Apesar do currículo repleto de títulos e trabalhos vitoriosos por onde passou, Pep Guardiola ainda é visto como uma figura difícil de decifrar, mesmo após quase 20 anos como técnico e uma carreira já finalizada como jogador. Nada melhor, então, do que ouvir alguém que compartilhou momentos fora do campo e longe dos holofotes com o espanhol que revolucionou o esporte.
Na Inglaterra para a cobertura de Manchester City x Arsenal neste domingo (19), às 12h30 (de Brasília), no Etihad Stadium, com transmissão ao vivo no plano premium do Disney+, a ESPN fez uma entrevista exclusiva com Martí Perarnau, autor de três livros sobre Guardiola, para entender como é o dia a dia do badalado técnico.
Mesmo com o jeito intenso à beira do campo, que até hoje rendem clipes que viralizam na internet, Pep é uma pessoa calma e serena fora dos campos, como pôde perceber Perarnau. O biógrafo e amigo de Guardiola diz que o técnico do City pouco consegue fugir de assuntos ligados a futebol, mas que é um "homem comum" longe das câmeras.
“Ele é muito transparente com a imprensa, com os jornalistas e com o público. Não sabe esconder seus sentimentos, como ocultar seus sentimentos ou seu jeito de ser. Mostra muito claramente quando está de bom humor, quando está de mau humor, quando está feliz ou quando não está. Sempre digo que ele é ele mesmo”, explica o autor dos livros "Guardiola Confidencial" e "Pep Guardiola: a Evolução", traduzidos no Brasil pela editora Grande Área, e também "God Save Pep" (Deus salve Pep), lançado somente na Inglaterra.
“Ele é muito quieto, muito normal, sereno. Fora do campo, é muito apaixonado quando fala sobre futebol, o que acontece na maioria das vezes. Mas, no geral, é bastante calmo. Gosta de sair com amigos, convidá-los para sua casa, jantar, tomar uma taça de vinho. Tem preocupações sociais, culturais e políticas; interessa-se pelo que acontece no mundo”, contou.
“Se você estiver jantando na casa dele com outros amigos, não diria que se trata de um treinador de futebol de classe mundial. Diria apenas que é um homem de cerca de 50 anos, muito normal. Fora do campo, é assim. Dentro de campo, é outra coisa, ali ele se transforma. Mas, fora dele, é uma pessoa muito comum”.
A parceria entre Perarnau e Guardiola começou em 2013, quando o técnico se preparava para assumir o Bayern de Munique e o jornalista conseguiu acesso exclusivo ao seu dia a dia para escrever a primeira obra. O período ajudou a revelar bastidores do trabalho, a obsessão pela perfeição e os métodos de treinamento, além de desconstruir alguns mitos sobre sua personalidade após a saída do Barcelona.
Foi também ali que o autor percebeu um dos traços mais marcantes de Guardiola: a forma discreta com que toma decisões importantes, inclusive sobre o próprio futuro. Após três títulos consecutivos da Bundesliga e três semifinais de Champions League, o principal tema na Alemanha era a renovação do treinador, como lembra Perarnau. Mas a decisão veio de forma silenciosa.
“Guardiola foi a uma livraria para apresentar um livro de poemas de um poeta catalão, traduzido para o alemão. O editor pediu que Pep falasse sobre o autor, alguém que ele conhecia bem. Ele participou do evento, falou sobre o livro, sobre o poeta, e encerrou seu discurso lendo um poema que, em essência, dizia: ‘tudo foi feito, mas é hora de partir’ ”, contou.
“Naquele momento, pensei: ele está anunciando sua saída com esse poema. Ao lê-lo, estava dizendo que iria embora. Mas, curiosamente, ninguém na Alemanha percebeu isso. As semanas e os meses passaram, e ninguém entendeu. Até que o clube fez um comunicado oficial confirmando que Pep sairia e não renovaria o contrato”, disse.
Admiração pelo futebol brasileiro
Outro traço marcante de Guardiola é sua admiração pelo futebol brasileiro, que vai muito além de ídolos como Pelé e Romário (seu companheiro como atleta no Barça). Segundo Martí Perarnau, o Brasil aparece com frequência nas conversas entre os dois justamente pelo impacto histórico que o país teve no futebol mundial.
Dentro disso, um nome em especial sempre surge: Telê Santana, bicampeão mundial com o São Paulo e treinador da Seleção Brasileira. A equipe comandada por ele na Copa do Mundo de 1982 é, até hoje, lembrada por Guardiola como uma das mais talentosas e influentes da história do futebol, mesmo sem ter conquistado o título.
Essa admiração, no entanto, também passa por um fator importante na formação de Guardiola: Johan Cruyff, seu principal mentor no Barcelona e referência central na sua visão de jogo. O holandês acompanhava de perto o futebol brasileiro e tinha grande respeito pelo trabalho de Telê, para quem perdeu a final da Copa Intercontinental em 1992.
“O treinador brasileiro de quem falávamos era Telê Santana, porque ele disputou a final da Copa Intercontinental (contra o São Paulo), e Cruyff tinha uma avaliação muito positiva sobre o seu trabalho. Como Pep era o aluno favorito de Johan, foi a partir daí que começamos essa conversa”, contou.
A falta de continuidade no trabalho dos treinadores brasileiros após um ciclo ruim também é algo que chama a atenção de Guardiola, que, por sinal, passou a temporada 2025/2026 sem conquistar nenhum título à frente do City.
“Falamos sobre as dificuldades que os treinadores no Brasil enfrentam para desenvolver um projeto com continuidade, como o próprio Pep costuma dizer. Se ele tivesse passado pelo primeiro ano no Manchester City, quando tudo deu errado, ou pela última temporada, também complicada, provavelmente teria perdido o emprego no Brasil, sem dúvida”, concluiu.
Onde assistir a Manchester City x Arsenal?
Manchester City x Arsenal se enfrentam neste domingo (19), às 12h30 (de Brasília), com transmissão ao vivo no plano premium do Disney+ e com a ESPN in loco fazendo a cobertura.
