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Dinei lembra de seu gol antológico que torcida do Palmeiras reclamou e até vaiou: 'Fiquei sem reação'

Imagine que o atacante do seu time faz um gol antológico, em um chute poucas vezes visto no futebol, e você, ao invés de comemorar, xinga o pobre coitado de todos os impropérios possíveis e ainda vaia o atleta.

Parece uma situação impossível de ocorrer, mas aconteceu com o atacante Telmário de Araújo Sacramento, mais conhecido como Dinei.

Atualmente com 36 anos e defendendo o Água Santa no Campeonato Paulista, o artilheiro teve uma passagem de dois anos pelo Palmeiras, entre 2010 e 2011, e viveu algumas situações bastante peculiares.

A mais bizarra delas aconteceu em 28 de novembro de 2010, em jogo contra o Fluminense, válido pela penúltima rodada do Brasileirão daquele ano.

O cenário era o seguinte: Flu e Corinthians brigavam ponto a ponto pela conquista do Nacional daquele ano, e a torcida do Verdão, que vivia alguns dos anos mais turbulentos e tristes de sua história, não queria ver o maior rival ser campeão de jeito nenhum.

Por isso, a "ordem" dada pelos torcedores aos alviverdes desde o início foi clara: era para "entregar" o jogo, dificultando a vida do Timão na busca pelo título.

Só que as coisas saíram de maneira muito diferente disso...

Logo aos 4 do 1º tempo, Leandro Euzébio errou recuo de bola e Dinei mandou um balaço de fora da área, num sem-pulo maravilhoso. A bola pegou uma curva inacreditável e entrou na gaveta oposta do goleiro Ricardo Berna, que não teve qualquer chance de defesa. Um gol antológico!

A reação da torcida, todavia, foi de fúria.

"Eu fiz um golaço, o gol mais bonito da minha carreira, mas a infelizmente a torcida não comemorou. Eles ficaram bravos e até vaiaram (risos)", recordou Dinei, em entrevista à ESPN.

Até por causa das vaias, o atleta comemorou seu tento de forma soturna.

"Eu pensei: 'E agora? Comemoro ou não?'... Fiquei até sem reação. Foi muito estranho, algo que nunca aconteceu na minha carreira", observou.

Depois disso, o Flu, que era o líder do Brasileiro e tinha craques como Fred e Conca no time, partiu para cima com tudo e passou a amassar o Verdão. O goleiro Deola, porém, começou a fazer uma série de defesas espetaculares, evitando o empate dos cariocas.

Isso só aumentou a raiva da massa palestrina, que passou a jogar copos d'água no arqueiro, criando uma cena distópica.

No fim das contas, porém, o Fluminense conseguiu a virada, com gols de Carlinhos e Tartá, dando passo decisivo para a conquista do título, que viria na rodada seguinte.

Dinei assegura, no entanto, que em nenhum momento passou pela cabeça dos palmeirenses "entregar" aquele jogo.

"A gente entende o sentimento do torcedor, até pela rivalidade entre Palmeiras e Corinthians, que é muito grande. Mas, quando entramos em campo, é para vencer. O Felipão passou a tática normal para a gente, falou para a gente dar tudo de si e vencer. Estávamos ganhando por causa do meu gol, e tentamos de toda forma segurar o resultado, mas não conseguimos. Até porque o Fluminense tinha uma equipe muito forte", recordou.

"Não sei se foi bom ou ruim, mas o fato é que o Fluminense virou o placar e ficou tudo mais tranquilo depois do jogo (risos)...", sorriu.

COMO DINEI CHEGOU AO PALMEIRAS

Nascido em São Domingos, na Bahia, Dinei começou sua vida de trabalhar em atividade bem diferente do futebol.

"Eu trabalhava em uma indústria que fabricava cordas. Eu operava uma máquina e também supervisionava a qualidade", contou.

Seu sonho, porém, era jogar bola, e, quando uma oportunidade apareceu, ele se atirou com tudo.

"Eu tinha um amigo que morava em Bragança Paulista, e ele me convidou para fazer um teste no Bragantino. Fui com a cara e a coragem. Aos 17 anos, pulei na boléia de um caminhão com um motorista da fábrica de cordas e tocamos pra São Paulo. A gente tinha que dormir no caminhão, mesmo, e ainda fomos parando em várias cidades para descarregar produto. Demoramos uma semana para chegar a São Paulo. E eu só pensava: 'Rapaz, como é longe... (risos)", divertiu-se.

