Reportagem originalmente no dia 04/02/2019
Conhecido pelo apelido de Cristian "Mendigo", o meia ficou nacionalmente famoso ao passar pelo Palmeiras, em 2005 e 2006, e mais recentemente por ser campeão paulista pelo Ituano em cima do Santos, em pleno Pacaembu, em 2014.
Nascido em Uruguaiana-RS, na fronteira do Brasil com a Argentina, Cristian tentou ser jogador de futebol desde cedo. Fez testes em Grêmio e Internacional, os maiores clubes do Estado, mas acabou não sendo aprovado devido à baixa estatura.
"No Sul, eles dão muito valor para tamanho e força. Os baixinhos esperam (risos)", disse, ao ESPN.com.br.
O jeito foi arrumar as malas e partir para São Paulo em busca de uma chance. Ela veio no Velo Clube, de Rio Claro, quando o atleta tinha 17 anos. De lá, ele foi para o Guarani, e em seguida para o Juventus, de São Paulo. Foi na tradicional equipe do bairro da Mooca que as coisas começaram a deslanchar.
"Fiquei sete anos no Juventus. Era a época em que tinha a (empresa de agenciamento) Euro Export, que tinha vários jogadores, como Zé Roberto, Alex, Luisão, Thiago Motta, e estava à frente do clube... Chegamos na final da Copa São Paulo de 2000. Dei a assistência pro Gaúcho abrir o placar pra gente, mas tivemos um jogador expulso ainda no primeiro tempo e depois levamos a virada do São Paulo. Um dos gols deles foi de bicicleta do Júlio Baptista", recordou.
A expectativa de Cristian nessa época era acertar uma boa transferência para o futebol europeu, mas as coisas não saíram como planejado. Uma hora, ele cansou de esperar.
"Um dia cheguei na diretoria e falei: 'Vocês vendem todo mundo para fora, mas eu sempre fico. Como faço pra sair?'. Eles nem deram bola. Aí meu contrato acabou em 2003 e foi um negócio muito louco. Recebi uma oferta do Ituano e não renovei com o Juventus. No Paulistão, arrebentei num jogo contra o São Caetano e em seguida o Paraná Clube me ligou, fui para lá depois do Estadual", contou.
"No Paraná eu fui muito bem. Quase ganhei a Bola de Prata no Brasileirão de 2004, sob o comando do Gilson Kleina. Pra você ver: fiquei sete anos no Juventus e nem Série C de Brasileiro eu joguei. Em um ano eu estava na Série A e me destacando", ressaltou.
Ao fim do Brasileiro 2004, os grandes clubes vieram babando para cima daquele garoto do Paraná Clube. O que Cristian só foi saber tempos depois é que ele foi disputado palmo a palmo por dois grandes rivais paulistas.
"Recebi algumas propostas no final daquele ano, mas deixei tudo na mão do meu empresário. O treinador do Botafogo, que era o Paulo Bonamigo, chegou a me ligar pessoalmente. Fiquei sabendo depois que o São Paulo veio atrás de mim, mas meu empresário tinha um parceiro com muita moral no Palmeiras, e por isso fui para lá. Eu só fiquei sabendo na verdade desse interesse do São Paulo um bom tempo depois, na verdade, por meio do auxiliar do (técnico Emerson) Leão. Quando ele chegou ao Palmeiras, em 2005, me perguntou: 'Por que você não quis ir para o São Paulo?'. Mas eu nem sabia dessa situação", relatou.
"O São Paulo acabou tendo um ano sensacional em 2005, foi até campeão mundial. Eu pensei: 'Me ferrei' (risos). Mas claro que é brincadeira. Chegar ao Palmeiras foi bom demais, uma experiência que mudou minha vida. Cheguei com vários outros reforços, mas fui um dos que ficou mais tempo lá, quase dois anos. Dos que chegaram juntos comigo, quase ninguém completou um ano. Time grande em fase difícil é assim: se não é campeão, contrata vários outros caras para o ano seguinte, e os que estão sob contrato você vai emprestando", analisou.
RESENHAS NO PALESTRA ITÁLIA
Os tempos de Palmeiras não foram fáceis para Cristian. Com a era Parmalat já acabada, o Verdão vivia os tempos do "bom e barato", mas não conseguia competir no mesmo nível que a torcida havia ficado acostumada poucos anos atrás.
Apesar disso, o meia só tem boas recordações.
"Joguei com craques como 'São' Marcos, Gamarra, Juninho Paulista, Marcinho, Edmundo... Só feras! O 'Animal' era maluco. Se não tocasse a bola pra ele o cara ficava nervoso (risos). Mas fora de campo era um cara sensacional, um parceirão", relembrou.
Foi no Palestra Itália, aliás, que Cristian acabou ganhando o apelido que lhe acompanha até hoje.
