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Campeão da Libertadores pelo Cruzeiro parou aos 31 por lesões; hoje, tem distribuidora de chinelos

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Ricardinho lembra título improvável do Cruzeiro contra esquadrão do Palmeiras de Luxemburgo (2:27)

Volante contou os bastidores da partida realizada no Parque Antárctica (2:27)

Reportagem publicada dia 04/09/2019


Atualmente dono de uma distribuidora de chinelos, Ricardinho é o jogador que mais levantou taças pelo Cruzeiro na história. O ex-volante parou de jogar futebol com apenas 31 anos, em 2008, após ter defendido o Corinthians na temporada anterior. Ele sofreu com lesões no tornozelo, foi submetido a várias cirurgias e decidiu pendurar as chuteiras de forma precoce.

"Eu fui muito bem recebido pela torcida, que era ótima. Queria atuar da mesma forma que fazia antes, mas não estava conseguindo. Fiquei muito frustrado porque gostaria de ter jogado até uns 35 anos. Até voltar a ficar normal demora um tempo, porque parei de repente e sofri um pouco", disse, ao ESPN.com.br.

Assim que decidiu largar os gramados, ele foi morar por dois anos em Miami, já que suas filhas estudavam nos EUA. O ex-jogador passou a estudar inglês, mudou de rotina e conseguiu esquecer um pouco do futebol.

Ao retornar ao Brasil, ele conheceu um representante da marca Grendene, que faz os chinelos Rider e Ipanema, que morava no seu prédio em Belo Horizonte.

"Eles precisavam de um sócio, mas eu não tinha ideia de como funcionava essa vida de empresário. Mas eu resolvei investir, e começamos a trabalhar. Um dia, estávamos jogando bola perto da fazenda do Pedro, dono dos supermercados BH, que é muito cruzeirense. Surgiu a chance de atender a rede dele, que é enorme", contou.

Ricardinho saiu da sociedade e montou a distribuidora de chinelos R8 (uma homenagem ao número que ele usava nos tempos de jogar).

"Eu mudei de ramo totalmente. Futebol só brinco de vez em quando e como torcedor do Cruzeiro. A empresa não me deixa muito tempo livre porque são muitas coisas para cuidar (risos)", contou.

Colega do Fenômeno

Natural de Passos-MG, Ricardinho jogava uma partida preliminar ao Campeonato Mineiro profissional quando foi visto pelo presidente do Cruzeiro. Chamado para fazer testes na equipe celeste, ele foi aprovado e mudou-se para a Toca da Raposa aos 13 anos.

"Joguei na base com o Belletti e depois com o Ronaldo Fenômeno no juvenil. Nosso time era tão bom que fomos direto ao profissional", contou.

O meia estreou em 1994 pelo time de cima com o técnico Ênio Andrade.

"Joguei com Toninho Cerezo, Fabinho, Éder Aleixo e Luisinho, que eram caras fenomenais. O Cerezo me ensinou muitas coisas sobre posicionamento em campo e domínio de bola. Era um grande ídolo e um cara fantástico. Eu só o chamava de mestre. Quando eu jogava a bola para ele dava até vergonha de tanto que ele jogava. Todo dia eu aprendia algo", elogiou.

Em 1996, Ricardinho foi um dos pilares do time que venceu a Copa do Brasil contra o esquadrão do Palmeiras montado por Vanderlei Luxemburgo. O time alviverde tinha faturado o Paulistão e feito 102 gols com Djalminha, Rivaldo, Muller e Luizão.

"O segundo jogo da final em São Paulo foi o mais especial da minha carreira. Foi a maior comemoração que já vi em BH. O time deles era quase todo da seleção. A gente precisou marcar e matar as jogadas porque eles eram fantásticos. A ordem era ficar o máximo de tempo com a bola para não deixarmos eles jogarem. Na semifinal tínhamos passado pelo Flamengo, do Romário, jogando desta forma", explicou.

"Eu quase não dormi antes de jogar na casa deles (risos). Eles eram bons mesmo e sabíamos que poderíamos ficar na história. Essa competição ficou muito marcada e motivou a gente”, recordou.

