a gente não pode nem virar na cama' (risos). Quando a gente pegava esses times da 2ª e da 3ª divisões da Ucrânia era muito bizarro", relembrou.

"Ficamos uma vez em um hotel que todo mundo entrava no seu quarto sem bater. Não tinha tranca, nem chava. Os torcedores entravam para tirar foto, pedir autógrafo (risos). E teve um jogo que a trave era torta, um gol era maior que o outro. O Lucescu ficou bravo e falou que, se não arrumassem o gol, o Shakhtar não ia entrar em campo", relatou.

"Pra você ver como era: a gente jogava uma semana pela Champions contra um time fera, com 80 mil no estádio, e depois pegava equipe de 3ª divisão com trave torta (risos). Em casa, nosso estádio era um dos melhores que já joguei. Mas, fora de casa, às vezes era jogo para 100 pessoas, que os times jogavam para não perder. E quando eles conseguiam um empate contra a gente, comemoravam como se fosse um título", finalizou.