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Gattuso, ídolo do Milan, se substituía para ser aplaudido, dava tapa nos jogadores e pedia para filho lhe bater

Reportagem publicada originalmente dia 06/03/2016


Treze anos de Milan e 17 títulos levantados com a camisa rossoneri, sendo dois Campeonato Italiano, duas Supercopas Italianas, uma Copa Itália, duas Uefa Champions League, além de um Mundial de Clubes e duas Supercopas da Uefa - isso tudo sem contar a Copa do Mundo de 2006, pela seleção da Itália. Indiscutivelmente, Gennaro Ivan Gattuso é uma lenda para a equipe de San Siro.

Considerado um dos jogadores mais "raçudos" da história do futebol mundial, o italiano natural de Corigliano Calabro, colecionou, além de vários títulos, incontáveis carrinhos, cartões, desarmes, "tabefes" e apertões durante toda sua carreira.

Mas as trocas de "gentilezas" de Gattuso não se limitavam apenas aos jogadores e técnicos adversários. É o que conta, ao menos, o zagueiro Adaílton, ex-Vitória e Santos, que jogou e foi comandado por ele no Sion, equipe da primeira divisão suíça.

"Ele chegou fora de forma e, logo no primeiro treino, se posicionou como se fosse realmente um cão de guarda, o olho dele era vivo. Eu me perguntava: ‘o que ele toma pra estar todo dia assim com essa motivação?' (risos). Mas era coisa dele mesmo. Até mesmo a família dele era desse jeito. Conheci o filho dele e até as brincadeiras com o garoto eram mais brutas para a idade (risos). Ele pedia para o filho dele dar pancadas na cara, quando ele não tinha nem três anos de idade (risos). Eu olhava e não entendia, é um personagem", contou, em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br.

Apenas o filho, Francesco tinha "moral" para dar tapas em Gattuso. Com seus companheiros, a história era diferente.

"Antes do jogo, você não pode estar na linha de visão dele, porque a mesma brincadeira que ele faz de tapa com o filho ele faz com você. Dá cada tapa no seu peito, tapa na sua cara para você acordar (risos)", lembrou o ex-defensor.

Apesar do jeito um pouco violento, Gattuso era uma figura amigável e generosa.

"Ele era extremamente querido, todo mundo o adora. Nos levou para fazer a pré-temporada no CT dele. O cara é rei em Milão e nos levava para ver jogos no Milan, comer no restaurante dele", comentou.

"Foi uma das pessoas mais impressionantes que eu convivi na história do futebol. Ele não tinha mais nada a perder porque tinha uma carreira fantástica, mas a motivação que ele tinha em cada treinamento era algo assustador. Eu nunca vi na minha vida. É uma pessoa fantástica, uma das grandes surpresas que eu tive no futebol", completou Adaílton.

Saía aplaudido de campo

Não era raro ver o volante sair de campo aplaudido pela torcida quando atuava e treinava ao mesmo tempo o Sion. De acordo com o ex-santista, essa era uma estratégia comum de Gattuso.

"Quando o jogo estava ruim ele ficava até o final, não saía de jeito nenhum. Mas, quando estávamos vencendo, sempre lá com uns 35 minutos do segundo tempo, ele fazia que estava com câimbra. Ele mesmo se substituía para ser aplaudido e tal. Você pensava que ele estava contundido mesmo", disse.

Mas não era bem assim.

"Daí ele ia para a beira do campo e ficava gritando, correndo de um lado para o outro (risos). Eu olhava e pensava: 'rapaz, mas ele não estava cansado e ainda tem esse folego para correr?' (risos). O Gattuso não existe", gargalhou ao recordar.

Para ser um vencedor na vida, muitos têm segredos, estratégias e planos. O ex-volante garante não ter nada disso.

"Um dia perguntei a ele: ‘o que vocês comiam antes das partidas de Copa do Mundo, Champions League?' Porque dava a impressão que ele corria muito mais do que a gente. Para a minha tristeza, ele me disse que comiam a mesma coisa que a gente. É que eles eram bons mesmos, não tinha nada de comida diferente", comentou.

"Ele tem um estilo de vida vencedor, não consegue conviver com algo que tenha esse desafio diário, até por isso ele saiu dos clubes. Porque lá ele já tinha vencido tudo o que podia", finalizou.