Na maioria dos casos, técnicos de futebol são formados a partir da experiência que tiveram dentro de campo e que adquiriram ao longo da carreira como jogador. Mas isso não é bem uma regra. Ao longo da história são alguns os casos de treinadores que não necessariamente brilharam nos gramados.
Um bom exemplo disso é Carlos Alberto Parreira, que nunca jogou futebol profissionalmente. Formado em Educação Física, ele construiu toda a sua carreira nos campos como preparador físico e, posteriormente, como um dos técnicos mais consagrados do mundo, tendo dirigido a Seleção Brasileira na conquista da Copa do Mundo de 1994.
Ricardo Catalá é mais um desses casos. O paulista de 44 anos é o atual comandante do São Bernardo, que logo em seu primeiro ano disputando a Série B do Brasileirão, já está na parte de cima da tabela, e inicia a 12ª rodada da competição na 3ª colocação, apenas 1 ponto atrás do Sport e do Vila Nova, líderes da competição neste momento. Ou seja, uma vitória contra o CRB neste domingo (7), em duelo com transmissão no plano premium do Disney+, pode colocar o time do ABC Paulista na ponta da tabela.
E esse início de campanha já é motivo de muito orgulho para o técnico, que conversou com exclusividade com a ESPN e destacou que apesar dos bons números, o primeiro objetivo do São Bernardo segue muito claro: não correr riscos de rebaixamento para a Série C.
"É uma competição tão difícil. O fato de ser a primeira vez que o clube milita nessa divisão não significa que nós profissionais não a conheçamos. A gente vem militando nessa competição há bastante tempo, em outros clubes, não só eu, como vários outros profissionais do clube. O clube, nos últimos anos, é muito consistente no Campeonato Paulista. Automaticamente, o clube nos últimos anos já vem recrutando atletas que têm um alto nível de conhecimento desse tipo de competição e, obviamente, nós profissionais também. Temos conseguido ajudar o clube, neste momento, a estar nessa condição, ainda que o maior objetivo seja, no primeiro momento, fazer os 45 pontos o quanto antes, para que aí então a gente possa brigar por algo maior. Significa que, quanto antes nós fizermos 45 pontos, mais próximo do topo da tabela ou da parte alta nós estaremos, e aumenta muito a nossa capacidade e as nossas condições de brigar por algo maior."
O sucesso colhido agora vem de uma aposta do clube em 2024, quando decidiu contratar Catalá. Desde então, as boas campanhas no Paulistão, e o acesso para a Série B, fazem com que ele esteja atrás apenas de Abel Ferreira e Rogério Ceni, comandantes de Palmeiras e Bahia, na lista de técnicos mais longevos entre as principais divisões do futebol brasileiro.
"Eu optei por um caminho de construção. É até engraçado isso, porque às vezes alguns clubes fazem contato querendo entender a minha situação. E, em algumas conversas com diretores, surge o argumento: 'Pô, mas a gente conversa com treinadores com o teu mesmo tempo de estrada e os caras já têm 10, 12 clubes no currículo. Você tem metade disso'. Só que é isso. Quando você olha a média de tempo que eu fico nos clubes, ela é superior a um ano. E, se tratando do futebol brasileiro, isso é uma utopia. Estar como o terceiro mais longevo do país, atrás do Abel e do Rogério Ceni, que está num clube com mentalidade europeia e comandado pelo Grupo City, tem muito mérito. Muito mérito mesmo. Óbvio que todos os ciclos são feitos para iniciar e, em algum momento, ter fim. Mas acho que para eu dar esse passo para outro lugar precisa ser algo que realmente me convença esportivamente", explicou.
Segundo Catalá, sua história no São Bernardo já poderia ter terminado, e ele "alçado voos maiores", mas aí pesou algo que já fez ele até mesmo chegar a ser comparado com Muricy Ramalho.
"Escolhi seguir um caminho de construir as coisas junto com os clubes. Tanto que quando um clube se interessa por mim — e esse ano foram dois ou três, inclusive da mesma divisão em que nós estamos nesse momento — a primeira pergunta que eu faço para o executivo ou para o diretor é: qual é o projeto esportivo? O que está prospectado para o clube nesta temporada? Onde o clube quer chegar? Como? Em muitos momentos, a resposta já me leva a não fazer o movimento de sair. Porque, por mais que nós tenhamos algumas limitações no São Bernardo, como todo clube tem, existe clareza de para onde se quer remar. Os objetivos estão claros, o treinador tem liberdade para, dentro daquilo que foi acordado com a direção, conduzir o processo", seguiu, dizendo que não tem pressa para chegar ao topo.