Testado e aprovado no Bragantino, em 2001, foi aí que o atacante ganhou o apelido pelo qual é conhecido até hoje.

"Quando entrei no ônibus do time, já me chamaram de Dinei (por causa da semelhante física com o ex-atacante do Corinthians). Pegou na hora. Antes, todo mundo só me chamava de Telmário, mas o apelido pegou de imediato", relatou.

O centroavante passou dois anos no Bragantino antes de ser negociado com o Athletico-PR, time pelo qual assinou longo contrato, sendo emprestado seguidamente a vários clubes.

Depois de uma boa passagem pelo Vitória, em 2008, Dinei teve até a chance de atuar no futebol do exterior, jogando no Celta de Vigo e no Tenerife.

Já em 2010, o Palmeiras precisava de um centroavante, e o técnico Luiz Felipe Scolari passou a consultar treinadores amigos em busca de um nome.

"Eu tinha trabalhado com o Vagner Mancini no Vitória, e ele é bem próximo do Felipão. Acabou me indicando e eu fechei com o Palmeiras", lembrou.

Ao chegar ao Palestra Itália, contudo, já vieram as primeiras "cornetadas"...

"Logo quando fui apresentado, um monte de gente já falou que eu tinha nome de um ídolo do maior rival. Eu respondia que era só meu apelido, mas o futebol era bem diferente. Eu estava começando minha carreira, queria dar minha vida pelo Palmeiras. Não era porque eu tinha apelido de corintiano que ia deixar de me esforçar", argumentou o atacante, que chegou até e encontrar o Dinei "original".

"Uma vez, fizemos uma matéria de televisão juntos no Mercadão de São Paulo. Foi bem legal (risos)", sorriu.

SUCESSO NO JAPÃO

O contrato de Dinei com o Palmeiras acabou ao fim de 2011, e ele voltou ao Athletico-PR. No entanto, logo foi comprado em definitivo pelo Vitória, equipe pela qual já havia feito sucesso alguns anos antes.

"Foi aí que vivi a melhor fase da minha carreira. Em 2013, a gente tinha um elenco de enorme qualidade, e eu terminei como vice-artilheiro do Brasileirão, com 16 gols, empatado com o Hernane Brocador, do Flamengo, e atrás só do Éderson, do Athletico-PR", celebrou.

Não à toa, Dinei passou a ser "bombardeado" por ofertas do exterior, e acabou aceitando a do Kashima Antlers, um dos maiores times do Japão.

"Eu queria fazer minha vida financeira, e tinha vontade de conhecer e morar no Japão, que é um país que todos falam muito bem. Fiquei muitos anos por lá, e fui campeão tanto da 1ª quando da 2ª divisão", exaltou.

"Achei que seria muito mais difícil do que foi, por causa do idioma e da alimentação, mas sempre me senti em casa. Fui muito bem tratado por todos, do primeiro ao último dia", ressaltou.

Além do Kashima, o brasileiro jogou por Shonan Bellmare, Ventforet Kofu e Matsumoto Yamaga antes de retornar ao Brasil, em 2019.

Quando voltou, porém, o atacante se viu em situação complicada, e passou um longo tempo desempregado.

"Não apareceu nada por um bom tempo. Fiquei mais de um ano sem clube... Até que apareceu o Água Santa. O Marcos Assunção é meu amigo dos tempos de Palmeiras, e me convidou para jogar aqui, pois estavam montando um time forte. Vi como uma grande chance de voltar ao cenário brasileiro, pois, como estava no Japão, as pessoas esqueceram de mim", lamentou.

Por conta da pandemia mundial de coronavírus, no momento Dinei está fora de atividade, e não sabe qual será seu futuro nos próximos meses. No entanto, descarta pendurar as chuteiras.

"Eu voltei para casa agora, durante essa parada. Tenho contrato com o Água Santa até o final de abril, e ainda não sabemos como vai ficar depois disso, pois ainda está indefinida a situação do Estadual... Mas ainda tenho vontade de jogar pelo menos mais um ano e meio, pois me sinto muito bem", finalizou.