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OPINIÃO: Real Madrid dá mais poderosos argumentos para quem o considera maior hoje do que a seleção brasileira

Vinicius Júnior Arte ESPN

Eu cresci em uma época em que o Real Madrid não vencia a principal competição de clubes da Europa (o time ficou na fila continental entre 1966 e 1998). Meu vô galego e nacionalista era torcedor madridista, pois o clube representava melhor do que ninguém a Espanha em termos futebolísticos. E passei a ter uma simpatia pela equipe merengue, primeiramente, por questão familiar.

O interesse pelo futebol estrangeiro só aumentava em mim, ainda mais vendo o Campeonato Italiano nos anos 80, ainda mais assistindo o Milan dos holandeses. Eis que, em 1989, o Real Madrid encontrou aquele poderoso rubro-negro que tanto me encantava na semifinal da Copa dos Campeões da Europa. Foi 5 a 0 em uma hora de jogo (gols de Ancelotti, Rijkaard, Gullit, Van Basten e Donadoni) e só não foi mais porque o Milan tirou o pé na meia hora final. Um chocolate histórico que tem sido lembrado ultimamente porque Carlo Ancelotti (creio que agora o maior técnico da história madridista mesmo) fez um golaço naquela goleada humilhante.

Eu cresci ouvindo sobre o lendário time do Real Madrid que dominou a Europa nos anos 50 e 60, mas aquilo parecia muito aquilo do “time do meu avô”, soava para mim como o Santos de Pelé, um gigante do passado que penava nos anos 80 vendo adversários o ofuscando nas principais competições.

Eu lia aqui e acolá que o Real Madrid era o maior clube da história, pude cobrir como jornalista evento da Fifa que coroou oficialmente o time espanhol como o melhor mesmo do século 20, mas só no final dos anos 90 que a equipe voltou a ganhar a Europa e a posar de “pai” da Champions, algo que hoje virou meme. O Real virou uma espécie de Thanos da bola.

Não há mais discussão sobre o maior clube de todos os tempos faz algum tempo. Ainda vemos, com boa dose de dor de cotovelo e mimimi, alguns antimadridistas dizendo que é o “time do Franco” (que torcia para o Atlético de Madrid, de origem militar) ou que só vence por causa do “VARMadrid”. Muita inveja pelo poderio do Real Madrid, claro. Quem não gostaria que seu clube fosse o maior de todos? Adoramos dizer para o vizinho que nosso time é o maior do bairro, da cidade, do Estado, do país, do continente, do mundo.

Qual equipe de futebol tem mais Mundiais? Em termos de seleção, para nosso orgulho ainda, é o Brasil, com cinco taças. Quando o assunto é clubes, a conta está em oito troféus para o Real Madrid, mas é bem possível que, em um ano, esse número passe para dez.

O time de Ancelotti é muito favorito para vencer a Copa Intercontinental deste 2024 (sim, o Mundial de Clubes dos últimos anos nada mais é do que a extensão da antiga Intercontinental) e um dos principais postulantes para o Super Mundial de 2025, que chega para substituir um torneio de seleções, a Copa das Confederações. Mais uma prova de que no calendário atual do futebol as prioridades mudaram, e os clubes gigantes estão cada vez mais seleções, mais poderosos, mais ricos, mais atrativos, mais globais.

Isso fez com que eu já ponderasse há alguns anos que o Real Madrid seria de fato maior na história do que a seleção brasileira, sempre um símbolo forte de futebol, uma referência do esporte apesar dos muitos insucessos recentes, sobretudo em Copas do Mundo.

Comparar clube e seleção não é algo tão fácil, mas eu nunca tive problema em comparar coisas diferentes. Recebi algumas críticas (inclusive no ar no Futebol 90 da ESPN ao lado do amigo Vitor Birner), por colocar neste momento da história o Real Madrid acima da seleção brasileira. Agora, pintou a 15ª taça merengue na principal competição interclubes do mundo, cada vez mais badalada, endinheirada e competitiva. Não é aquela velha Copa dos Campeões da Europa com poucos clubes e com alguns raros projetos milionários, o que explica bastante aquele domínio do Real nos primórdios.