"Se não for para ir para a Série A em um projeto — e não estou falando necessariamente de um projeto para brigar na parte alta da tabela — tudo na vida tem um caminho a ser percorrido. Se não houver clareza de como vai fazer e por que vai fazer, não faz sentido. Na Série A, o nível de competitividade é muito alto. A gente vê o Mirassol, por exemplo. Fez uma baita campanha no passado e este ano está sofrendo para conseguir uma campanha que o coloque numa condição parecida. Isso demonstra o nível de dificuldade da Série A. Então, se não houver clareza no processo e no projeto, para mim a questão não é a divisão em que estou. Eu entendo que, se eu for competente, em algum momento estarei na divisão que desejo. Em algum momento vou voltar para a Europa. Em algum momento vou ter experiências no nível que desejo. A minha competência é que vai me guiar para esse caminho. Não tenho a preocupação de que preciso ir rápido para a Série A ou fazer esse movimento logo. Porque, quando você fica muito preocupado com isso, a tendência é que a carreira seja muito oscilante. Você sobe e desce, sobe e desce. Quando olho para a minha carreira, vejo que ela vem crescendo de forma linear. Ela não para de crescer. Talvez demore um pouco mais para eu chegar ao nível que desejo do que alguns colegas, mas me vejo indo numa direção em que, quando eu chegar lá, não tem mais volta. É dali para cima."
Trajetória 'diferente'
Se Carlos Alberto Parreira era preparador físico e decidiu migrar para a carreira de técnico posteriormente, Ricardo Catalá já sabia que queria seguir esse caminho desde muito novo, quando, ainda criança, "comandava" seus amigos em campeonatos de bairro.
"Eu nunca tive a ambição de ser treinador de salão. Desde os 13 anos de idade eu decidi que seria treinador. Eu nunca quis ser atleta. Quando era garoto, eu inscrevia os meninos do meu bairro em campeonatos e ia de treinador. Naquela época era impensável eu receber uma oportunidade tão novo no futebol de campo. Então eu organizava os times, os torneios, os festivais, juntava o dinheiro e participava. Eu sempre decidi ser treinador, eu nunca quis ser atleta. O futsal foi um caminho que eu encontrei para poder me inserir no esporte. Eu não sabia exatamente qual seria o caminho, como eu viraria treinador profissional, porque naquela época praticamente não existiam treinadores que não eram ex-atletas. Eu nunca fui atleta profissionalmente falando, então eu entendia que deveria me diferenciar de alguma forma. E a forma que eu me diferenciaria seria através dos estudos e do conhecimento para poder construir o meu caminho, uma forma de realizar esse sonho."
Confira a seguir outros tópicos da entrevista, desde a sua transição do futsal para o futebol de campo, a experiência no Barcelona, o sonho de voltar ao futebol europeu e a "invasão" de técnicos estrangeiros no Brasil.
ESPN: Encontrou dificuldades na transição do futsal para o campo?
Ricardo Catalá: Eu não vi nenhuma dificuldade. Ao contrário, acho que o futsal serviu de uma baita ferramenta para mim e para muitos outros profissionais. Eu não vejo essa transição dessa forma. Assisto futsal até hoje. Acho que as modalidades se complementam. O futebol de campo se alimenta de muitos elementos táticos oriundos do futsal. E o futsal sempre foi talvez o maior abastecedor de talentos do futebol brasileiro. Você vai olhar nas categorias menores de muitos clubes e muitos craques surgiram dali. Muda a dimensão, mudam algumas regras, muda o tamanho da bola, mas principalmente o futsal é uma ferramenta de desenvolvimento de jogador. O jogador pega mais vezes na bola e consegue ter uma interação com o jogo muito maior. Quando você vai para o campo, tudo fica mais fácil. Você tem muito mais espaço do que no futsal. Aquele raciocínio rápido que você precisa desenvolver serve para que você possa se beneficiar em um jogo maior.
E, no caso do treinador, eu vejo diferenças pela dimensão, pelo número de jogadores, mas no final das contas se trata de fazer gestão de pessoas. As mesmas pessoas que estão em uma modalidade estão na outra. São indivíduos únicos e você precisa entendê-los para conseguir mobilizá-los na direção daquilo que você, como treinador, tem de ideia para o jogo.
ESPN: Após migrar para o campo, como foi sua trajetória?
RC: A minha formação como treinador é, assim como a maior parte dos atletas no Brasil, oriunda do futsal. Porque, se eu não me engano, é o esporte mais difundido no país, é o mais praticado. Talvez seja o primeiro contato que um garoto bem novinho tem com uma bola de futebol, de maneira formal. Antes de ir para fora do país e de ingressar, logo que entrei na universidade no Brasil, trabalhei também no futebol de campo. Trabalhei no São Paulo e no Corinthians. Quando volto da Espanha para cá, já volto numa condição de treinador.
