Nesta segunda-feira (4) tivemos o anúncio de mais mudanças para o Dota Pro Circuit, o circuito profissional de Dota 2 adotado pela Valve após o The International 7.
Após ouvir o feedback dos participantes da temporada 2017-2018, a Valve decidiu por retirar a ‘trava’ de escalações, assim como acabar com os convites para majors e minors e diminuir a quantidade de eventos para evitar a estafa dos jogadores.
Tudo isso parece fantástico no papel e deve ser muito bem executado pela Valve e suas parceiras nos próximos meses. Mas o mais importante: são passos há muito necessários e que mostram que a desenvolvedora está, finalmente, se importando com o cenário competitivo de Dota 2 como um todo.
Quando digo que a desenvolvedora está mostrando que finalmente se importa com o competitivo não quero dizer que ela nunca ligou para as equipes e os torneios de seu jogo. No entanto, essa atenção nem sempre foi justa.
Vamos para um breve retrospecto.
O The International sempre foi conhecido por convidar times para disputar prêmios milionários. Em 2011, ano de estreia do closed beta do Dota 2, o primeiro mundial do jogo foi disputado durante a Gamescom. Na ocasião, 16 times convidados disputaram US$ 1,6 milhão, sendo que a muitos jogadores vinham da primeira versão do game, o Dota 1. Na ocasião, a Na`Vi sagrou-se a grande campeã.
Nos anos seguintes, com o crescimento do Dota pelo mundo, a Valve começou a fazer mudanças no formato do The International, mas nunca sem deixar os convites de lado. Em 2012, foi implementado o sistema de qualificatórias “Leste” e “Oeste”, substituído por quatro qualificatórias regionais para América do Norte, China, Europa e Sudeste Asiático e um wildcard a partir de 2014.
O ano de 2014 também viu a implementação do financiamento público para a premiação do The International. Por meio da compra do Compêndio, item in-game com várias regalias, o público ajudava a premiação do torneio a aumentar - e ela não parou de quebrar recordes de arrecadação por edições até hoje.
O formato de convites e qualificatórias para quatro regiões + wildcard pareceu funcionar até o International 5, mas muitos começaram a questionar o quanto isso era justo para as regiões emergentes que precisavam jogar em outros servidores e quais eram as características consideradas pela Valve para um convite direto no mundial. Histórico de torneios? Quais torneios? Jogadores famosos? O quê?
Após o TI5, a Valve então adotou o sistema de majors, utilizado até o ano passado. Realizando três majors no período antes do mundial, a Valve esperava poder utilizar o resultado de tais torneios para determinar os convites do International. Além disso, instaurou uma “trava” de escalações para que as equipes não fizessem a festa e ficassem trocando de jogadores a torto e a direito.
Funcionou de certa forma, mas não foi o suficiente para acabar com as dúvidas do público e de equipes, nem com a sensação de injustiça para com as regiões emergentes. Sentindo a necessidade de intervir, e também de aproveitar um enorme mercado que estava praticamente ignorando, a Valve decidiu agir mais uma vez.
Em 2017, a empresa anunciou que pela primeira vez um major contaria com qualificatória para seis regiões. Isso porque a região da América do Sul e a da Comunidade dos Estados Independentes seriam separadas da América do Norte e Europa, respectivamente.
Se o objetivo da Valve era “fazer um teste” e “dar uma chance” dessas regiões se provarem, ele deu mais do que certo. A SG e-sports garantiu a vaga nas qualificatórias regionais sul-americanas para o Major de Kiev em 2017 e surpreendeu ao eliminar a Team Secret nas oitavas de final.
Apesar de não ter chegado tão longe na competição, a peruana Infamous foi a primeira equipe da América do Sul em um International, em 2017, e conseguiu vencer cinco partidas antes de ser eliminada.
As equipes da América do Sul, tanto quanto as CEI, mostraram que levavam o Dota 2 a sério mesmo com um cenário defasado, praticamente sem estrutura e financiamento. Foi então que a Valve anunciou o Dota Pro Circuit.
