Apesar da campanha promissora, um mini-bootcamp e o apoio da torcida, a paiN Gaming não conseguiu avançar para o torneio principal do The International 2018. Após vários empates no Grupo B, a equipe brasileira falhou nas séries que deveria vencer e deu adeus ao Mundial de Dota 2 ainda na fase de grupos, levando para casa mais de US$ 60 mil.
Enquanto a comunidade se divide entre apoiar ou “hatear” os jogadores, prefiro pensar que a eliminação precoce da paiN Gaming continua a ser uma vitória para a América do Sul como região.
Praticamente ignorada pela Valve por anos, foi somente em 2017 que a região sul-americana teve garantida uma vaga em eventos oficiais da empresa. Depois da incrível campanha da SG e-sports no Kiev Major 2017, quando a equipe brasileira chegou às oitavas de final, foi a vez da peruana Infamous ser a primeira da região a pisar no The International.
Muitos dirão que a campanha peruana foi melhor que a brasileira. Isso porque, na ocasião, a Infamous terminou a fase de grupos com 5 vitórias e 11 derrotas e passou para o evento principal. Entretanto, vale lembrar que o time peruano contou com o mau desempenho da Fnatic, que terminou 2-14, para continuar no torneio.
Já a paiN terminou com a mesma pontuação este ano, mas um grupo mais acirrado e diversos problemas de execução fizeram a equipe brasileira ser eliminada. Um exemplo da dificuldade do Grupo B é a Mineski, que também ficou 5-11 no Grupo A e avançou na competição.
Por conta das diferenças entre as situações, a comparação entre as campanhas sul-americanas de 2017 e 2018 pode não ser tão simples quanto parece. E mesmo se fosse, o resultado da paiN na fase de grupos ainda mostra o avanço positivo da equipe.
Depois de idas e vindas no Dota 2, a paiN adquiriu novamente uma escalação do MOBA da Valve com a promessa de um investimento melhor por conta das vagas garantidas para a América do Sul nos minors e majors do Dota Pro Circuit, assim como no The International.
Com essa oportunidade, pouco a pouco as equipes sul-americanas foram saindo de sua bolha para enfrentar os melhores times de regiões mais fortes, como a Europa, China e América do Norte, e a paiN foi uma delas.
É fato que a equipe demorou a se encontrar. Foram inúmeras qualificatórias, viagens, atropelos e eliminações precoces durante a temporada do Dota Pro Circuit até a equipe conseguir a contratação definitiva de Aliwi “w33” Omar. Então, após bootcamps e mais eliminações, o time finalmente pareceu estar na mesma página - e foi aí que as coisas ficaram interessantes.
Nos últimos torneios dos quais participou durante a temporada do DPC, a paiN começou a mostrar o resultado da abertura da América do Sul para os eventos da Valve. No Epicenter XL, venceu a Newbee por 2 a 0 e eliminou a Na`Vi com o mesmo resultado - ambas campeãs do The International. No ESL One Birmingham, foi a vez da Team Liquid, vencedora do TI7, de ser eliminada pela equipe brasileira, que ainda terminou a competição em 3º lugar após vencer a Fnatic.
As conquistas fizeram o resto do mundo repensar a ideia de que a equipe era fraca por vir de uma região “menor”. Já não era possível subestimar a paiN, assim como também não era mais possível ignorá-la. Assim, o time foi o primeiro sul-americano a ser convidado direto para o Dota Summit 9.
Mesmo sem chegar à grande final dos torneios, a oportunidade de disputá-los ajudou imensamente no crescimento dos jogadores tanto fora quanto dentro de jogo. Além disso, fez a paiN como organização ter um enorme retorno financeiro, que serviu para ajudar ainda mais a equipe com a vinda de w33 para o Brasil, a criação de uma gaming house e, recentemente, a contratação do ex-jogador Misery como técnico e o bootcamp realizado duas semanas antes do The International.
E, agora, no The International, tivemos a prova de que a América do Sul merece, sim, estar no maior campeonato de Dota 2 do mundo. Que a América do Sul merece, sim, ter a chance de crescer como região. E que, sim, a paiN é uma das melhores representantes da região.
Não, a paiN não passou da fase de grupos. Apesar da contratação de Misery e o bootcamp realizado antes do TI, a equipe brasileira mostrou que ainda tem muito trabalho a ser feito quando falamos de draft, fase de rotas e preparação psicológica (o que ficou bem claro nas séries contra OpTic e Team Serenity).
Mas, ao mesmo tempo, uma equipe que veio de uma região “emergente” e carente de estrutura, que costuma ficar semanas sem treinar por falta de times adversários, que foi montada a menos de um ano e passou por diversas adversidades e mudanças de escalação, conseguiu bater de frente com os grandes nomes do competitivo atual.
Empates contra a Newbee, TNC Predator, Vici Gaming, Team Secret e Virtus.pro, mesmo que bagunçados e à base de muita insistência, teamfights e sofrimento dos torcedores, só serviram para mostrar o que um time - e uma região inteira - pode se tornar ao receber uma chance e investimentos. E, por isso, mal posso esperar pela próxima temporada do Dota Pro Circuit.