Fiquei sete anos no antigo Pão de Açúcar, que depois virou PAEC e depois virou Audax. Quando foi vendido ao grupo Osasco, recebi um convite para ser auxiliar técnico na comissão permanente do Red Bull, naquela época Red Bull Brasil, hoje Red Bull Bragantino. Fiquei no clube durante cinco temporadas. Na última temporada fui promovido a treinador da equipe principal. A partir daí iniciei minha trajetória em outros clubes. Tive Mirassol, Guarani, Operário, Remo, São Bernardo, enfim, passagem por alguns outros clubes. Desde então venho me desenvolvendo e dando sequência na minha carreira.
Todas as experiências que eu tive, tanto no futebol de campo desde a universidade quanto a experiência fora do Brasil, foram moldando a minha identidade. E aí, óbvio, a minha índole, o meu caráter e a minha competência, junto com as oportunidades que as pessoas me ofereceram, foram construindo o caminho que eu trilhei até hoje.
ESPN: Você fez estágio no Corinthians e no São Paulo. Em que períodos foi isso?
RC: Eu fiz a universidade de 2001 a 2003. Nesse período fiz estágio no Corinthians, no Profissional B, inclusive com profissionais que estão na casa hoje, que saíram, rodaram, trabalharam até comigo em outros clubes e retornaram. Logo depois, em 2002 e 2003, fiz estágio no São Paulo Futebol Clube sob a supervisão do professor Fábio Mahseredjian, que na época era preparador físico. Ele também fez um caminho de migrar da preparação física para outras funções. Como estagiário, na época, a legislação não permitia que você, ainda nos primeiros anos da universidade, trabalhasse formalmente. Então você só podia estagiar para se desenvolver.
Nos dois clubes foi muito enriquecedor. Eram categorias diferentes. Um era o Profissional B e o outro o profissional propriamente dito. Tinha muita diferença e para mim foi bastante enriquecedor entender uma série de questões e deixar mais claro qual seria o meu caminho e aquilo que eu queria para o futuro.
ESPN: Em algum momento sentiu algum preconceito por não ser um cara 'do futebol'?
RC: Zero preconceito. Jogador de futebol consome conteúdo que faz sentido para ele, independentemente de onde vem, se está vindo de alguém oriundo do campo ou da academia. Fora que isso é uma grande bobagem. Rotular as pessoas como “ex-atleta”, “universitário” ou “acadêmico” é uma bobagem, porque você fica querendo colocar pessoas dentro de espaços reduzidos. Futebol, assim como qualquer outra atividade, é executado por pessoas. Então uma das primeiras coisas que procurei fazer foi estudar sobre pessoas. Isso aparece na minha formação. Estudar sobre pessoas me deu a capacidade de conectar com qualquer tipo de pessoa, de ser compreensivo, empático e entendê-las.
A minha origem é humilde. Vim do mesmo ambiente que a maior parte dos jogadores vem. Cresci na rua, joguei bola na rua, enfim, tudo aquilo que eles fizeram eu também fiz. A diferença é que eu não quis ser atleta, e acho que nem tinha talento para isso. Meu interesse acabou indo para outra direção. Obviamente me preparei para fazer isso. Hoje você vê que minha relação com os jogadores é excepcional, porque me preparei para entender de pessoas e poder interagir com elas. Quanto mais anos estou na ativa, mais experiente fico, melhor e mais competente também. Como todos, cometo equívocos, e eles fazem parte do desenvolvimento.
Nunca me senti alvo de preconceito. Ao contrário, sempre fui muito elogiado pelos jogadores pelo nível de conhecimento e pela capacidade de me conectar com eles. Graças a Deus, não tive esse problema.
ESPN: Parta da sua formação foi feita na Europa, inclusive passando para o Barcelona. Como foi essa experiência?
RC: Eu trabalhei em categoria de base. Fiz estágio em diversos clubes e trabalhei formalmente num clube chamado Europa, da terceira divisão do futebol espanhol. Também fiz estágio no Zaragoza, no Espanyol e no Barcelona. No Zaragoza e no Espanyol foi na categoria profissional. No Barcelona foi na base. Pude entender o funcionamento de grandes clubes vendo tudo por dentro e adaptar muitas coisas que vi nesses lugares para a realidade que encontrei no Brasil, que obviamente é diferente por questões culturais, econômicas, educacionais e de contexto.
