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Como ligação de Ceni mudou vida de volante do São Paulo e o tornou campeão no Fortaleza

Uma ligação durante as férias de dezembro de 2016, após uma temporada bem-sucedida pelo time sub-20 do São Paulo, mudou e muito a vida de Araruna. Com 20 anos, ele foi procurado por Rogério Ceni, que buscava na base tricolor um jovem meio-campista polivalente para completar o elenco. Pouco mais de dois anos se passaram e de novo foi o mesmo treinador quem o procurou para mudar a vida do jovem. Hoje, ele está no Fortaleza e conquistou os primeiros títulos como profissional.

"Lembro que entrei em férias e recebi uma ligação de um número que não conhecia. Não costumo atender, mas naquele dia eu atendi. Era o Rogério Ceni", recordou para o ESPN.com.br, aos risos.

"Eu respirei fundo... Ele é um exemplo e um ídolo para mim desde moleque. Naquela ligação, ele disse que queria contar comigo e me apresentei ao profissional [em janeiro de 2017]. Fomos para Florida Cup. Eu estava indo bem nos treinos e correspondendo. Passei a ser usado. Ele ganhou confiança em mim e foi um momento muito bom. Rogério me ajudou muito", acrescentou.

Coincidentemente, a procura do Fortaleza aconteceu em um momento que Araruna corria o risco de perder espaço no São Paulo. Ele iniciou a atual temporada com moral com André Jardine, que o escalou inclusive como lateral direito. Mas a saída do treinador --o mesmo que havia trabalhado com ele na base tricolor-- fez o volante perder espaço.

"O Fortaleza surgiu de um desejo do próprio clube junto com um pedido do Rogério Ceni. Algo que me fez acreditar em uma saída do São Paulo temporária e assim adquirir mais experiência e mais aprendizado. O peso da presença do Rogério foi expressivo por já ter sido treinado por ele e por conhecer o tipo de pessoa que ele é. Eu tinha certeza de que com ele rigaríamos pelos títulos", disse.

Araruna chegou ao Fortaleza em março deste ano, o que possibilitou que ele participasse de jogos do Campeonato Cearense e da Copa do Nordeste. Ambos campeonatos vencidos pelo clube, e os dois primeiros títulos oficiais para o jogador.

Vale lembrar que a única conquista até então havia sido da Florida Cup de 2017, torneio amistoso de pré-temporada nos EUA.

"Ser campeão duas vezes e em pouco tempo foi maravilhoso. Algo que dignifica nosso trabalho e sabemos que estamos no caminho certo para temporada. Além disso, acho que valoriza todos os atletas do elenco, porque ser campeão não é fácil, exige muito trabalho e o entendimento de todos. Espero conquistar muitos outros títulos na minha carreira", afirmou sobre o atual momento.

Camisa 10 e multicampeão

Araruna chegou ao São Paulo em 2009 após se destacar em clubes de futsal e ser indicado por um treinador para defender a base tricolor em Cotia. No início vestiu uma das camisas mais nobres que uma equipe de futebol possuí.

"Era meia e jogava com a camisa 10 naquela época. Às vezes, como atacante. Diziam que tinha um primeiro passe muito bom e me recuaram para armar o jogo. Depois, aprendi a marcar e virei segundo volante. O Jardine que colocou como lateral no sub-20". disse.

Araruna trabalhou por três temporadas com Jardine e empilhou títulos.

Ganhou a Copa do Brasil sub-17 em 2013, a Copa Libertadores sub-20 de 2016, a Copa do Brasil sub-20 em 2015 e 2016, uma Copa RS sub-20 em 2015, uma Copa Ouro sub-20 em 2015 e o Campeonato Paulista sub-20 de 2016.

Os melhores anos foram 2015 e 2016.

"Tive grandes momentos na base, fomos muito felizes e vencemos muitos títulos. Amadureci muito como jogador e pessoa. Fora do Brasil, quando vencemos a Libertadores sub-20 no meu último ano de base, o Rogério viu muito nossos jogos finais naquele ano."

Altos e baixos

Após a estreia na Florida Cup de 2017, Araruna teve participação na sequência da temporada com Rogério Ceni, que foi quem mais o aconselhou na transição da base para o profissional.

"Ele é muito sincero e transparente. Ele passa confiança par todos. E trata todos da mesma maneira. Ele deu chances para quase todo mundo naquela época", disse Araruna, que não esquece como foi o jogo de estreia.

"A estreia foi marcante e um sonho realizado. Foi no Morumbi contra a Ponte Preta pelo Paulistão. O estádio estava com mais de 50 mil pessoas e me arrepiou", disse sobre a goleada por 5 a 2, com três gols de Gilberto, um de Cueva e outro de Thiago Mendes.

Ceni acabou não tendo sequência em 2017 após um início ruim de Campeonato Brasileiro. O São Paulo iniciou uma fase de trocas de treinadores. Passaram pelo clube Pintado, Dorival Júnior, Diego Aguirre, André Jardine, Vagner Mancini e agora Cuca.

Araruna e outros da base sofreram, quase sem chance de jogar.

O volante voltou a aparecer quando Jardine foi colocado no cargo de técnico.

"Trabalhei por três anos com o Jardine na base e ganhamos muitas coisas juntos. Tinha uma boa relação com ele porque temos afinidades", disse sobre o treinador que hoje está na seleção brasileiro sub-20.

O empréstimo ao Fortaleza aconteceu em março, quando o São Paulo já estava sob comando de Vagner Mancini, de forma interina, e com Cuca contratado --o treinador paranaense só estreou no final de abril, mas já havia dito com quais atletas pretendia trabalhar.

Desde então, Araruna fez 14 jogos pelo Tricolor de Aço. Está perto de igualar a temporada de 2018 pelo São Paulo e a poucas partidas de superar seu recorde nos profissionais, que foi em 2017, quando entrou em campo 23 vezes pelo time paulistano.

Formado na faculdade

Apesar de ter 23 anos e estar também no início de uma carreira como jogador profissional, Araruna já traçou um plano alternativo de vida. Ingressou no curso superior de administração e se formou pela FAAP (Fundação Armando Alvares Penteado).

"Sempre tive essa vontade de terminar a faculdade. Logo que me formei no ensino médio eu já prestei a faculdade para ver se estava em condições. Passei em primeiro lugar na FAAP e me surpreendi. Não esperava. Foi um sinal. Comecei a fazer a gostar. Fiz novos amigos e foi bom para ter um tempo legal fora do futebol. Uma parte foi desgastante, mas depois me acostumei. Foi super legal e não me arrependo. Tenho orgulho de ter me formado no fim de 2017. Talvez eu pretenda ter algo meu no futuro, tenho essa vontade".

A maior dificuldade para Araruna foi conciliar os dias de aulas com a rotina do futebol, embora a maior parte do curso ele tenha feito quando defendia a base do clube do Morumbi.

"Quando estava já no profissional foi mais complicado por causa do calendário. Como a gente acabou não disputando torneios de meio de semana eu não estourei faltas e consegui obter as notas. Meus amigos e colegas de sala me ajudaram muito. Aproveitava as viagens e a concentração para estudar. Tem momentos que você não quer ir para aula, mas abri mão de outas coisas para isso".