"Esse apelido de 'Mendigo' surgiu no Palmeiras graças ao Diego Souza, o 'Bunda de Urso' (risos). Foi por causa do Mendigo, personagem do 'Pânico na TV', que tinha barba e cabelo parecidos com os meus. Ainda bem que eu nunca liguei pra esse apelido, porque pegou forte e eu carrego até hoje (risos)", gargalhou.
A aparência um tanto desleixada, aliás, lhe rendeu um bom causo ao lado do técnico Emerson Leão, conhecido pelo temperamento explosivo.
"Quando minha filha estava para nascer, pedi para o Leão me liberar para o parto. Um dia antes, fui lá falar com ele, mas o homem tinha brigado com a diretoria e estava uma fera. Ele tinha aquela regra que não podia ir treinar de regata, bermuda e chinelo, tinha que ir de calça e camisa. Só que naquele dia estava um calor danado, e eu acabei metendo uma roupa mais 'de boa' (risos). A hora que eu entrei na sala dele o bicho ficou até vermelho: 'Não, não, não! Vai trocar de roupa e depois você fala comigo!' (risos)", divertiu-se.
"Nisso, o Fernando Leão, que era preparador físico e sobrinho do Leão e disse: 'Cristian, você pegou ele num dia complicado...' (risos). No fim, só peguei a folga da manhã, de tarde tive que ir treinar do mesmo jeito (risos)", sorriu.
Nesses tempos, Cristian era uma espécie de "xodó" do elenco, e era um dos principais alvos das brincadeiras da turma.
"Um dia o Marcos falou pro Leão que o meu autógrafo era horrível. Aí era aniversário da filha do Lúcio, lateral esquerdo, e ele falou que queria que eu mostrasse minha assinatura pro Leão. Pensei: 'F***, vou ter que caprichar' (risos). Fiz bem devagar, e o Leão falou: 'Pô, Marcão, para de inventar, nem é tão feia assim'. E o Marcos ficou inconformado: 'Professor, aí não vale, ele caprichou! Assim até eu. Ninguém entende nada que ele escreve' (risos)", rememorou, saudoso.
Ao todo, o armador fez 30 partidas pelo Verdão, marcando um gol. Apesar de não ter conquistado títulos, Cristian afirma que sempre teve carinho dos torcedores, e que a relação com os palmeirenses é boa até hoje.
"A torcida sempre me tratou bem demais. Tanto é que sempre que eu joguei contra o Palmeiras nunca fui xingado. No máximo umas brincadeiras, mas nada de hostilidade. Até hoje o pessoal tira onda, 'e aí, Mendigo?'. Muita gente lembra de mim, e isso pra mim não tem preço", celebrou.
As maiores lembranças que ficaram foram as dos clássicos contra os rivais paulistas.
"Lembro um dérbi contra o Corinthians dos galácticos da MSI que foi tenso. O Leão me mandou marcar o Mascherano, e eu fiquei tranquilo, porque achei que ele não fosse passar do meio-campo. Só que ele enganou todo mundo e foi jogar perto da nossa área, quase como um meia. Tomei um monte de xingamento (risos)", brincou.
"Nesse jogo, o Rosinei entrou no lugar do Carlos Alberto e acabou com o jogo, fez dois gols e perdemos de 3 a 1. Aí o Baiano tinha muita raiva dos argentinos, porque tinha sido muito maltratado no Boca Juniors, sofreu com racismo e preconceito. Ele me contou isso na concentração um dia. Aí no meio do clássico começou aquele empurra-empurra e o Baiano deu uma p*** bolada no Tevez, ninguém entendeu nada (risos). Só eu entendi perfeitamente (risos)", lembrou.
Os duelos contra o São Paulo, que vivia anos de ouro, também ficaram marcados.
"Joguei duas Libertadores e nas duas caímos para o São Paulo. O nosso time era bom, tanto é que fizemos um bom Campeonato Brasileiro, mas infelizmente nos clássicos contra os rivais mais próximos a gente não conseguia ganhar", lamentou.
A partida que Cristian não esquece até hoje é o segundo jogo das oitavas de 2006 contra o Tricolor. Nessa partida, os rivais iam empatando por 1 a 1, resultado que levaria a decisão para os pênaltis. No entanto, em um lance polêmico no final da partida, o árbitro Wilson de Souza Mendonça "interceptou" sem querer um passe do Palmeiras no campo de ataque e acabou "armando" o contra-ataque da equipe do Morumbi.
Na sequência, o lateral Júnior invadiu a área palestrina e trombou com Cristian. Wilson de Souza Mendonça marcou o pênalti, que foi convertido por Rogério Ceni. O São Paulo ganhou por 2 a 1 e avançou às quartas de final, em um lance que revolta o "Mendigo" até hoje.
"Cara, não foi pênalti! Eu te juro! Nem toquei no cara. Só toquei a bola, e ela foi para escanteio. A gente estava até melhor no jogo, mas o juiz primeiro cortou nosso ataque, depois deu o pênalti e eles ganharam. Deu muita raiva, porque naquela época estávamos perdendo direto para eles, e por ser na Libertadores foi pior ainda", encerrou.
