Marcelo pode até não se considerar uma lenda do Real Madrid, clube que deixou há alguns meses após 16 temporadas de extremo sucesso, mas os números não mentem. Com uma coleção de 25 títulos, o brasileiro é o maior campeão da história merengue. Lenda, portanto.
A relação com a equipe do Santiago Bernabéu é tão especial que Marcelo sequer admite que foi embora. Sim, sua passagem como jogador se encerrou em maio de 2022, após (mais um) título da Champions League, este em Paris. Mas o Real Madrid jamais deixará de ser o seu clube, não importa onde esteja.
"Vou ser sincero: não saí do Real Madrid. É a sensação que eu tenho. Como vou sair do Real Madrid? Eu não saí do Rio de Janeiro. Isso faz parte da gente. É impossível ir embora", falou Marcelo, em entrevista exclusiva à ESPN, a primeira após trocar a Espanha pela Grécia, onde passou rapidamente pelo Olympiacos.
No primeiro bate-papo após deixar o Santiago Bernabéu, o lateral-esquerdo, hoje livre no mercado após rescindir com os gregos, falou profundamente de sua história com o Real Madrid. Também abordou o que pensa para o seu futuro, naturalmente ligado ao clube da Espanha.
Marcelo também abordou outros assuntos, entre eles a surpresa que teve ao ver Rodrygo treinar a seu lado. E não fugiu da pergunta: quem é o técnico mais marcante com quem trabalhou em toda a carreira? Veja abaixo as respostas do lateral brasileiro, uma lenda vive do lado merengue de Madri.
Importância do Real Madrid na sua vida
"Posso falar com total tranquilidade o que o Real Madrid representa na minha vida, mas não só na minha, mas sim na de muita gente que sequer está perto do clube. Ou seja, crianças que compram a camisa porque sabem que o Real é gigante. A história que o clube tem. É algo que poderia falar aqui durante meia hora, mas para mim representa muito mais do que iso. Porque cresci aqui, é minha casa. Ou seja, cheguei com 18 anos e aprendi todos os valores do Real Madrid. Me converti em um dos capitães e foi aprendendo com Raúl, com Casillas, Sergio Ramos, Michel Salgado. Esses nomes são a história do Real Madrid, e eu aprendi com essas pessoas. Para mim representa responsabilidade, orgulho. Real Madrid é uma instituição grandiosa que vai além de futebol. Te ensinam valores, ajudam as crianças que precisam de auxílio, as mulheres, os omens. É algo gigantesco".
Como foi sair?
"Vou ser sincero: não saí do Real Madrid. É a sensação que eu tenho. Como vou sair do Real Madrid? Eu não saí do Rio de Janeiro. Isso faz parte da gente. É impossível ir embora. Além disso, tenho algo aqui dentro, que é meu filho, crescendo aqui. Por isso digo que é impossível dizer que saí do Real Madrid. Não, só não estou no clube agora".
Lembranças da última temporada
"No meu último ano, que praticamente não joguei, me perguntei: o que posso fazer para ajudar? Porque, em minha carreira, nunca pensei 'vou jogar, vou ganhar título, vou ganhar dinheiro'. Eu sempre quis deixar um legado. Então pensei em como poderia ajudar a equipe. Estava chateado porque queria jogar, claro. Todo jogador que fica no banco feliz está mentindo, é impossível. Então, tentei ajudar da minha maneira. Como? Treinava em alto nível porque sempre chocava com Car vajal e Lucas Vázquez".
"Dizia: esses caras não vão passar por mim e não vou dar nada de presente. Então estou ajudando meu time a ser competitivo. Me senti muito útil assim e tive a sorte de ter Ancelotti. Ele foi super amável comigo, então foi ótimo ter alguém como ele, que me conhece muito, nesse tipo de situação. Não tive problemas com Ancelotti, com Ferland ou outro jogador. Treinei e disse para mim mesmo que meu momento ia chegar. E chegou na final da Champions, sem tocar uma vez na bola".
Pensa em voltar?
"Sim, sim, mas não quero pensar nisso agora, o que poderia fazer. Mas, sim, seria ótimo voltar e tentar a ajudar os jovens que precisam. Me vejo regressando, mas não sei exatamente como porque o Real é muito grande. Existem muitas maneiras de ajudar a instituição. Me vejo tentando ajudar cada vez mais o Real Madrid, como quando vim com 18 anos para dar minha pequena contribuição".
Futuro
"Não penso muito no futuro, tampouco no que fiz ou o que deixei de fazer. Sempre vivo o momento, o agora. No momento, a verdade é que só tenho palavras de agradecimento a todos que fazem parte da minha vida, porque sempre me ajudaram a ser quem eu sou, não uma coisa de mentira, como sabemos que é o futebol em geral. No futebol, tem uma parte que te faz pensar que é mais do que é verdade. Sempre há alguém que precisa te dizer a verdade e te colocar com é no chão. Imagine um garoto de 18 anos, de 20 anos, que é campeão pelo Real Madrid. É normal se sentir assim. "Sou jogador do Real, do Barcelona, do Betis", entende? Então é bom ter uma pessoa, um amigo, uma esposa ou sua família para te colocar no mundo real".
