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Ex-Internacional, Geferson revela susto por primeira convocação na seleção brasileira

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Dunga de volta ao futebol? 'Não tenho muita pressa, se tiver que acontecer, vai acontecer' (0:56)

'Não sou um cara que tenho que fazer marketing', disse o ex-técnico da seleção brasileira (0:56)

Reportagem publicada 16/03/2018


29 de maio de 2015. Geferson Cerqueira Teles, como todo bom brasileiro, estava tirando aquela soneca da tarde, merecida depois de um duro treino no período da manhã com os companheiros de Internacional, clube do lateral esquerdo, então com 20 anos de idade.

De repente, seu telefone toca. Era um número desconhecido, de outro Estado.

Quem poderia estar atrás dele?

"Eu tinha treinado de manhã e estava bem cansado, estava tirando uma soneca de tarde. Gosto de tirar um cochilo pra descansar (risos). Nisso, meu celular tocou, mas eu não vi porque estava no silencioso. Só que aí do nada eu acordei", lembra, em entrevista à ESPN.

"Vi que era um número com DDD do Rio de Janeiro. Pensei: 'Número do Rio me ligando? Deve ser cobrança (risos)", diverte-se.

Só que não era cobrança, muito menos telemarketing. Era a diretoria da CBF avisando que o atleta havia sido convocado pelo técnico Dunga para disputar a Copa América no lugar de Marcelo, que se lesionou durante jogo do Real Madrid e teve que ser cortado do torneio.

"Apesar de não saber de quem era aquele número, atendi mesmo assim. Para a minha surpresa, era o pessoal da CBF me ligando para dizer que eu estava convocado, apesar da lista não ter sido divulgada. E eu nem sabia que o Marcelo tinha machucado. Por isso, não acreditei logo de cara", conta.

No entanto, logo a notícia se espalhou, e a vida do pacato baiano virou do avesso.

"De repente começaram a me ligar tudo que é rádio, televisão, site, me dando parabéns. Eu nem acreditei, a ficha demorou para cair (risos). Até liguei para os meus pais para ver se tinha passado algo disso na TV", relembra.

"Eles disseram que não, mas um minuto depois me ligaram de volta e falaram que tinham acabado de ver minha foto na ESPN e no Sportv e que era verdade, eu tinha sido chamado mesmo", relata.

A "farra" continuou no dia seguinte, quando ele foi ao CT do Internacional pela primeira vez após o chamado inédito.

"A manhã seguinte foi muito legal. Todo o grupo me deu parabéns, e o (Diego) Aguirre [então treinador colorado] me chamou na sala dele pra um papo. Ele me deu os parabéns e disse que aquilo era merecimento e fruto do meu trabalho. Foi um momento muito feliz", exalta.

No Chile, Geferson fez parte do elenco que avançou em 1º lugar no grupo C, à frente de Peru, Colômbia e Venezuela, mas que caiu logo nas quartas de final para o Paraguai, após empate por 1 a 1 no tempo regulamentar e derrota por 4 a 3 nos pênaltis.

Mesmo sem o título, o ala de 26 anos considera a experiência muito positiva.

"Foi bom demais ter convivido e treinado com caras consagrados, que eu só via pela TV ou quando jogava videogame. Aprendi cada minuto para aprender ao máximo, era o mínimo que eu poderia fazer", conta.

"Os caras me deram muita moral e me ajudaram nos treinos, foi super legal. O grupo foi muito gente boa. O cara com quem eu mais andava era o Firmino, e nós temos amizade até hoje, até por sermos do Nordeste. Ele é mais quieto, mas comigo brincava muito", lembra..

O então jogador do Inter acabou não entrando em campo na competição, mas dá de ombros. Para o jogador, hoje com 26 anos, aquele foi o ponto alto de sua trajetória.

"Infelizmente não consegui jogar, porque o Filipe Luís estava indo muito bem. Mas o que mais valeu foi ser lembrado pelo Dunga e estar lá representando meu país. Pude ajudar meus companheiros de algumas formas, e foi o momento mais especial da minha carreira. Todos sonham com a seleção e espero voltar a ser lembrado algum dia", sonha.

