Ídolo do Fortaleza, Tinga está perto de viver uma das maiores glórias de sua carreira. Caso vença o Corinthians nesta terça-feira (3), o Leão chegará à final de CONMEBOL Sul-Americana pela primeira vez na história. A bola rola às 21h30 (de Brasília), no Castelão, com transmissão ao vivo pela ESPN no Star+.
A trajetória do clube cearense se cruza com a do capitão, que chegou a abrir mão até mesmo do próprio salário antes de se tornar ídolo incontestável no Pici.
Revelado pelo Grêmio, o lateral-direito teve uma infância difícil em Porto Alegre e, por diversos momentos, pensou em desistir do sonho de jogar futebol.
Em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br, Tinga contou os ''perrengues'' que enfrentou ao lado de sua mãe ainda na adolescência, quando dava seus primeiros passos na base do tricolor gaúcho.
''Eu vim de uma infância muito pobre também. Minha mãe era uma guerreira e sempre segurou as pontas para mim. Ela vendia salgadinho e o que for para comprar passagens, porque ela sempre ia junto comigo. Teve momentos que não tinha dinheiro da passagem e ela pedia pro cobrador. A gente ficava na frente, cheios de vergonha, porque não tínhamos dinheiro. Ela fazia de tudo para eu continuar indo para os treinamentos. E isso foi determinante para eu não parar de acreditar em todas as dificuldades'', lembrou.
''Até os 17 anos eu não recebia nada de ninguém. A gente morava a 5 a 10 quilômetros do Estádio Olímpico. Eu ia a pé para economizar a passagem. Eu chegava já aquecido, pronto para o treinamento. Eu fico muito feliz de ter de ter alcançado o objetivo. Na época muitos jogadores ficavam preocupados com o salário, em receber um salário alto na base mesmo. Eu não. Só queria jogar futebol'', completou.
O início 'precário' no Fortaleza
Depois de ganhar suas primeiras oportunidades no profissional do Grêmio, Tinga passou pelo Boa Esporte até chegar também por empréstimo ao Fortaleza, em 2015.
O lateral, no entanto, não queria ir para o clube, mas aceitou o desafio e encontrou condições precárias no clube, que amargava a Série C.
''Quando me falaram que eu tinha a oportunidade de ir para o Fortaleza, eu não queria vir, porque naquele tempo o time estava na Série C, não tinha estrutura e financeiramente não estava das melhores... Não pagava em dia, um monte de coisa ruim'', disse.
''Eu pensei duas vezes, mas disse: Ah, eu vou encarar, porque eu acho que eu precisava de algo diferente na minha carreira, porque eu sempre fiquei lá no Sul, ali no Grêmio, então isso era uma das coisas que eu queria encarar no Nordeste. Eu tive muito medo, mas eu acho que foi a melhor coisa que aconteceu. Se não fosse 2015 eu não estaria aqui hoje e nem em 2018'', afirmou.
Naquele ano, Tinga foi titular em 30 partidas, anotou um gol e levantou o caneco de campeão estadual.
Lateral-direito concedeu entrevista exclusiva ao ESPN.com.br
2018: a história volta a ser escrita
Depois de ser comprado pelo Bahia em definitivo em 2016 e ser emprestado ao Juventude no ano seguinte, Tinga voltou ao Fortaleza em 2018.
Na ocasião, o lateral ligou para Marcelo Paz, presidente do clube, e pediu para voltar a vestir a camisa tricolor. Só que uma pessoa não aprovava a sua contratação: o técnico Rogério Ceni.
Sem a permissão do treinador e bancado por Paz, Tinga abriu mão do salário e retornou ao Pici.
''Eu abri mão de uns 20, 30 mil. Era muito dinheiro... Eu abri mão para vir para cá. Foi a melhor coisa que aconteceu até hoje'', lembrou.
''O Marcelo Paz que me bancou ali e depois o Rogério virou um cara que sou muito grato a ele, que me ajudou muito. Acho que foi um dos caras mais importantes na minha carreira'', afirmou.
A reconstrução com Ceni
Tinga viveu todos os capítulos da vitoriosa ''Era Ceni'' no Fortaleza. E até hoje é grato ao técnico que virou amigo.
Em duas passagens pelo Pici, o treinador conquistou quatro títulos: dois estaduais (2019 e 2020), a Série B (2018) e a Copa do Nordeste (2019).
Mas para o lateral, o legado do técnico no clube vai muito além das taças...
Tinga conta que, apesar da personalidade forte, Ceni foi peça fundamental no processo de profissionalização do Fortaleza.
''Ele é um cara muito exigente, então sempre cobrava de todo mundo, não só nós jogadores. Ele cobrava para que tudo sempre estivesse impecável, desde o campo, o material, a comida. Todos os funcionários tinham que andar na linha dele'', lembrou.
''Depois que passou um tempo, a gente viu que isso foi muito bom, porque ele literalmente profissionalizou todo mundo'', completou.
A idolatria
No Fortaleza, Tinga empilhou nada menos que 9 taças. Foram seis estaduais (2015, 2019, 2020, 2021, 2022 e 2023), uma Série B (2018) e duas Copas do Nordeste (2019 e 2022).
Mas um dos momentos mais importantes de sua carreira não tem a ver essas conquistas...
No ano passado, o jogador recebeu uma grande homenagem da torcida do Leão depois de ficar quase três meses afastado dos gramados por causa de uma lesão ligamentar no pé esquerdo.
No duelo contra o Botafogo pelo Brasileiro, um mosaico com a bandeira do lateral foi estendido na arquibancada do Castelão.
''Eu zerei a vida, praticamente zerei tudo o que eu sonhava naquele momento. Ali eu consegui realizar... Receber um mosaico ali foi algo que meu Deus! E olha que eu consegui chegar lá'', disse emocionado.
Apesar da homenagem e de todos os feitos que conseguiu com o Fortaleza ao longo dos anos, Tinga ainda não se considera ídolo.
''Tem muita coisa para acontecer, eu só tenho 30 anos. Eu acho que eu tenho um caminho ainda pra seguir e tenho que continuar meus rendimentos, continuar melhorando, porque eu sei que aqui, não só aqui, mas o futebol vive de pressão e a gente tem que estar sempre rendendo'', afirmou.
O futuro
Aos 30 anos, Tinga renovou contrato válido com o Fortaleza até 2026, depois de recusar uma proposta do Cruzeiro a pedido do técnico Juan Pablo Vojvoda.
O gaúcho, que foi acolhido no Nordeste, já tem planos para o futuro. E no que depender dele, será no Pici.
''Eu já sou cearense, quero ficar por aqui depois que encerrar a carreira. É uma cidade que me acolheu muito bem. Por tudo o que eu passei, sou grato ao clube e eu tento fazer o máximo para poder crescer ainda mais'', declarou.
Onde assistir a Fortaleza x Corinthians?
Fortaleza x Corinthians terá transmissão, ao vivo, pela ESPN no Star+, nesta terça-feira (3), às 21h30 (horário de Brasília)
Próximos jogos do Fortaleza:
Corinthians (C) - terça-feira (03/10), 21h30 - CONMEBOL Sul-Americana, com transmissão pela ESPN no Star+
América-MG (C) - domingo (08/10), 18h30 - Brasileirão
Vasco (F) - quarta-feira (18/10), 19h - Brasileirão
