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Por que ninguém consegue parar Sergio Ramos pelo alto? Brasileiro ex-Real Madrid 'galáctico' explica

Reportagem originalmente publicada em 11 de abril de 2017


Minutos finais de partida e o Real Madrid está em situação complicada no placar.

Cruzamento para a área e surge ele, Sergio Ramos, como um beija-flor parado no ar. A cabeçada é forte, precisa, sem chances de defesa para o goleiro. O dia está salvo!

Se você acompanha futebol internacional, quantas vezes viu essa cena nos últimos anos? De fato, Ramos parece ser impossível de ser marcado em jogadas de bola aérea, tamanha a facilidade com que faz gols - especialmente em finais e partidas decisivas dos merengues.

Só nesta temporada, por exemplo, ele já anotou 12 vezes em 43 partidas, o que lhe coloca como 2º maior artilheiros dos blancos, atrás somente de Karim Benzema (26);

Ele marcou, por sua vez, mais tentos que Bale (3), Jovic (2), Hazard (1) e James Rodríguez (1), só para citar algumas das peças ofensivas mais badaladas da equipe. Ainda fez tantos gols quanto os garotos Rodrygo (7) e Vinicius Jr. (5), ambos atacantes, combinados.

É sua temporada mais goleadora em toda a carreira, iniciada em 2003, no Sevilla.

Nos últimos anos, aliás, foram inúmeros tentos decisivos. Em 2014, por exemplo, ele fez o famoso gol aos 48 do segundo tempo que empatou a partida em 1 a 1 e levou a final da Uefa Champions League contra o rival Atlético de Madri para a prorrogação - o Real Madrid terminaria vencendo por 4 a 1.

Antes disso, ele já havia marcado duas vezes na semifinal da Liga dos Campeões contra o poderoso Bayern de Munique. Já no Mundial de Clubes, após a conquista da Champions, marcou novamente na semi e na final, ajudando os merengues e levantaram mais uma taça.

Em 2017, Ramos começou a temporada fazendo mais um gol aos 48 do segundo tempo na Supercopa da Espanha, contra o Sevilla, levando o duelo para a prorrogação depois dos andaluzes abrirem 2 a 0. O clube de Madri ganhou por 3 a 2 e foi campeão.

No atual Campeonato Espanhol, ele foi peça-chave para a conquista de taça dos merengues, principalmente depois que virou cobrador de pênaltis do time, com um aproveitamento excelente.

Mas, afinal, por que ninguém consegue pará-lo principalmente nas jogadas pelo alto, ainda que ele já tenha 34 anos?

Alguém que o conheceu ainda jovem diz ter a explicação.

CHEGADA APROVADA POR LUXA

Poucos se lembram, mas Sergio Ramos foi comprado pelo Real Madrid do Sevilla, em 2005, por 27 milhões de euros (R$ 164 milhões, na cotação atual), quando o brasileiro Vanderlei Luxemburgo era o técnico da equipe à época apelidade de "galáctica".

Um dos que aprovaram a contratação do jovem defensor foi Paulo Campos, treinador com passagens por diversos times e que nesse período era auxiliar de Luxa no time espanhol.

"O Sergio surgiu como revelação do Espanhol aos 19 anos, no Sevilla. Fomos contratá-lo junto com o Júlio Baptista. Foi uma grande aquisição, como todos podem ver. Tanto é que hoje ele é o jogador do ano no Real", exalta Campos, em entrevista à ESPN.

"O Vanderlei tinha um trabalho muito bom de scouting e analistas no Real Madrid. É um timaço que o clube tem fora de campo. Quando mostraram o nome do Sergio, o Vanderlei aprovou na hora a contratação. Era uma grande aposta para o futuro", revelou.

O fluminense de Niterói diz que o defensor deixou impressão positiva logo de cara.

"Na chegada dele a Madri já deu para notar que era um baita cara, sonhador e muito ambicioso. Queria crescer na carreira, e por isso fazia várias funções para ajudar o time: zagueiro, lateral, volante... Atleta muito inteligente e trabalhador ao extremo", elogia.

"Ele chegou na humildade, mas já sabia do seu potencial. Tive a chance de ver muitos treinos dele no começo, pois eu trabalhava bastante com os atletas que não eram titulares. Sentia que ele ficava muito atento a tudo que eu falava, e também ficava sempre de olho nos 'galácticos' que estavam à frente dele na época. Isso demonstra simplicidade e vonade de crescer e aprender. Sempre estava de ouvidos abertos a tudo", relembra.