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O COMEÇO NO INTERNACIONAL

Geferson nasceu em Lauro de Freitas, na região metropolitana de Salvador, na Bahia. Começou no futebol em uma escolinha de um amigo de seu pai, que lhe deixava treinar no local de graça. Rapidamente chamou a atenção do Vitória, que o levou para testes nas categorias de base. Durante um torneio no interior de São Paulo, se destacou e foi "capturado" pelo Internacional.

"Quem me levou para o Beira-Rio foi o Odair Hellmann, que hoje é treinador do profissional. Joguei ao lado de caras como o Willian, hoje no Wolfsburg-ALE, do Jacsson goleiro e do Rodrigo Dourado, que é muito amigo meu até hoje", relata.

A chegada à equipe profissional do Colorado aconteceu no final de 2014.

"Eu joguei a Copa do Brasil sub-20 e fomos campeões em cima do Vitória. Achei que logo em seguida entraria em férias, mas fui chamado para compor o elenco do profissional na última partida do Brasileiro, contra o Figueirense. Depois das férias, voltei e o Aguirre tinha assumido como treinador. Foi ele que me efetivou de vez na equipe de cima", rememora.

A passagem de Geferson pelo time adulto, porém, não teve tanto sucesso. Após se destacar de imediato e receber a convocação para a seleção brasileira, ele caiu de produção na volta do Chile e acabou perdendo a posição, principalmente após o Inter ser eliminado na Libertadores de 2015 para o Tigres-MEX, com direito a um gol contra do lateral.

"Passei por algumas dificuldades no Internacional, principalmente na eliminação da Libertadores. Isso infelizmente acontece com a maioria dos jogadores. Bola pra frente", ressalta o atleta, que quase foi negociado em seguida com o futebol italiano.

"Por alguns detalhes não acertei com a Sampdoria. Até hoje não sei direito a razão. Acho que o Inter queria um pouco mais pra me vender... Depois da Libertadores, as coisas esfriaram de vez e não aconteceu. Mas é assim mesmo, as coisas acontecem quando Deus quer", releva.

Após jogar pouco em 2016 (fez apenas 19 partidas), Geferson foi emprestado em 2017 ao Vitória, a pedido do técnico Argel Fucks, que já conhecia sua fama do tempo em que treinou o Internacional.

"Perdi espaço no Inter e aí quis o destino que eu voltasse ao Vitória, onde tudo começou, até porque eu tinha essa vontade. Foi o clube em que comecei, na Bahia, é meu time de coração e eu sempre quis jogar pelo profissional lá. E foi o que aconteceu: cheguei e joguei", exalta.

IDA PARA A EUROPA

Após realizar boa temporada em 2017 pela equipe do Barradão, fazendo 39 partidas e anotando um gol, ele foi negociado com o CSKA Sofia, da Bulgária, seu clube atual.

"Foi uma proposta boa, com um projeto ambicioso de um time que quer brigar por vaga na Champions ou na Liga Europa na próxima temporada, e isso valoriza o clube e minha carreira. Aceitei esse novo desafio e estou muito feliz. Tive uma adaptação tranquila, apesar do frio de -10ºC que peguei no começo, e a torcida está muito empolgada", conta.

"Cheguei com bastante moral. Eles não são tanto de parar a gente na rua, mas eu e o (atacante) Fernando Karanga eles param bastante. Por ter jogador na seleção, eles gostam muito de mim. Na minha apresentação dentro de casa, em um amistoso, a torcida gritou muito meu nome. Estou muito feliz e me sinto bem. Me tratam bem demais, não tem coisa melhor do que isso", celebra.

Aos poucos, Geferson está descobrindo os benefícios de ser ídolo da torcida no Leste Europeu.

"Tem um torcedor muito apaixonado do CSKA que é dono de um restaurante famoso. Quando eu cheguei, estava com meu empresário e fomos jantar no lugar dele. Na hora de pagar a conta, eu não entendi muito o que ele falou, mas ele não deixou a gente pagar de jeito nenhum. Disse que era um presente da torcida para mim por causa da minha chegada (risos)", sorri.