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Denílson superou morte da mãe, foi campeão mundial no São Paulo, mas 'perdeu' para a solidão no Arsenal

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Em 2008, Denílson abriu casa no Jardim Ângela para ESPN Brasil e lembrou início em campo de várzea com o pai (2:45)

Na época, o volante revelado pelo São Paulo estava no Arsenal, da Inglaterra (2:45)

Quando minha mãe morreu, eu tinha dez anos. Me lembro como se fosse hoje. Olhei no espelho e falei: “Vou tomar conta da minha família”. Estou sendo abençoado, e sempre fui, por estar cumprindo com o que tinha dito naquele momento de sofrimento.

Eu perdi minha mãe no dia 4 de janeiro de 1999 e, 35 dias depois, eu entrava na base do São Paulo. 8 de fevereiro. Ali, para mim, foi um momento muito importante.

Quando ela morreu, nossa vida ficou ainda mais difícil. Eu não vou dizer que passei fome, porque meus pais sempre trabalharam. Mas houve dias em que chegava da escola, e tínhamos que cerrar o pão para colocar açúcar e comer.

Meu pai, José Pereira Neves, se desdobrou para ser pai e mãe ao mesmo tempo. Antes, ele também foi jogador profissional, na Paraíba. Jogou por Campinense, Auto Esporte... Quando saiu de lá, recebeu carta da Portuguesa para fazer avaliação. Acabou não indo. Foi trabalhar para sustentar minha mãe. Na época, eram só os dois.

Foram mais de dez anos como segurança em uma empresa. Mas trabalhava, voltava e às vezes ia brincar nos campinhos que tem lá. O pessoal gostava: “Ô, seu Pereira”... Viam que ele tinha uma qualidade diferenciada, tanto que iam buscá-lo em casa para jogar.

Ele me levava, e eu gostava. Fui até pegando algumas coisas...

Meu pai, para mim, é tudo na minha vida. É o que tenho na terra. Pelo esforço, por ser um cara aguerrido... Não é fácil você perder quem você ama e ter diante de você quatro crianças.

*

Minha vida foi bastante simples. Foram momentos bons e outros ruins, mas com pessoas de verdade, seres humanos de verdade...

Eu nasci e fui criado no Jardim Ângela, periferia de São Paulo. É um bairro simples, mas com pessoas maravilhosas. Tinha muita gente morrendo, tiroteios... Era difícil, mas graças a Deus eu preferi ir por outro caminho e conquistar minhas coisas com meu próprio suor, com trabalho.

Até hoje, quando retorno, acabo vendo algumas pessoas e me bate aquela nostalgia, saudade da época de ser moleque brincando.

No meu bairro, eu era chamado de Pelézinho. Jogava bola na rua com meus amigos, desde criança. Depois, fui despontando. Ia jogar em outros bairros, uma hora ali, em outro lugar... E foi surgindo o interesse pela bola cada vez mais.

“Esse é o caminho”.

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2:45

Em 2008, Denílson abriu casa no Jardim Ângela para ESPN Brasil e lembrou início em campo de várzea com o pai

Na época, o volante revelado pelo São Paulo estava no Arsenal, da Inglaterra

Eu comecei no Estrela da Saúde, entre 1996 e 97, e o meu pai virou treinador da escolinha. Não tenho dimensão da distância, mas andávamos muito para chegar e depois voltar. Ele ganhava uns R$ 300 no mês. Esse valor ele dividia com meu tio, que o ajudava na rouparia, pagava água, luz... Não sobrava quase nada para cuidar de quatro filhos.

Do Estrela da Saúde, eu fui para a escolinha do Bauer (NR: ex-volante e ídolo do São Paulo), mas ele não tinha suporte para manter e decidiu encerrar em 1998.

Só que, em 99, um mês depois que minha mãe morreu, o São Paulo ainda estava precisando de jogadores nascidos em 1987. O Bauer escolheu cinco garotos: entre eles, eu e meu irmão mais velho. Eu não tinha idade, só poderia estar na base em 2000.

Adiantei, entrei e fiquei direto. Pensei: é a minha única oportunidade na vida. Peguei e abracei.

