Matheus Cunha: o talento do futsal que imitou cabelo de Neymar, explodiu só na Europa, mas não esquece origens

O que você quer ser quando crescer? Milhões de crianças ouvem isso no Brasil a todo momento. Grande parte delas responde: jogador de futebol, é claro. Mas, embora a maioria precise de outro caminho conforme os anos passarem, um garoto nascido e criado em João Pessoa só tinha uma saída para o futuro. Hoje, ele veste a 9 da Seleção Brasileira.

Matheus Cunha é mais um personagem da série que a ESPN publica nesta semana, com a trajetória de jogadores do Brasil que foram convocados por Carlo Ancelotti e estarão na Copa do Mundo de 2026. Familiares, amigos e um antigo técnico são testemunhas de que a devoção pelo esporte impediu qualquer caminho para o atacante que não fosse o futebol.

"Meu irmão só fazia isso da vida. Não existia outra projeção de carreira para Matheus que não fosse jogar futebol. Era o sonho da vida dele", conta Mariah Cunha, testemunha ocular dessa história de vida.

Quando criança, Matheus já se destacava, mas não na grama. O futuro atacante era craque mesmo no futsal, onde deixava defensores furiosos e espantados com a camisa do Esporte Clube Cabo Branco. Foi lá, ainda como adversário, que chamou atenção de um técnico.

"Era diferente. Na época, com 9 anos, eu já fazia marcação individual, porque se fosse deixar espaço...", conta Barão Xavier, dono da escolinha CT Barão, na capital da Paraíba, e que viu no garoto um talento poucas vezes enxergado por ali.

Barão decidiu ajudar. Indicou Matheus Cunha para o Coritiba e viu o pupilo entrar direto na categoria de base do time paranaense, algo natural para quem já era famoso em João Pessoa.

"Ele sempre foi conhecido aqui na cidade por ser um jogador de muito potencial. Então, quando ele chegava, já começavam os burburinhos: o Matheus Cunha chegou!", conta a irmã.

No Coritiba, o atacante fez parte do elenco que disputou a Copa São Paulo de Futebol Júnior em 2016 e foi levado para um torneio na Suíça, algo que mudaria a sua vida, mesmo que os pais torcessem o nariz.

Barão, o mesmo treinador que havia tentado anulá-lo, chegou com a proposta de levar o talentoso jovem para a Europa.

"Fiquei calado. Quando ele se afastou, eu disse: esse imbecil não vai levar meu filho para canto nenhum (risos)", lembra Carmelo Cunha, pai de Matheus e que mal podia imaginar o que viria pela frente.

O atacante foi, não sem antes desafiar a mãe, Luziana, para uma aposta que envolvia o maior ídolo da infância.

"Chegou em casa com uma empolgação danada, querendo cortar cabelo igual ao Neymar e botar brinco. Eu disse que não. Então, ele falou: se eu for campeão, você faz? Eu disse: faço", prometeu a mãe, sem saber a enrascada que havia entrado. "Ele voltou campeão e artilheiro do campeonato".

Voltou é uma maneira de expressão. Matheus ficou na Suíça e jamais voltou a defender um time brasileiro. Profissionalizou-se no Sion, onde foi artilheiro logo na primeira temporada, e mudou-se para o RB Leipzig. Dois anos depois, já estava no Hertha Berlin, da Alemanha, de onde saltou para o Atlético de Madrid.

Neste meio tempo, uma conquista às vezes esquecida: a medalha de ouro nos Jogos Olímpicos de Tóquio, em 2021. Com que camisa? A mesma 9 que usará nos Estados Unidos.

O passo seguinte estava escolhido: a Premier League.

"Matheus era alucinado por bola. É dom: já nasce com isso", conta o orgulhoso pai.

Cunha jogou dois anos no Wolverhampton até se transferir para o Manchester United como um dos reforços mais caros da janela. Logo na temporada de estreia, ganhou a camisa 10 que um dia já foi de Wayne Rooney, marcou dez gols e carimbou seu nome na lista de convocados de Carlo Ancelotti para a Copa do Mundo.

Se lá em João Pessoa parecia um sonho distante vivenciar tudo isso, Matheus Cunha conseguiu. Do futsal para o futebol. De João Pessoa para Manchester. Da Paraíba para o mundo. Não sem esquecer as origens: até hoje, o jogador mundialmente famoso é visto nas quadras de futsal da cidade-natal.

"É um cara competitivo. Se for valendo uma Coca, é isso. Joga do mesmo jeito em qualquer lugar. Não gosta de perder", diz o amigo Mateus Rodrigues.