Hoje, todo mundo se esforça, investe, faz tudo para vencer uma Champions (que o digam o Manchester City, que conseguiu um troféu, e o Paris Saint-Germain, que ainda não teve essa “sorte”). O Real, tão odiado quanto admirado, entra na disputa muito na base do “eu contra todos”. Os outros times espanhóis o abominam com todas as forças, e as outras ligas o veem como o mais temido concorrente. A Inglaterra, pátria-mãe do futebol, conseguiu 15 troféus da principal competição interclubes da Europa, o mesmo número do Real Madrid sozinho.

Todas as demais ligas nacionais do Velho Continente perdem em taças para o gigante time da capital espanhola. Esse reinado beira o absurdo nesta fase do futebol mundial, é praticamente inexplicável, tanto que falam em “pacto” do Real com a “Champions”, mesmo aqueles que não gostam de falar em “camisa” no futebol acabam se rendendo à tradição e à mística madridista em torneios internacionais.

Curioso constatar que os três maiores jogadores da história para muita gente (Pelé, Maradona e Lionel Messi) não vestiram a camisa do maior clube de todos os tempos, aquele que tem por costume contratar as principais estrelas do esporte mais popular do planeta. Mbappé chega agora com pompa a Madri para brigar com Vinicius Jr. pelo prêmio de melhor do mundo, assim como muitos outros astros antes (incluindo Cristiano Ronaldo, que foi tietado pelo atacante francês quando era garoto, como ele bem mostrou em fotos vestindo o uniforme do Real em suas mídias sociais). Por que essa fome do Real de ser o melhor do mundo sempre? Florentino Pérez, um bem-sucedido empresário que ganhou fama no esporte por juntar galácticos no Real Madrid, chegou a sete títulos da Champions League, deixando para trás o antigo presidente Santiago Bernabéu, que dá nome ao estádio do clube.

Florentino está ganhando de goleada de Joan Laporta, o presidente do Barcelona que desdenhou da contratação de Mbappé alegando que prefere a filosofia do Barça de formar jogadores, só que o clube catalão gastou mais de € 40 milhões a mais que o Real em contratações nos últimos cinco anos. Não dá mais para ficar justificando o sucesso do rival porque esse tem mais proteção do governo ou das arbitragens. Nos últimos anos, foram vários os escândalos no Barcelona, problemas de direção que nada têm a ver com a política da Espanha. Tem sim a ver também com a Comissão de Arbitragem, só que quem é acusado de favorecimento é o time catalão, não o vilão Real.

A contratação de Di Stéfano é vista por muita gente como um divisor de águas do Real Madrid no futebol mundial e uma prova de que o governo dá preferência ao time da capital espanhola. Lembro que a decisão de não contar com o craque argentino foi do próprio Barça, que se recusou a dividir o jogador com o rival, como lhe foi oferecido. Não era para ficar chorando até hoje por isso, assim como não dá para o Real ficar lamentando porque o Neymar escolheu jogar no rival catalão. Florentino contratou depois o Vini Jr, o Rodrygo e o Endrick e está tudo certo. Bola para a frente e nada de tentar diminuir os feitos e as conquistas do adversário.

Franco teve seu papel na história do Real Madrid por sua ligação com Santiago Bernabéu, mas ele ajudou o Barcelona também perdoando dívida e dando apoio ao Camp Nou, tanto que foi até homenageado e condecorado pelo clube da Catalunha. Ficar lembrando só o que lhe favorece e buscando sempre difamar o outro não é algo muito esportivo. Sejamos justos com a história e com o presente: o Real Madrid não é o tirano malvadão que tentam pintar ao longo dos tempos.

Ele é um simples quadro associativo (não é um clube-Estado, como está na moda, nem é uma SAF) que trabalhou certo para estar no topo do futebol. Fez seu estádio, remodelou seu estádio, contratou muita gente boa, formou também muita gente boa, importou grandes jogadores e treinadores, errou também ao apostar em alguns atletas e técnicos, ganhou muito dentro de campo jogando bem e nem sempre atuando bem, venceu muitas vezes sem a ajuda da arbitragem e algumas outras vezes com a ajuda do juiz. Nada diferente do que acontece com todos os outros grandes clubes mundo afora.

Teremos agora Eurocopa e Copa América como atração. O vitorioso Real Madrid estará de férias, mas seus astros entrarão em campo por suas seleções e continuarão na vitrine. Isso só me fará pensar, cada vez mais claramente, que o Real é mesmo a maior instituição da história do futebol.