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Ex-Atlético-MG é tão ídolo na Coreia que não pensa em voltar ao Brasil: 'Presidente não me vende por dinheiro algum'

O campeonato da Coreia do Sul começou nesta sexta-feira depois que a pandemia de coronavírus que paralisou várias atividades – incluindo o futebol – pelo país.

Será a chance da torcida do Daegu ver em ação o ídolo Cesinha, meia que passou pelo Corinthians e foi campeão mineiro em 2015 pelo Atlético- MG.

“Ganhando ou perdendo eles querem te abraçar, tirar foto e te apoiam. Eles vão ao estádio para fazer festa e dar presentes. Eu já ganhei muita comida, principalmente coisas apimentadas, e um vaso de barro feito à mão”, disse ao ESPN.com.br.

Em cinco anos no país, brasileiro virou um artigo de luxo entre os fãs do Daegu.

“Eu já virei broche, bolacha, bebida (uma vitamina c como se fosse refrigerante) e todo jogo uns torcedores levam uma bandeira gigante do Cristo Redentor como meu rosto. Está escrita em português: ‘Cesinha, salva-nos’”, explicou.

De tão querido, Cesinha conta que não consegue andar de forma anômina pelas ruas da Coreia.

“Em qualquer lugar que ando me reconhecem. Eles me chamam de The King of Daegu. Várias vezes eu vou comer e alguém me paga a conta do restaurante ou o dono não me deixa pagar e ainda ganho sobremesa. Eu vou a um churrasquinho que o dono é torcedor fanático e não me deixa pagar nada. Eu dei uma camisa para ele, que ficou maluco”, contou.

Um dia, ele foi encher os pneus do carro em um posto e foi reconhecido pelo dono, que é torcedor fanático do clube.

“Eu estava com cabelo pintado de branco e me chamavam de ‘Daeguero’ por causa do Aguero (risos). Ele tirou uma foto comigo e me ofereceu uma lavagem gratuita e não me deixou pagar: ‘Se quiser, pode lavar o carro todo dia aqui’”, recordou.

Cesinha precisou voltar a usar os cabelos escuros para diminuir um pouco o assédio. “O pessoal da cidade trata minha esposa como se fosse jogador também, ela é idolatrada e ganha presentes”.

A idolatria tem uma razão. Desde que chegou ao Daegu, ele fez o gol que decretou a acesso da equipe à elite da Coreia e também o do título da Copa da Coreia, primeiro título da história da equipe.

O meia também fez gols importantes e entrou para a seleção de vários torneios.

“Aqui eu deixei de ser um atacante de beirada e virei meia, minha verdadeira posição. Se tivesse descoberto isso antes eu teria dado mais certo no Brasil”, admitiu.

Além da idolatria, Cesinha desperta temor dos adversários.

“Os adversários têm medo de mim. Quando eu entro em campo, os caras falam: lá vem esse cara (risos). Quando eu não estou em campo o time não ganha. Ai eu volto, o time ganha. Eles são meio supersticiosos, só me deixam fora de jogo quando eu estou com uma perna só”.

Por tudo isso, o brasileiro não pretende sair do Daegu tão cedo.

“Antes eu queria ir para outros lugares ganhar mais dinheiro, mas hoje desisti. O presidente pegou um amor por mim e não me vende por dinheiro algum. Um time da China ofereceu 5 milhões de euros e ele não quis nem escutar, disse que eu era invendável, não tinha valor”.

“Nossa ideia é finalizar a minha carreira por aqui mesmo e continuar no clube como diretor ou treinador”.

Enquanto isso, os torcedores poderão ver por mais alguns anos Cesinha em campo. O brasileiro já estava ansioso por voltar a jogar.

“A maioria dos casos aqui foi em fevereiro, mas conseguiram controlar bem a situação. Foi uma surpresa porque aqui foi o epicentro do coronavírus na Coreia. Nós estávamos treinando algum tempo”.

Do escritório ao Atlético-MG

Cesinha perdeu o pai com apenas cinco anos e se mudou com a mãe para Santa Albertina, onde começou a jogar futebol. Aos 16 anos, foi trabalhar em um escritório de contabilidade.

“Eu emplacava carros, fazia cobranças, fazia RG e documentos. Mas já fiz tudo que é tipo de trabalho: vendi verduras, já carpi lotes e apanhei algodão, laranja e algodão”.

Aos 17, participou de um jogo festivo da seleção da cidade contra o time profissional do Rio Preto. Cesinha foi tão bem que foi chamado para fazer testes.

“Ganhei uma semana livre e fui para lá, mas não gostei da estrutura. Um menino foi picado por escorpião e me assustou. Depois, fui aprovado em um teste no América-SP e joguei a Copa São Paulo de 2009”.

Apesar do time não ter passado para a segunda fase, Cesinha se destacou e foi contratado pelo Corinthians.

Após ficar no sub-20, ele se profissionalizou e foi para o Corinthians B, no qual ficou pouco tempo. Depois, ele passou por Monte Azul, Osvaldo Cruz , União Barbarense, Audax e Bragantino.

“Fiz um gol no Rogério Ceni contra o São Paulo, joguei bem o começo da Série B do Brasileiro e fui contratado pelo Atlético-MG. Tive uma breve conversa com o São Paulo, mas não rolou porque talvez o Braga tenha pedido muito dinheiro”, recordou.

Cesinha chegou no segundo semestre de 2014 ao Galo, mas não pôde atuar na Copa do Brasil porque já tinha atuado na competição pelo Bragantino.

“Foi um grande aprendizado porque tinha caras bons em campo e o Levir. Eu era um jogador de procurar ver o que os caras fazem de bom. Vinha de uma fase boa e jogava sempre, mas tive um rompimento do tornozelo. Fiquei muito tempo parado e me prejudicou muito”, lamentou.

“Voltei no ano seguinte e não consegui me adaptar porque sentia muitas dores e não conseguia dar o meu melhor. Eu estava no alto e ao mesmo tempo lá embaixo”, analisou.

No ano seguinte, ele venceu o Campeonato Mineiro, mas não conseguiu permanecer.

“O [diretor de futebol do Galo] Eduardo Maluf queria fazer mais um ano de empréstimo, mas o Bragantino só queria vender. O [presidente] Marquinho Chedid pediu muito dinheiro e o Atlético-MG recuou”, disse.

Cesinha foi em seguida para a Ponte Preta e chegou a ficar duas semanas no América-MG. Quando estava em Belo Horizonte recebeu a oferta do Daegu, que mudou sua vida.