*

No dia 16 de fevereiro de 99, completei 11 anos. Eu era o caçula da turma. O Arlindo (Galvão, ex-zagueiro do São Paulo) falou para o meu pai: “Ô, Pereira, o Denílson tem 11 anos mesmo? Ele é 88? Então, gente não tem essa categoria, só ano que vem”.

Como eu já estava treinando, me deixaram ficar. E nessa de “fica por aí”, fui atropelando todo mundo. Eu sabia, ou eu vencia naquele momento ou desistia.

Minha rotina era estudar das 7h ao meio-dia e já sair para pegar dois ônibus. Chegava no Morumbi com fome, almoçava rápido e já entrava dentro do ônibus que me levava até o treino. Quando acabava, era mais fácil falar para o professor que ia ficar ali. Minha casa era a 10, 15 minutos. Mas eu sabia que não tinha uma alimentação.

Preferia voltar para o Morumbi...

Depois que eu comia, eu pegava mais dois ônibus à noite – e muito trânsito. Quando descia no Ângela, ainda tinha que andar para caramba, uns 40, 50 minutos até chegar minha casa. Chegava umas dez e meia da noite. No outro dia, meu pai me acordava para ir para a escola.

Eu não tive muita infância, muito tempo para brincar. Eu peguei responsabilidade desde cedo, desde quando minha mãe faleceu. Sou grato ao São Paulo, pelo que fez por mim e pela minha família também.

*

Quando cheguei na base, eu era centroavante. De atacante, foram me puxando: o Arlindo me puxou para meia e depois para segundo volante. Ponto.

Em 1999, fiz minha primeira viagem internacional, para a França. Disputamos um torneio, por meio do Raí, no Parque dos Príncipes.

Passaram-se mais dois anos, estava com 12 para 13 anos, a Portuguesa me queria. No São Paulo, eu não ganhava nada, nem R$ 10. Estavam querendo dar uma luva de R$ 100 mil e um valor de R$ 10 mil por mês.

Eu comecei a faltar na escola, o Arlindo ligou para o meu pai. “Ô, Pereira, o que está acontecendo, que o Denílson não está vindo treinar?”. Meu pai me chamou para conversar.

“Olha, pai, com a dificuldade que a gente passa, a Portuguesa está me oferecendo essa situação que é bem melhor, vai mudar as nossas vidas. A gente precisa, no São Paulo, não estou ganhando nada, não dá para ajudar o senhor.”

Meu pai falou: “Não se preocupa, porque eu trabalho para isso. Quero que você se foque na escola e no São Paulo. Deixa a Portuguesa lá, eu sei que você vai vencer no São Paulo”.

Eu voltei para o clube e, depois de cinco meses, comecei a receber uma ajudinha de custo, de R$ 30 a R$ 50 de ajuda. Eu dava a maior parte para ele, o resto era para comprar pirulito na escola. Fui trabalhando, trabalhando até chegar, com 15 anos, na primeira seleção de base.

Jogava com Marcelo, do Real Madrid; Kerlon, Foquinha; Ramon, que era do Atlético-MG, jogou no CSKA; Alexandre Pato ia às vezes; Willinha, do Chelsea, amigão; Anderson, ex-Manchester United, o mais novo da nossa geração a ir para o profissional...

Eu subi com 17 anos. No meio da Libertadores em 2005, eu morava no Morumbi. Eu disputava a Copa Cultura com os juniores, com o Jean, Hernanes, todos juntos... Um dia, acabou o treino de manhã, fui descer do ônibus, e o Vizolli, nosso técnico, falou para eu ir à tarde para a Barra Funda: “Você vai treinar com o profissional”.

Eu pensei que eu ia e depois ia voltar, mas não: fiquei direto. O Milton Cruz e o Paulo Autuori vieram falar comigo. “Pô, maravilha”. O São Paulo estava muito bem.

Minha estreia foi emocionante. Pelo Brasileiro, à noite contra a Ponte Preta, lá. Eram quatro e pouco da tarde, meu telefone tocou no quarto que dividia com o Mineiro. O Milton mandou eu descer. Na sala, estava ele com o Paulo Autuori, que perguntou, com aquele vozeirão:

“E aí, garoto, como está?”

“Estou bem.”

“E aí, está pronto para hoje? Você vai jogar.”

No momento em que ele falou aquilo, para mim, foi tudo.