Eu penso que não existe um caminho único para ser melhor preparado. Quem foi atleta tem uma experiência riquíssima que eu jamais vou ter, porque não vivi isso. Ainda que eu tenha estudado sobre pessoas, nunca fui atleta. Existem coisas que, por mais que você estude e seja empático, você não vivenciou. Ao mesmo tempo, todo o conhecimento que busquei sobre o ser humano, fisiologia, aspectos psicológicos e mentais me dá ferramentas para conectar com o jogador de uma forma diferente. Ele olha aquele conteúdo e pensa: “Isso me ajuda a ser melhor no que eu faço”.
No final das contas, é sobre isso: fazer diferença positivamente na vida de quem está ao seu redor. Sobretudo no futebol, porque os caras são muito carentes, vêm de ambientes difíceis e precisam ser muito resilientes para superar todas as barreiras até se tornarem atletas profissionais. Enquanto eu estiver conseguindo contribuir para o crescimento deles, já estarei dando minha parcela de contribuição para o futebol brasileiro.
ESPN: Sonha em voltar para a Europa?
RC: Tenho esse objetivo. Acho que um dos problemas de vermos poucos treinadores brasileiros no futebol europeu é a reserva de mercado existente.
Vou dar um exemplo. Ano passado, quando acabou o Paulistão pelo São Bernardo e a gente vinha muito bem, recebi um convite para participar de um processo seletivo de um clube belga vinculado a um projeto multiclubes. Fiz todo o processo seletivo, conduzido inclusive em inglês. Foram seis etapas e passei em todas. Fui aprovado, mas não pude dar sequência porque não tinha cinco anos de experiência como treinador da Série A do Brasil. Ou seja, a Uefa exige isso para um treinador brasileiro poder trabalhar lá.
Enquanto isso, vemos europeus chegando aqui, às vezes sem nunca terem trabalhado como treinador principal, e tendo sua primeira experiência no Brasil. O filho do Carlo Ancelotti é um exemplo disso.
Acho que as regras deveriam ser as mesmas para que a competência fosse o fator determinante. Hoje existe uma reserva de mercado. Vejo muitos profissionais brasileiros competentes para estar lá, mas infelizmente isso impede que a competência seja o principal balizador.
Vieram muitos europeus para o Brasil. Alguns foram embora e nem lembramos os nomes. Outros permaneceram por competência. Eu sou um dos três treinadores mais longevos do país, atrás apenas de Abel Ferreira e Rogério Ceni. O Abel é um exemplo de alguém que veio da Europa e mostrou que sua competência fazia jus ao cargo que ocupa há tantos anos.
ESPN: Você tem duas passagens pelo Mirassol. Imaginava que o clube teria esse sucesso tão rapidamente na Série A?
RC: Óbvio que é impossível prever esse tipo de condição, porque ela foi atípica. Mas foi meritocrática. Isso eu já enxergava no clube. O Mirassol sabe fazer futebol, é organizado e tinha estrutura que muitos clubes da própria Série A não tinham. Nos últimos anos, desenvolveu muito a mentalidade de crescimento. Na minha última passagem por lá, se o número de profissionais era de 15 ou 20 pessoas, hoje são 40 ou 50. O clube foi se expandindo e crescendo cada vez mais. Esse crescimento foi retroalimentando tudo aquilo que aconteceu depois, inclusive os resultados positivos.
Já existia uma mentalidade que empurrava o clube nessa direção. As pessoas que estão no comando sabem fazer futebol. Você pega o Juninho (Antunes, vice-presidente de futebol do Mirassol): a vida dele é o Mirassol. É um cara extremamente competente, assim como os demais profissionais que estão ao redor. Então já dava indícios de que seria um projeto vencedor e de sucesso.
Agora, imaginar que no primeiro ano de Série A o clube estaria brigando tão em cima ou chegando à Libertadores, acho que nem quem estava lá conseguiria prever. Eles trabalharam e sonharam para que isso acontecesse, mas o resultado é sempre multifatorial. Tudo o que o clube está vivendo é difícil de cravar que aconteceria.
Eu já vi diversas entrevistas do Juninho e do Rafael Guanaes (técnico do Mirassol) falando sobre isso, sobre viver um sonho e sobre como é bom que isso esteja sendo possível. No meu caso, é até mais legal porque minha família escolheu morar lá. Minhas filhas, minha esposa, todos estão radicados na cidade. Acabei virando mais uma pessoa da cidade, alguém que torce pelo crescimento do clube. É muito legal ver clubes como o Mirassol e o próprio São Bernardo, onde estou hoje, em um crescimento tão grande e seguindo uma direção tão bacana.