Em vigor desde o fim do TI7, o DPC contou com mais de 10 majors e 10 minors que distribuiram pontos para o Top 4 de cada um. Tais pontos seriam usados para definir, de fato, quais equipes seriam convidadas diretamente para o TI8. Além disso, majors e minors obrigatoriamente precisariam contar com eventos presenciais e qualificatórias regionais para as seis regiões definidas pela Valve.
O resultado nós vimos do final do ano para cá. A SG representou o Brasil e a América Latina em quatro torneios do circuito profissional, enquanto a paiN viajou para seis deles (sete, se o Galaxy Battles II não tivesse perdido o status de major).
Com a chance de jogar contra os melhores do mundo e acumulando um bom valor pela participação nestes torneios, a paiN investiu na contratação do romeno Aliwi “w33” Omar e em um bootcamp na Polônia antes do ESL One Birmingham. O resultado foi uma campanha histórica que viu pela primeira vez um time da América do Sul chegar ao terceiro lugar de um grande torneio internacional de Dota 2.
Nem tudo foram mil maravilhas na primeira versão do DPC. Muitos jogadores reclamaram da enorme quantidade de majors e minors. Por diversas vezes, equipes disputaram duas ou três qualificatórias ao mesmo tempo, enquanto times precisaram até recusar convites diretos para os torneios para que os jogadores não sofressem tanto por conta das viagens de um canto do mundo a outro.
A disputa intensa por pontos parece ter causado estresse e estafa em todas as equipes, que ainda foram castigadas caso precisassem trocar sua escalação. Mudanças de jogadores fora do roster lock implicavam na perda de pontos conseguidos e até de convites diretos para qualificatórias regionais.
É isso, inclusive, que acontecerá com a paiN, que precisará passar pelas qualificatórias abertas do TI8 para chegar às fechadas e, por fim, tentar uma vaga no mundial deste ano.
As mudanças anunciadas pela Valve na última segunda (4) visam atender a todos esses problemas, mas parecem tentar fazer ainda mais: deixar o cenário de Dota 2 cada vez mais global e competitivo.
A redução para apenas cinco majors e cinco minors busca diminuir o cansaço físico e emocional dos jogadores. Os torneios passarão a ser em dupla e nenhum terá convites, ou seja, todos os times - independentemente de resultados anteriores - precisarão suar a camisa em qualificatórias. A única garantia é que o time que vencer um minor terá vaga no major logo em seguida.
Equipes não mais serão punidas com a perda total de pontos ao trocar de jogadores, mas ainda sofrerão consequências caso decidam por mudar sua escalação.
E, por fim, majors obrigatoriamente precisarão ter duas qualificatórias de cada região. Creio que alguém da América do Norte, da Europa ou da China nunca entenderá a sensação de saber que, finalmente, sua região poderá ter mais de um representante em um torneio. Mas isso é diferente para nós; e a América do Sul só tem a ganhar em questão de investimento e crescimento com essa nova possibilidade.
Na verdade, conforme me lembraram no Twitter, a América do Sul ainda tem a chance de ter três equipes em um major, já que se uma vencer um minor, mais duas chegarão pelas qualificatórias. O quão incrível isso seria?
Se a Valve passou a olhar mais para as regiões “esquecidas” para de fato melhorar o cenário ou se é tudo uma questão capitalista, nunca saberemos. Eu prefiro pensar que a Valve se importa com o cenário e que ele iria apenas decair caso ela não tomasse as medidas que tomou. Além disso, imagino que em um futuro talvez não muito distante ela tome as mesmas medidas com outras regiões menores, mas com potencial, como África, Índia e Austrália, por exemplo.
Seja qual for o motivo da Valve, no entanto, uma coisa é certa: já estava mais do que na hora do mundo conhecer o Dota 2 sul-americano!
