Uma das principais chaves para o sucesso do Sevilla, que busca o sexto título de Europa League, é um craque no uso do telefone e na arte da conversa. O diretor esportivo Monchi não é conhecido como o "mago das contratações" à toa.
Em 18 anos de clube, ele trabalhou em mais de 150 transferências, obtendo um lucro de 200 milhões de euros (R$ 1,3 bilhão).
Além disso, ajudou a equipe a virar uma potência e faturar cinco títulos da Copa da Uefa/Liga Europa, duas Copas do Rei, uma Supercopa da Uefa e uma Supercopa da Espanha.
Para entender como funciona o trabalho de Monchi, conversamos com Renato, que jogou sete temporadas no clube espanhol. O ex-meia, que atualmente é dirigente no Santos, revelou como é a personalidade do cartola e contou histórias curiosas.
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Como conheceu Monchi?
Eu quase fui para o Leverkusen, mas o negócio não deu certo. No meio da Copa América de 2004, no Peru, o Sevilla veio com um convite. Eu conversei com Júlio Baptista, que jogava por lá e falou maravilhas para mim. Tenho um carinho enorme por ele por tudo que fez por mim e por ter me levado para a Europa. Sou grato ao presidente e ao treinador Joaquin Caparrós, que deu o aval para minha contratação.
Como é negociar com ele
Foi tudo muito rápido. Eles me mandaram a proposta com um contrato longo. Eu aceitei pelas condições e pela conversa que tive com o Júlio. Era uma expetativa muito boa. Desde o começo me senti em casa. O Monchi me recebeu no aeroporto e foi me contando um pouco da história do clube e da rivalidade com o Bétis.
O poder de convencimento
É um diretor que quando fala sabe das convicções que tem. Ele te mostra o projeto e acreditando dá certo. O Sevilla está hoje em outro nível de exigência. Você vai para um clube onde tem um êxito todo ano. É muito bom jogar no Sevilla e a cidade é maravilhosa.
Olho clínico
Ele tem uma visão enorme de futebol. Levou o Daniel Alves muito novo do Bahia. Pegou o Júlio, que não vivia uma fase tão boa no São Paulo, e mudou a posição dele no Sevilla. Aqui no Brasil ele foi segundo volante, mas no Sevilla virou segundo atacante e foi super bem. O Monchi tem esse crédito de enxergar. Nós conversávamos muito sobre a posição que eu jogava em campo.
Como ele descobre tanto jogador no Brasil?
Ele tem um pessoal que olha para o futebol sul-americano todo. Lembro que ele me perguntou se o Adriano fazia a lateral e o extremo porque o Coritiba jogava com três zagueiros. Eu disse que poderia fazer as duas porque tinha muita força e velocidade. Ele enxergou o potencial no Adriano, que era bem jovem e já tinha sido chamado para a seleção. O Monchi tem um carinho enorme pelo Brasil e já me falou que adora os jogadores brasileiros.
Relação com os brasileiros
Era um paizão e na hora das dificuldades nos chamava. Dizia que os brasileiros tinham que ser diferentes. Falava: ‘Tira toda essa magia do improviso do futebol brasileiro e não fiquem presos apenas na tática. Vão no individual’. Ele nos dava muita liberdade, mas cobrava muito. É um cara que admiro e que torço.
Como é a participação dele no desenvolvimento do jogador dentro do clube?
Ele ajuda muito na parte fora do campo. O Sevilla tem um cuidado enorme com isso. Eles se preocupam em todos falarem espanhol para não ter problemas no vestiário. O Monchi se preocupa com as famílias dos jogadores. O Sevilla tem uma visão muito boa do que é o profissionalismo. Nós não nos concentrávamos antes de jogos em casa porque o jogador tinha que ter responsabilidade. A parte física predomina no futebol e tínhamos que ter bons hábitos. Ele também tem uma equipe no Sevilla que cuidava de tido isso. Além de ter uma visão dentro de campo, eles procuram resolver os problemas fora de campo.
Gestão de elenco
Ele sabe equilibrar jogadores mais experientes com os garotos da base. Quando eu cheguei estavam Navas, Sergio Ramos e Puerta ... Nós ganhamos cinco títulos importantes, incluindo duas Copas do Rei e a duas Copas da Uefa. Ele tem um olhar clinico e o Sevilla chegou a um novo nível. Hoje, está todo ano na Liga Europa ou na Champions. O objetivo é sempre estar entre os quatro primeiros colocados.
É verdade que ele fuma um cigarro atrás do outro, bebe muita Coca-Cola e não sai do celular?
É verdade (risos). Ele passou mal uma vez na Champions quando jogamos conta o Arsenal na Inglaterra. Ele contou que ficou angustiado e tremendo na arquibancada porque não podia fumar. Acabou saindo do estádio e não viu o jogo completo para poder fumar. Ele continua fumando e tomando Coca-Cola. O telefone é o escritório dele porque ele pode estar em todos os lugares. Quando está com o celular, pode apostar que está trabalhando.
Cobiçado por outros times
Na minha época, o Real Madrid tentou levá-lo e o chamou para trabalhar lá. Ele não foi e ficou no projeto do Sevilla. Ele sabe como te convencer e acaba dando certo. O Sevilla só tem a ganhar com o Monchi. Fiquei triste quando ele saiu par a Roma, mas ele precisava de outros desafios. Quando voltou ao Sevilla disse que é a casa dele. Acho que é isso mesmo.
Primeira título de Liga Europa em 2006...
Quando eu cheguei o Betis tinha vencido a Copa do Rei anterior e tinha uma pressão enorme para a gente conquistar. O problema é que caímos para o Cádiz. Lembro que o Adriano disse que ainda tínhamos a Copa da Uefa para disputar, mas o pessoal falava que não iriamos chegar. A gente acreditou e o sonho virou realidade. Eliminados o favorito Schalke e chegamos à final. Lembro que o presidente disse que os sonhos seriam realizados e iriamos acreditar. Fizemos um jogo impecável e vencemos por 4 a 0. Foi o pontapé inicial de tudo. No ano seguinte a gente venceu a Uefa de novo com o [ex-goleiro] Palop sendo nosso salvador, defendendo os pênaltis e até fazendo gols!
E a final de sexta contra a Inter de Milão?
Acredito muito no Sevilla, que tem uma mística na Liga Europa. Estou na torcida e espero que a sexta taça vá para o Sevilla.