Fui bem nesse jogo, mas a partida que mais me marcou naquele ano foi contra o Corinthians: 1 a 1, no Morumbi, gol do Amoroso nosso. Eles tinham Carlos Alberto, Roger, Nilmar, o time da MSI, só os feras... Acho que o Tévez não jogou.

Foi o jogo em que senti: “Agora vou ficar por aqui”. Dominava a bola que parecia que estava jogando há 40 anos com os caras. Quando acaba o jogo, o Fabão brincou: “Esse menino não tem só 17 anos. Ele tem muita experiência para ter 17 anos”.

No fim do ano, fui campeão mundial. Eu nem sabia que iria, fiquei sabendo pela TV. Foi ali que eu passei a usar a camisa 15, que uso até hoje. É indescritível, difícil explicar, você fica em choque... Ser campeão mundial no meio de gigantes!

E, com o dinheiro daquele título, eu pude comprar uma casa para o meu pai. Realizei outro sonho na minha vida.

*

Os clubes de fora começaram a se interessar no meu trabalho nas seleções de base. Naquela época, fiquei sabendo do Bayer Leverkusen.

O Arsenal queria contratar outro brasileiro, o Ramon. Mandaram passagem para o Galo, para ele ir para a Inglaterra, ficar uns dias e fazer amistosos por lá. Ele acabou com o treino... Mas o extracampo dele acabou não dando certo... Não cumpria ordens... E isso chegou no Arsene Wenger. “Se não estiver disciplina, não joga”, ele dizia.

O Sandro Orlandelli era o scout do Arsenal. E gostava de mim. O Wenger viu meus vídeos. “Quero esse volante”. Fui contratado em 2006.... No dia 31 de agosto, último da janela: o pessoal saiu da Inglaterra para o Japão, onde eu jogava a Copa Sendai com a seleção sub-18. Eu, no hotel, fuso-horário, assinei o contrato.

Cheguei sem saber falar nada de inglês. Fui recebido pelo Gilberto Silva, Wenger e Thierry Henry. As minhas pernas tremeram. Foi uma experiência única. É um outro nível, outro patamar. Não ganhei títulos, mas foram, sim, cinco anos muito bons.

Na minha estreia, ganhamos. Já senti uma atmosfera diferente. Daí em diante, progressão: às vezes descia para jogar com os meninos para ganhar experiência, mas sempre treinava com os profissionais. Ia para jogos, às vezes entrava, às vezes não...

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2:11

Relembre quando Denílson conheceu a Rainha da Inglaterra com o Arsenal

Em 2007, ao lado de outros jogadores dos Gunners, o volante brasileiro encontrou Elizabeth II no Buckingham Palace, em Londres

Meu jogo preferido é contra a Roma pelas quartas de final da Champions League. Os dois jogos. Eu consegui marcar bem o De Rossi, que estava voando. Naquele jogo, ele sofreu. No segundo, eu estava tão eletrizado que pedi para bater pênalti na disputa. O Wenger ainda perguntou se eu tinha certeza...

“Tenho.”

O goleiro da Roma era o Doni: “Denilson, eu vou pegar esse pênalti”. Eu pensei: “Ele pode pegar, mas eu vou chutar forte”.

Conseguimos a classificação.

Eu não sentia nada, pressão alguma, parecia que estava jogando na várzea, na rua...

*

No começo, foi tudo novidade: país, clima, pessoas. Mas, com o passar do tempo, você vai sentindo muitas coisas... Mentalmente.

Acabava o treino, voltava para casa. Queria dar uma volta, era duas, três da tarde, já estava tudo escuro em Londres. Isso vai te consumindo. Eu pensava: “Meu Deus do céu, que vida é essa?”

O Gilberto me ajudou muito na adaptação. Ele me chamava sempre para ir à casa dele. Mas eu pensava: ele tem a vida dele, a esposa, os filhos e os familiares... Eu achava que, se ficasse, iria atrapalhá-lo no momento de lazer e descanso dele.

Teve Natal que fui convidado por ele e não fui. Fiquei sozinho em casa achando que poderia incomodar ou ser inconveniente.

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1:56

Imagens raras: o samba que unia Denílson, Júlio Baptista e Gilberto Silva no Arsenal

João Castelo-Branco gravou o momento em 2007, quando o trio estava no Arsenal, da Inglaterra | via YouTube: Joao Castelo-Branco

Eu cogitei levar meu pai para morar comigo, mas ele trabalhava na escolinha para ajudar meus irmãos. Foi até bom, porque talvez ele não aguentaria. A vida é muito diferente na Inglaterra. Depois de um tempo, meu pai ficou um mês comigo.