O ex-auxiliar de Luxa explica que ter jogado no meio de tantos medalhões acabou fazendo Sergio Ramos subir de nível muito rápido, tornando-se rapidamente titular tanto do Real Madrid quando da seleção espanhola, com os quais já ganhou diversos títulos.

"Ele tinha personalidade forte, mas sabia onde estava colocando os pés. Por ter treinado bastante na equipe reserva, estava sempre jogando contra Ronaldo, Robinho, Beckham, Zidane, Raúl, Guti... Olha quem ele tinha que enfrentar todo dia (risos)! Isso fez o cara crescer demais em pouco tempo", opina o brasileiro.

"Para jogar no começo era difícil para ele, porque disputava posições com veteranos como Michel Salgado, na lateral, Helguera, na zaga, e Gravesen, como volante. Por isso, no começo ele era mais aproveitado na lateral do que na zaga. Mas ele jogou bastante conosco, o Vanderlei deu muita cancha para ele no começo", salienta.

"E quando acabavam os treinos, ele ficava sempre com Casillas, Ronaldo e Beckham trabalhando cruzamentos, faltas, finalizações... Pelo menos três vezes por semana eles faziam isso direto por uns 40 minutos, até ficarem exaustos. Sempre queria estar na 'rodinha' jogando com as feras. Eram só treinos de alto nível", completa Paulo Campos.

Hoje, Ramos serve como exemplo para os mais jovens no Real, segundo o brasileiro.

"O Sergio sempre soube que treinando forte e sendo multi-função uma hora ia abrir uma brecha e ele ganharia a posição por merecimento. A gente sabia que isso aconteceria e, quando aconteceu, não foi surpresa nenhuma, tanto que ele é titular no Real Madrid há uma década. Hoje em dia, ele ajuda os mais jovens e é a inspiração para eles", afirma.

'ELE ANTEVÊ AS JOGADAS'

Em 649 partidas pelo Real Madrid, Sergio Ramos acumula 96 gols. Números espetaculares, maiores do que muitos atacantes ou meio-campistas ofensivos.

A maior parte de seus tentos saiu em jogadas aéreas, em que ele é quase impossível de ser marcado, mesmo tendo "apenas" 1,83m. Segundo Paulo Campos, o zagueiro da seleção espanhola tem uma leitura de jogo superior à dos demais, o que lhe coloca sempre em vantagem no momento de um cruzamento para a área.

"Ele não é tão alto, mas tem um tempo de bola extraordinário e é muito inteligente. Sua impulsão vertical é absurda, e parece que a bola sempre vai justamente onde ele está, mas é ele que sabe onde a bola vai estar e pula na direção dela. A verdade é que ele antevê as jogadas e sabe o que vai acontecer. Isso é técnica altamente desenvolvida", explica o ex-auxiliar do Real Madrid.

Para Paulo Campos, Ramos é, sim, quase impossível de ser marcado pelo alto.

"Para mim, tudo é uma união de fatores: explosão vertical monstruosa, tempo de bola perfeito e nível de inteligência maior que a média. Se você olhar a maioria dos gols dele, não é o Sergio subindo e a bola caindo em cima. Na verdade, é ele quem se direciona e ataca a bola. Ele usa velocidade, força e qualidade técnica nos gols. Tem aquela frase que diz: 'Ele é sempre o cara certo na hora certa'. Não é bem assim! Parece que é a bola que o procura, mas na realidade é ele quem ataca a bola", sintetiza o técnico.

E como Paulo Campos faria para marcar seu ex-comandado?

"Rapaz, essa é difícil (risos)! Você tem que encontrar uma forma de tentar anular a jogada. Se eu fosse o técnico adversário, sei que ele será o primeiro ponto a ser procurado na área. Claro que há outros jogadores de extrema qualidade, como o próprio Cristiano Ronaldo, Benzema, Pepe, mas o Sergio é a referência. Eu já ia colocar um homem grudado nele e outro somente visando a chegada da bola nele", observa o treinador brasileiro.

"Eu tentaria fazer com que ele se mexesse pouco dentro da área, coloando colado nele um grande marcador. Depois, um homem alto, de área, simplesmente cuidando da bola dele. Hoje em dia, quase todos colocam os defensores dentro da área, ficando geralmente com quatro na sobra. São nove de defesa contra cinco ou seis no ataque. Eu faria marcação dupla de qualquer jeito nele. Mas seria muito difícil do mesmo jeito (sorri)", brinca.