O ano era 2011. O desconhecido Desportivo Brasil, do interior de São Paulo, chegou à semifinal da Copinha com a ajuda de um dos destaques da competição: Dellatorre. O atacante foi artilheiro do torneio, com sete gols, e viu o time ficar perto de chegar à decisão: a eliminação aconteceu para o Flamengo, nos pênaltis, após empate por 0 a 0 no tempo regulamentar. Aquela campanha teve como ponto alto a vitória sobre o Corinthians, na segunda fase, que deixou o Alvinegro para trás.
O desempenho do então jovem Dellatorre na Copinha fez com que ele tivesse chance no Internacional. Depois de rodar por diferentes times, incluindo Porto B, de Portugal, Athletico-PR, e Queens Park Rangers, da Inglaterra, o atleta, agora aos 32 anos, foi destaque do Mirassol na campanha do Brasileirão Série B de 2024, que terminou com o acesso da equipe paulista à elite. Mesmo assim, o jogador vai seguir na segunda divisão: ele foi anunciado em dezembro como reforço do Coritiba. Tudo isso após quase desistir do futebol.
"A lembrança da Copinha é muito boa. Fiquei marcado na história do clube. Contra o Corinthians, sabemos como é, estádio sempre cheio, torcida, e nós éramos um time desconhecido. Jogamos bem na Arena Barueri. Foi muito especial. Na eliminação para o Flamengo, nossa equipe toda errou pênalti. Ficou marcado negativamente, mas sou muito feliz pelo que fizemos", relembrou Dellatorre, em entrevista à ESPN.
"A gente era muito ansioso, imaturo para entender o tamanho do que estávamos jogando, os jogadores em volta da gente. Colocavam pressão em nós. Ainda não tínhamos maturidade para ficarmos tranquilos", completou.
A trajetória de Dellatorre no futebol é longa e tem diferentes etapas: do Desportivo Brasil, para o Internacional, para o Porto B, em cerca de dois anos. A chegada na Europa trouxe experiência, mas ele não teve chances no time principal -- foi relacionado para apenas uma partida, contra o Nacional, da Ilha da Madeira, sem sequer entrar em campo.
Em 2013, foi comprado pelo Athletico-PR. No clube paranaense, teve oportunidade de conviver com Adriano Imperador.
"Foi um ano muito especial para mim, cheguei na final da Copa do Brasil, ficamos em terceiro no Brasileirão. No outro ano o Adriano chegou. Não tive a oportunidade de jogar com ele, porque logo fui emprestado para o Queens Park Rangers e quando voltei ele já tinha saído. Mas convivemos na pré-temporada, treinamos juntos. Ele sempre foi profissional. A gente ficava concentrado no CT do Caju. Nos momentos de resenha, conversa, tentando pegar algum aprendizado dele, alguma vivência da carreira. Foi bem legal para mim", recordou.
Futebol da Tailândia e do Chipre
Em 2016, Dellatorre foi parar no futebol da Tailândia, no Suphanburi. A ideia era ter mais espaço e poder desenvolver o futebol. A experiência, apesar de diferente, marcou a carreira e a vida do atacante.
"Era um país desconhecido para mim. Foi muito bom na vida minha particular, eu tinha acabado de casar. Foi muito importante. Não tinha sido um ano bom para mim em 2015. Fui para a Tailândia em 2016, fiz muitos gols, pude retomar a confiança. Experiência de vida, outra cultura, totalmente diferente", disse.
Pouco depois, o futebol o levou para um país ainda mais alternativo no esporte: o Chipre. "Aprendi muito nesses países. Aprendi o jeito que eles vivem. Os tailandeses, por exemplo, são alegres, acolhedores, sempre sorrindo, não ligam para bens materiais. Eu e minha esposa gostamos muito de viver lá", contou.
Drama com lesão
O que poderia ser só felicidade, porém, quase terminou mal. No futebol cipriota, no APOEL, Dellatorre teve uma lesão no ligamento cruzado do joelho. O fato quase encerrou a carreira do jogador.
"Tive a infelicidade de machucar, eu tinha mais um ano e meio de contrato ainda. Tive uma lesão no joelho. Tive dúvida se poderia voltar a jogar em alto nível de novo. Com certeza [pensei em desistir]. Cria dúvidas, são nove meses de recuperação, passa de tudo na cabeça. Cria dúvidas, acha que não vai conseguir voltar em alto nível. Eu estava em outros países alternativos, não estava em evidência no Brasil, fazia quase três anos que estava fora. Cria a desconfiança", revelou.
"Voltei ao Brasil, joguei dois jogos pelo Mirassol no Paulistão de 2020 e logo veio a pandemia. Fui ao Brasil de Pelotas, pude jogar, não tive sequelas da lesão".
Mas a carreira voltou aos trilhos, mesmo, no começo de 2022, quando recebeu um convite de Mozart para jogar pelo CSA.
"Fiz 24 gols no ano. Nunca tinha feito uma temporada tão boa em números de gols, quase subimos para a Série A. Ali deu uma retomada e confiança muito grande para desempenhar bom futebol", afirmou.
Nobre decisão
Depois de deixar o CSA, Dellatorre foi para o Atlético-GO e atuou no Japão, pelo Montedio Yamagata. No início de 2024, precisou tomar uma nobre decisão: voltar ao Brasil para cuidar melhor do filho.
"Decidi voltar por questão familiar. Meu filho mais velho estava com suspeita de autismo. Decidi voltar para ajudar ele. Tudo deu certo, profissionalmente e na vida particular, meu filho teve evolução muito grande", revelou. A volta foi possível por conta da parceria anterior com Mozart, que mais uma vez quis trabalhar com o atacante.
"Eu estava no Japão havia dois anos. Conversei com minha esposa, estávamos sozinhos lá, não tinha nenhum outro brasileiro. Achamos que nosso filho estava com uma questão, então a gente queria fazer de tudo para poder ajudar. Foi uma renúncia que fizemos para podermos voltar e o ajudar. Poderia ser em qualquer cidade, casou que o Mozart estava no Mirassol. As coisas aconteceram naturalmente, negociei com o clube, e colhemos os frutos agora", contou.
Deu tudo certo. O jogador fez 17 gols no ano -- sendo dez na Série B do Brasileirão -- e ajudou a equipe no acesso inédito à elite justamente no ano do centenário. Sem renovar, o atleta mais uma vez vai seguir os passos de Mozart: o treinador foi contratado pelo Coritiba, que anunciou a chegada de Dellatorre no último dia 19.
"Tive procuras [de times da Série A]. Estava com desejo de voltar para fora, mas o Coritiba desde o começo... Quando o Mozart me procurou, me mostrou o projeto, eu estava aguardando um pouco para decidir. Tinha acabado o campeonato e não queria decidir logo de uma vez, queria conversar com minha família, ver o melhor caminho. Depois, conversando com eles, trabalhar com o Mozart de novo, em um clube grande como o Coritiba... Estou muito feliz de ter acertado e poder trabalhar com ele de novo", finalizou.
