Apesar de ter "nascido" no Brescia e das conquistas de títulos recentes com a Juventus, a imagem do craque Andrea Pirlo permanece fortemente ligada à camisa do Milan, clube que defendeu por 10 anos (2001 a 2011).
Com os rossoneri, ele formou um meio-campo inesquecível ao lado de Gattuso, Seedorf e Kaká e ganhou um caminhão de títulos, como duas Champions, um Mundial de Clubes e dois Italianos, entre outras taças.
No entanto, poucos se lembram que, antes de alcançar o estrelato com o uniforme rubro-negro, Pirlo teve passagem pelo maior rival milanista: a Inter de Milão.
Ela ocorreu entre 1998 e 2000, quando os nerazzurri contrataram a então promessa da seleção sub-21 da Itália por 2 milhões de euros (R$ 12,1 milhões, na cotação atual).
O jovem talento foi trazido para emular a mesma função que vinha fazendo na base da Azzurra: a de armador clássico. Não à toa, ele vestia a camisa 10 quando jogava pela seleção.
Segundo conta o ex-volante Zé Elias, que jogou com Pirlo na Internazionale, na temporada 1998/99, o garoto chegou a Milão com uma responsabilidade imensa.
Ao longo de dois anos, porém, ele faria apenas 37 partidas com a camisa nerazzurra, sem marcar um gol sequer.
Hoje comentarista da ESPN Brasil, Zé Elias considera que o ex-colega só encontrou sua posição de fato em campo quando foi emprestado para o Brescia, sendo recuado para volante.
"Quando o Pirlo chegou à Inter, era para ele ser o substituto natural do Baggio, que estava entrando na reta final da carreira. Então, dá para dizer que ele estava sendo preparado para isso", contou.
"Naquela época, ele era um camisa 10 que jogava do meio para frente. Só que ele tinha dificuldades para jogar de costas, e isso atrapalhava. Nos treinos, ele jogava fácil, dava só dois tapas na bola. Mas, na hora do jogo, não dava certo", recordou.
Após a temporada 1998/99, Pirlo foi emprestado para a Reggina. Retornou à Inter, fez só sete jogos em 2000/01 e acabou novamente repassado, desta vez ao Brescia, equipe em que iniciou a carreira.
De volta ao "lar", ele foi treinado pelo experiente Carlo Mazzone, um dos mais célebres técnicos da "velha guarda" no Calcio.
Carletto, como era conhecido, observou que Pirlo não teria futuro se continuasse como meia, e resolveu experimentá-lo como volante.
Foi um sucesso, com o meio-campista florescendo de vez para o futebol e ajudando o Brescia a fazer uma grande temporada.
"O Mazzone, que já tinha treinado Roma, Fiorentina e Napoli, recuou o Pirlo para ser volante e jogar de frente para o gol. Dessa forma, ele virou o melhor jogador que já vi na posição dele", exaltou Zé Elias.
Ao retornar do empréstimo, porém, Pirlo foi avisado que não seria aproveitado pela Inter, já que a equipe resolveu envolvê-lo em uma negociação.
A transferência se deu da seguinte forma: o Milan deu o meia Drazen Brncic e mais 33 bilhões de liras italianas (17 milhões de euros, ou R$ 102,8 milhões) e levou Pirlo.
A negociação é até hoje lembrada na Itália, já que os rubro-negros levaram um craque por uma verdadeira "pechincha", apresentando o reforço em um pacotão ao lado do atacante Inzaghi e o do meia Rui Costa.
Brncic, por sua vez, sequer chegou a jogar pela Inter de Milão, deixando a equipe em 2003 como um enorme fracasso.
CALÇA LARANJA E BLUSA VERDE
Do tempo em que conviveram juntos, Zé Elias lembra de um Pirlo "engraçado" e "extavagante".
O italiano ainda se destacava entre o elenco interista pelas roupas extravagantes que gostava de usar.
"O Pirlo sempre foi um cara na dele. Quem não o conhece, acha que ele é um cara fechado. Mas, na verdade, ele é muito engraçado. Fala pouco, mas tem umas 'tiradas' muito divertidas", relatou.
"Todo dia a gente ficava esperando ele chegar ao treino para ver com qual roupa ele ia aparecer, porque ele adorava combinar calça laranja com sapato marrom e blusa verde (risos). Ele gostava de se vestir de uma forma bem diferente, e a gente brincava muito com ele sobre isso", divertiu-se.
Zé conta que o craque da Azzurra sempre teve com cuidado especial com suas vestimentas.
"Ele tinha aquele estilo bem italiano de se vestir todos os dias, não importava a ocasião: camisa engomada, calça passada, sapato engraxago, essas coisas. E a gente não estava acostumado com isso no Brasil (risos). A gente era mais relaxado. Mas o Pirlo, além de sempre bem arrumado, era um menino totalmente do bem", salientou.
O 'VOVÔ' BAGGIO
No pouco tempo em que ficou na Inter, Pirlo teve ninguém menos do que Roberto Baggio como mentor.
O veterano jogou duas temporadas pela Inter (1998/99 e 1999/00) após se transferir do Bologna. Durante os treinamentos, ele gostava de ensinar diversas "manhas" ao jovem meio-campista.
"O Pirlo sempre conversava muito com o Baggio nos treinos, e o Baggio dava e ele muitas dicas para bater na bola", recorda Zé Elias.
"Quando acabavam os treinos, eles ainda faziam 'hora extra' e ficavam os dois juntos batendo faltas, o que sempre foi especialidade do Baggio. Não foi à toa que o Pirlo se tornou um ótimo cobrador também", exaltou.
O ex-jogador da seleção brasileira, aliás, guarda até hoje um carinho enorme por Baggio, que era considerado o "vovô" do plantel nerazzurro.
"O Baggio era um cara muito simples, ainda mais pela grandeza dele e pelo o que ele representava para o futebol italiano e mundial. Um cara fenomenal, que jogava demais. Uma pena que, na época da Inter, ele já estava com o joelho ruim", lembrou.
"Lembro até hoje que, no meu aniversário, o Baggio me deu de presente uma cartolina com uma foto minha e do Ronaldo jogando pela seleção. Foi muito legal. A gente o chamava de 'Nonno' ['Vovô'], porque ele era um dos mais experientes. Aí estava escrito assim no presente: 'Do Nonno Baggio para o Zé, parabéns a você!'", finalizou.