Título mais especial
"Qualquer título que se ganha dá uma sensação espetacular, a satisfação de trabalhar a temporada toda para ser campeão. Mas o primeiro título que ganhei com o Real Madrid foi espetacular, porque foi quando me senti um jogador de verdade. Foi como dizer: tenho um título com o Real, essa é a minha história. E logo o último, que foi aquele em que me senti mais importante. Despedir-me do Real Madrid com um título de Champions League. Como ganhamos cinco, parece que é fácil, que se ganha hoje e ano que vem de novo. Mas esse título é muito, muito difícil. Por isso foi tão especial".
Real Madrid x Barcelona inesquecível
"O da final em Valencia, que Cris(tiano Ronaldo) mete o gol de cabeça. Faço a parede com Di María, ele cruza e Cris faz o gol. Porque foi nosso primeiro título assim, em cima do Barcelona".
Vini Jr. e Rodrygo
"Penso que você tem vários exemplos a seguir no futebol, os bons e ruins. Você pode ter um modelo para deixar legado, ou eleger alguém que só quer jogar futebol e ganhar dinheiro. Cabe a você a escolha. E para mim tem o fator sorte, de não sofrer lesões, de ter um treinador que te ajude, de estar em um clube como o Real Madrid, que te engrandece como pessoa, não como jogador somente".
"E que isso influenciou para eles [Militão, Rodrygo, Vini]. É preciso ter muita paciência também, porque no começo não joga tanto, mas veja agora: parece que estão no Real há 15 anos! É incrível, são todos muito bons. Igual Fede(rico Valverde), é impressionante. Quando chegou, Casemiro e eu dissemos: esse cara, incrível. A maneira que tocava a bola, como corria. Sabíamos que seria uma estrela".
"O Rodrygo tem... é o típico jogador que você diz que nasceu com isso. Natural, ele dribla com o corpo de uma forma que nunca tinha visto. Por exemplo, o Vini faz um drible, dá uma caneta ou sei lá, o Isco faz isso com você e você diz meu Deus! Mas o Rodrygo te dribla de um jeito, com uma simplicidade, com o corpo dele, com o corpo dele dançando assim, sem tocar na bola, que é brutal. E isso eu nunca tinha visto".
"Ele é falsamente lento porque você tem jogadores que são muito rápidos no time e parece que (ele é lento) mas o Rodrygo tem um jeito de acalmar o jogo, acalmar a bola, driblar com facilidade. Ou seja, ele não fica nervoso na frente do goleiro. E isso para mim é muito difícil. Fiquei surpreso porque um jogador de 30 anos, com experiência no Real Madrid, talvez ainda não tenha isso".
Treinadores importantes
"Tive vários. Um do Brasil, Josué Teixeira, que foi quem me pôs para jogar. Eu tinha 16 anos, e no Brasil isso acontece muito, que é ter um interino que dirija o time entre a saída de um técnico e a chegada do outro. Ele me viu treinar e jogar no juvenil. Joguei com ele, mas, quando veio o novo treinador, retornei para a base. Quando ele assumiu de novo, me subiu com 17 anos. Foi quando marquei meu primeiro gol. Esse técnico para mim foi brutal".
O melhor de discurso no vestiário
"De conversa, o Mourinho. Porque era um especialista em entrar na sua mente. Não era, é. Para mim é top. Mudou minha maneira de defender, de ser agressivo, de brigar. E conseguiu mudar outro jogadores também, em coisas que eles não faziam bem. Ele punha na sua cabeça que precisava ser assim. E eu aceitei porque queria fazer um bom trabalho para ele".
Melhor técnico para gerir grupo
"Zidane. Teve uma temporada, acho que a de 2016/17, que Kiko Casilla tinha jogado 25 partidas. E Keylor (Navas) ria de tudo. Um goleiro que joga 25 partidas e o outro não está integrado. E logo Morata entrava, entrava Lucas Vázquez, saiam outros. E jogos f***, Um jogo que me chamou atenção foi contra o PSG ou contra o City. Ele tira Casemiro e coloca Kovacic. Isso é administrar bem a equipe. Tentar manter todos felizes também".
Carlo Ancelotti
"Fico com a maneira tranquila dele ser. Tem uma foto dele, quando o Zizou era o auxiliar. É uma foto que tenho até no meu celular. Quando Sergio faz um gol de cabeça, Zizou está comemorando e Ancelotti com um chiclete, como se nada estivesse acontecendo. Então fico com essa tranquilidade, essa calma interior".
