Quem conhece bem Lionel Messi sabe bem o que ele é capaz de produzir em grandes jogos. Afinal, ele já impressionava a todos desde seus primeiros treinamentos no Barcelona, ainda na temporada 2004/05.
É o que conta à ESPN o ex-lateral direito Belletti, que jogou com Messi por três temporadas na Catalunha, entre 2004 e 2007, antes de se transferir para o Chelsea.
O Pentacampeão do mundo lembrou o dia em que La Pulga fez seu primeiro treino com o elenco profissional do Barcelona, e o frisson que causou até mesmo entre o elenco, que possuía nomes de peso, como Ronaldinho, Puyol, Xavi, Deco, Iniesta e Eto'o, entre outros.
"Quando o Messi subiu do time B e começou a treinar no profissional, o Frank Rijkaard colocava ele com a gente nos trabalhos de 11 contra 11 no campo reduzido. Lembro que o Messi estava no time reserva e eu no titular. Aí o Iniesta apontou pro Messi e falou para mim: 'Belletti, você conhece aquele garoto ali?'. Falei: 'Eu não'. E ele: 'Cuidado, hein...'", lembrou o brasileiro.
"Aí eu brinquei com o Iniesta: 'Ele que tome cuidado! Eu estou em boa fase, estou no auge!' (risos). Na primeira bola que o Messi recebeu, já pensei: 'Caramba, o moleque é abusado!'. Ele tinha 16 anos! Depois, quando me preparei para marcar e definir um jeito de tentar roubar a bola dele, ele já tinha passado e feito a jogada do gol (risos)", sorriu.
Daí em diante, Belletti viu que estava diante de uma joia rara no futebol.
"Ele sempre teve muita personalidade, além de ser um cara de nível muito competitivo. Os garotos que sobem da base no Barça, a maioria já sobe com alguma confiança. Mas ele foi muito acima disso. A gente falava: 'Deixa ele solto, dá confiança pro moleque!'", relembrou.
O ex-lateral da seleção também lembrou a "estreia mundial" de Messi pelo Barcelona.
"Foi num troféu Joan Gamper, contra a Juventus, em 2005, que o garoto foi o protagonista. A maioria da velha guarda não jogou, e ele iniciou como titular. Enfrentamos uma Juventus monstruosa, que tinha o Fabio Capello de treinador. Só que o Messi pegava na bola e ninguém tirava dele, só paravam na falta", contou, ainda espantado 14 anos depois.
"Ele ia para cima, mesmo. Não respeitava, no bom sentido, os jogadores da Juventus, que eram todos monstros sagrados. Foi divertido assistir aquele jogou. Foi histórico e muito legal", exaltou.
"O Gamper era sempre um jogo meio morno, de apresentação do elenco para a torcida. Só que o que esse garoto fez no jogo valeu o ingresso! Nós ficamos impressionados, e o Capello e o Rijkaard também, tamanha a personalidade e o caráter dele em campo", observou.
Para Belletti, o mais impressionante da história de Messi, que viria a se tornar na década seguinte um dos maiores jogadores de todos os tempos, é que ele sequer era a maior aposta de La Masia, a famosa base dos blaugranas.
"O pessoal sabia que ele alguém diferenciado na base, mas lembro que naquela época colocavam mais expectativa no Giovanni dos Santos e no Bojan. Eles tinham mais protagonismo, porque o Messi falava pouco, sempre foi introvertido", relatou.
"Mas, na hora que o bicho pegou, nos momentos mais complicados, quem sempre chamou a responsabilidade foi o Messi. Ele correspondia, dava resultado e definia. Por isso virou o que virou", salientou.
Os brasileiros do elenco barcelonista, aliás, foram essenciais para que Messi deixasse um pouco da timidez e, com o passar dos anos, se tornasse protagonista tanto dentro quanto fora de campo.
"Ele é um cara introvertido e na dele, isso nunca vai mudar. Só que o Ronaldinho e o Sylvinho perceberam isso logo e resolveram dar confiança, para trazê-lo para o vestiário e para que ele se sentisse confortável naquele ambiente. Chegar a um vestiário igual ao do Barça intimida qualquer um. Ele era muito novo, e se você não tem a aceitação do grupo, principalmente dos grandes jogadores, isso pode comprometer o rendimento", explicou.
"Os brasileiros que viram isso e trouxeram ele junto. Sempre brincaram, conversaram e cobraram, mas no bom sentido. E o Messi reconhece isso, pode ver que sempre cita nas entrevistas. Essa aceitação dos brasileiros ajudou muito", finalizou.
*Reportagem publicada originalmente no dia 15/04/2019