O ex-volante acredita que o clima de "já ganhou" criado em torno do adversário ajudou na conquista.

"Ficamos sabendo que a festa estava pronta em São Paulo (risos). O Luxa estava no auge! Chegamos praticamente derrotados ao estádio, a toda torcida estava gritando 'é campeão', e até mesmo a imprensa já dava como perdida. Era muito difícil, como se fosse o Santos contra o Barcelona na final do Mundial. Mas nós conseguimos surpreendê-los com uma vitória de virada por 2 a 1".

Libertadores de 97

No ano seguinte, o volante faturou o principal título de sua carreira: a Copa Libertadores da América.

Na semifinal contra o Colo-Colo, Ricardinho não esquece da atuação de Dida, que brilhou na decisão por pênaltis (ele defendeu duas cobranças) e garantiu o time celeste na decisão.

"Todo mundo estava vendo quem iria cobrar pênaltis e eu estava rezando para não bater, mas o [técnico Paulo] Autuori me mandou ser o primeiro a bater (risos)! Do meio do campo até a marca da cal eu estava nervoso demais. Ainda bem que fiz o gol. Se tivesse perdido, acho que nem estaria aqui para contar isso. Poderia ficar marcado e não jogar mais pela parte mental".

Na última partida da final contra o Sporting Cristal, do Peru, o goleiro salvou novamente a Raposa na vitória por 1 a 0.

“Sabíamos que se a situação apertasse, o Dida iria salvar. Ele pegava tudo na hora que precisava mesmo, com defesas improváveis. Na final, a bola desviou na barreira e ele defendeu. No rebote, salvou dentro da pequena área de forma incrível”, contou.

Outra conquista muito marcante para o volante foi a Copa do Brasil de 2000. O time celeste venceu o São Paulo por 2 a 1 no Mineirão com um gol de falta de Giovanni, aos 45 minutos do segundo tempo.

"Em todo lugar que vou as pessoas lembram disso. Nós levamos um gol e precisávamos virar no segundo tempo. O ataque deles era muito forte com França, Marcelinho Paraíba e Raí. Logo depois que viramos, o André defendeu uma cabeçada à queima-roupa e o Clebão tirou a bola quase em cima da linha. Foi o jogo mais emocionante da minha vida.”

Carinho nas ruas

Com as boas atuações pela camisa celeste, Ricardinho foi convocado dez vezes para a seleção brasileira e atuou em duas partidas com a camisa amarelinha. Ele entrou na vitória por 1 a 0 no amistoso contra a Bósnia, em 1996, e no triunfo por 6 a 0 fora de casa contra a Venezuela, em jogo válido pelas Eliminatórias para a Copa de 2002.

"Eu estava sempre com os melhores do mundo como Kaká, Romário, Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho Gaúcho! A convivência com eles foi algo espetacular, só de fazer parte era uma vitória. Só faltou jogar uma Copa, mas na minha época tínhamos caras espetaculares como Dunga, Mauro Silva, César Sampaio, Gilberto Silva, Doriva, etc...", contou.

Ao longo da carreira, Ricardinho trabalhou com técnicos consagrados como Zagallo, Vanderlei Luxemburgo, Levir Culpi, Paulo Autuori e Felipão. Além disso, foi companheiro de craques como Edílson, Alex, Rincón, Ronaldo Fenômeno, Palhinha, Edmundo, Sorín, Maicon, Luisão e Dida.

“Essas feras não precisavam de motivação, era algo natural! Isso contagiava todo mundo e foi por isso que ganhamos tanta coisa”, afirmou.

O jogador ficou na Raposa até o meio de 2002. Depois, passou seis temporadas no Japão (defendeu Kashiwa Reysol e Kashima Antlers) e voltou ao Cruzeiro, em 2006.

No começo de 2007, ele se despediu da equipe com 15 títulos e o eterno apelido de “Mosquitinho Azul”, dado por ser pequeno e muito ágil.

"Em todo lugar que vou as pessoas me reconhecem e dão carinho. Nunca pensei que seria assim, recebo cada homenagem impressionante. Até mesmo os atleticanos me elogiam, apesar de dizerem que passavam raiva comigo (risos)", afirmou.