Léo Lima lembra gol decisivo pelo Palmeiras e vitória sobre São Paulo 'Soberano' em 2008: 'Foi um baile'

Reportagem publicada dia 05/04/2019


Em 2008, o Palmeiras recebeu o São Paulo no antigo Palestra Itália no segundo jogo válido pela semifinal do Campeonato Paulista.

O duelo terminou com vitória por 2 a o do Verdão, que classificou-se para a decisão contra a Ponte Preta.

Um dos protagonistas daquele triunfo palmeirense sobre o São Paulo, à época chamado de "Soberano", tamanha a dominância dentro quanto fora de campo do Tricolor no futebol brasileiro, foi Leonardo Mendes Lima da Silva, mais conhecido como Léo Lima.

O meia conversou com a ESPN e lembrou os detalhes daquela semifinal, em especial o seu tento decisivo, que abriu placar para o triunfo no Parque Antárctica.

"Aquela semifinal teve muita polêmica, né (risos)? Na primeira partida, no Morumbi, o Adriano 'Imperador' se jogou de peixinho, a bola bateu no braço dele e entrou, mas o juiz não anulou o lance. No outro gol deles, o Adriano deu um tranco no Pierre, que foi falta, mas o juiz não marcou de novo. Pior que jogamos bem, ficamos em cima, mas perdemos por 2 a 1", recordou.

"Aí veio o jogo de volta. Durante a semana, nós treinamos muito a bola parada defensiva, porque o Jorge Wagner estava numa fase espetacular, e eles tinham Adriano e Aloísio 'Chulapa', que eram monstros de cabeça. Era a jogada mais perigosa deles e a gente tinha que anular de todo jeito", rememorou.

Em uma tarde chuvosa no Palestra Itália lotado, o Palmeiras inaugurou o placar graças a um chute de longe de Léo Lima, que disparou uma bola "venenosa", enganando Rogério Ceni e abrindo caminho para a classificação verde.

"Começamos em ritmo forte, em cima dos caras. Com uns 20 e poucos minutos, eu recebi a bola no meio, arriquei e fiz 1 a 0. Sempre gostei muito de bater de fora da área. A maioria dos meus chutes pegava efeito e saía meio para fora, mas aquele chute balançou no meio do caminho e o Rogério até caiu certo para onde ela estava indo, mas ela desviou no quique, caiu para o meio e enganou, porque ele saiu para a esquera", contou, exaltando mais uma vez a atuação do Verdão naquele dia.

"Depois, foi um baile! Eles não conseguiam chegar no nosso gol, e a gente só tocando a bola. No final do segundo tempo, teve a escapada do Wendel, que só rolou para o Valdivia fazer o outro gol e fechar a conta", relatou.

Os são-paulinos, porém, reclamam até hoje de uma suposta "artimanha" palmeirense: a de que alguém teria vazado gás de pimenta pela janela do vestiário tricolor. Fato é que a delegação visitante passou quase todo o intervalo no gramado, e o técnico Muricy Ramalho chegou a passar mal e até vomitar.

Léo Lima, porém, vê as acusações como infundadas.

"Teve todo aquele lance do gás no vestiário do São Paulo no intervalo. Sendo bem sincero, acho que não teve nada disso. Na época, foi um barulho grande, falou-se muito nisso, mas até hoje ninguém nunca provou nada. E a Polícia Militar estava em peso lá no dia. Se tivesse alguma coisa suspeita, certamente eles teriam achado algo", opinou.

A partida também ficou marcada pela irritação de Rogério Ceni com Valdivia após o segundo gol dos anfitriões, depois que o chileno fez, com as mãos, os sinais de "acabou" e "silêncio" na direção do goleiro adversário.

"O Valdivia fez o gol e saiu debochando. O gringo era demais (risos). Ele adorava uma confusão, mas jogava muita bola também. Lembro certinho do Miranda e do Rogério indo para cima dele depois do gol. Por sorte, a turma do deixa disso chegou e colocou panos quentes, porque ia quebrar o pau. E com razão, porque, se fosse o contrário, com certeza a gente iria para cima (risos)", brincou Léo Lima, lembrando que a animosidade havia sido criada ainda na primeira fase da competição.

"O Valdivia já tinha debochado antes e esquentado a chapa. Foi naquele clássico que ganhamos de 4 a 1 de virada, em Ribeirão Preto. A gente fazia os gols e todo mundo dançava o 'Créu', que estava na mora na época (risos). Aï já viu, né? O gringo tirou onda de novo e o tempo fechou", observou, antes de elogiar Valdivia.

"Sempre foi um cara de grupo, bem tranquilo. Nunca deu trabalho, e adorava brincar e tirar um sarro. Só era enjoado com os adversários, com a gente era gente finíssima (risos). Depois do título, teve aquele episódio engraçado que a gente raspou a cabeça de todo mundo. Ele tentou fugir, mas pegamos e tosamos aquela cabeleira feia dele (risos). Ele ficou p*** da vida na hora, mas depois passou (risos)", gargalhou.