Saímos, o levei a um restaurante de frutos do mar, que ele adora, e ele me disse:

“É, meu filho, hoje eu sei o que você passa.”

“É, pai, mas esse fardo é meu. Eu que tenho que carregar. Não posso jogar para os outros.”

Eu iria me sentir culpado... As pessoas estariam infelizes, porque só estariam lá por minha causa. Tanto que foi só depois de dois ou três anos que comecei a levar gente para ficar comigo, passar um mês em casa...

Mas ali, já estava desgastado pela solidão.

Eu jogava no estádio com 67 mil pessoas gritando, aquele barulho, clima gostoso, envolvente. Acaba o jogo, pego o carro, vou para a minha casa, sozinho. Chego, aquele silêncio, solidão em pleno sábado. Entrava no MSN querendo bater um papo e não tinha ninguém para conversar.

Às vezes você tem condições financeiras, mas não tem o essencial. Isso foi mexendo bastante comigo. Até que chegou em um ponto que não queria mais, quis voltar para o Brasil.

Tive ofertas do Shakhtar Donetsk, e o diretor do Sevilla foi até a minha casa para conversar. Mas não eu não queria ir para outro país, queria voltar para perto da minha família e dos meus amigos.

Faltavam poucos meses para eu fazer seis anos de Inglaterra para pegar o passaporte europeu, mas meu psicológico já não estava aguentando mais.

*

Eu tinha mais dois anos de contrato com o Arsenal, mas pedi para voltar ao Brasil. Fui emprestado ao São Paulo em 2011. Depois de uma temporada, fui comprado e fiquei até 2015.

Antes de ir embora, fui na sala do Wenger agradecê-lo por tudo que fez por mim. Ele pediu para eu ir para casa, pensar melhor. Só que eu queria voltar... Depois, nunca mais falamos.

No São Paulo, foi maravilhoso, pude ser campeão da Sul-Americana de 2012. Já tinha vencido o Mundial no banco, não terminei o Brasileiro de 2006... Faltava o gosto de ser campeão jogando. Foi especial. Só queria que acontecesse o segundo tempo daquela partida, para terminar bem. Mas fomos campeões do mesmo jeito.

Infelizmente, depois, foram só decepções. Era para termos ganho mais títulos... Eu cheguei a um acordo com o São Paulo, que foi bom para todos. Eu iria sair, precisava de novos ares.

Fui para o Al Wahda, dos Emirados Árabes. Fui com a família, fiquei um ano e meio. O clube estava seis anos sem ser campeão, e eu fiz o gol do título, com passe do Valdivia.

Voltei por empréstimo ao Cruzeiro, mas não tive muitas chances de jogar. Culpa minha mesmo. Não estava bem. Ainda voltei para os Emirados, mas eles já tinham contratado outro atleta estrangeiro. Eu ficava esperando... Não jogava, só treinava.

Eu rescindi o contrato e fui tratar meu joelho no Brasil, já sentia muito incômodo.

Em 2018, o Botafogo-SP veio me contratar, tinha antigos diretores do São Paulo por lá. Mas no tempo que fiquei, infelizmente, não deu certo. Problemas internos, nem gosto muito de falar... Para mim, não existiu. Rescindi meu contrato faltando uma semana para começar a Série B do Brasileiro.

Nesta quarentena, tenho me cuidado. Estou treinando e me dedicando. Se aparecer algum clube, estou pronto e vou chegar muito bem. Estou fazendo trabalho de campo, tenho acompanhamento de endócrino, fisioterapia, preparador físico e nutricionista... Estou em forma. Física e mentalmente.

Eu estou algum tempo fora do mercado e não posso exigir só clube de Série A. Se aparecer alguma oportunidade na Série B, por que não? Ainda tenho mais cinco ou seis anos de futebol. O que mais quero é retornar a trabalhar.

Passei por tudo isso, mas tenho só 32 anos... Com energia de 17.

Estou só esperando o telefone tocar.


* Depoimento ao repórter Vladimir Bianchini | Edição: Thiago Cara