O ex-palestrino diz que o triunfo sobre o fortíssimo São Paulo, que tinha ainda atletas do calibre de Alex Silva, Hernanes, Júnior, Dagoberto e Borges, deixou o Palmeiras extremamente confiante para buscar o título.

"Aquela semi foi uma final antecipada para nós. Estávamos muito confiantes que seríamos campeões na sequência, com todo respeito à Ponte Preta, que tinha um time muito bom. Nós estávamos focados, queríamos tirar o Palmeiras da fila de 12 anos sem ganhar o Paulista. E nossa conquista tem que ser ressaltara, porque foi a última do Palmeiras em Estadual", bradou.

O importante tento marcado naquele domingo no Parque Antárctica também ajudou Léo Lima a recolocar a carreira nos trilhos.

"O gol foi muito importante pessoalmente para mim também. Eu vinha de um problema com a torcida na minha passagem pelo Flamengo, não estava jogando bem e fui dispensado. Cheguei ao Palmeiras contestado. O Vanderlei (Luxemburgo) teve até que entrar ao vivo em um programa na TV para debater porque estavam detonando a minha contratação", recordou.

"Aquilo me deu ainda mais motivação, e desde o começo no Palmeiras em me dediquei ao máximo. Fui campeão e acabei eleito como melhor segundo volante do Paulista. O gol no São Paulo foi para coroar minhas atuações, pois eu tinha jogado bem contra várias equipes já naquele campeonato", salientou.

"A torcida do Palmeiras, quando me encontra na rua, até hoje lembra desse gol e comenta comigo. Já ouvi de muitas que eu fui um dos caras mais decisivos daquele Paulistão. Isso, para um jogador de futebol, não tem preço", comemorou.

RESENHAS PALESTRINAS

Revelado pelo Madureira e alçado ao profissionalismo pelo Vasco, em 2000, Léo Lima destacou-se como meia de criação no início da carreira, chamando a atenção principalmente pelos lances plásticos, como cruzamentos de letra.

Em 2008, porém, ele chegou em baixa ao Palmeiras após passagens apagadas por Porto, Flamengo, Santos e Grêmio. Será que ainda era possível recuperar seu futebol?

O técnico Vanderlei Luxemburgo, à época ainda em seus últimos lampejos de genialidade, deslocou Léo Lima da posição de armador para a de segundo volante. E aí tudo mudou da água para o vinho.

"O Luxa já tinha tentado minha contratação em 2002, no Cruzeiro, naquele time que depois conquistaria a Tríplice Coroa em 2003. Na época, porém, o Eurico (Miranda) não quis me liberar. Eu já tinha jogado como volante bem no começo da carreira, mas os treinadores sempre acabavam me escalando de 'camisa 10', por conta da minha qualidade. Mas o Vanderlei sempre teve a visão de que eu era volante", salientou.

"Eu tinha passado pelo Flamengo e não joguei bem, foi uma época muito difícil, ouvi muitas críticas. Daí veio a chance de ir para o Palmeiras e nã pensei duas vezes. Quando cheguei, logo no segundo treino o Luxa me chamou e disse que eu iria jogar de segundo volante. A transição para mim foi tranquila, porque ele armou o time de forma que eu jogasse de grente para o gol, que era o melhor para mim, por causa das minhas características da época", observou.

"Além disso, nosso time era bom para caramba, o que ajudou demais na minha adaptação e fez meu jogo fluir. Aquele Palmeiras de 2008 foram os melhores elencos que peguei, junto com Vasco, Santos e São Paulo", elogiou.

Léo Lima se diverte ao lembrar algumas histórias engraçadas que vivenciou ao lado de Luxemburgo.

"A melhor resenha com ele foi no Brasileiro daquele ano, num jogo contra o Atlético-MG. Eu estava no banco e ele me chama para entrar, dizendo que eu ia entrar no lugar do Leandro. Só que o Luxa vivia trocando os nomes dos jogadores (risos). Eu pensei: 'Rapaz, que mexida ousada, vai colocar um volante na vaga de um lateral esquerdo'. Só que ele queria que eu entrasse na vaga do Evandro, que era meia (risos). Rapaz, isso deu uma confusão (risos). O Vanderlei ficou doido, saiu até chutando garrafa", sorriu.

O goleiro Marcos foi um dos melhores amigos que Léo Lima fez naquele elenco.

"Marcão era um cara excepcional. Depois do treino, nós ficávamos um tempão ouvindo as resenhas dele, que são infinitas (risos). Na época, ele tinha vindo de uma lesão grave no braço, e o Diego Cavalieri que vinha sendo titular no Paulista, e jogando muito bem, inclusive. Mas, quando o Marcos voltou, o Luxa bancou o 'Santo' como titular de novo", recordou.

"Acabou sendo mais uma jogada de mestre do Luxemburgo, porque aí o Marcos fez aquele discurso lindo antes da final contra a Ponte, em que ele chegou a chorar, e nos motivou demais. Não foi à toa que metemos 5 a 0, estava todo mundo pilhado. E uma das nossas motivações foi ver todo o sacrifício que o Marcão fez para estar ali de novo jogando com a gente", emocionou-se.