De plano de carreira a caminho de ex-Vasco: como Chelsea pode mudar mercado do futebol com chegada de novo técnico

A contratação de Liam Rosenior pelo Chelsea como técnico é uma das mais bombásticas e singulares da temporada, mas não pelo motivo que você pode estar imaginando. O nome do inglês de 41 causou choque inicialmente por ser pouco conhecido e vir de um time menor. Mas a movimentação do treinador envolve algo muito maior e inédito nas grandes ligas europeias.

Rosenior assumiu o comando de Stamford Bridge após a repentina saída de Enzo Maresca no Ano Novo, tornando-se o sexto treinador da era Todd Boehly e a quinta nomeação permanente que o bilionário fez desde que assumiu o clube em maio de 2022.

Mas a história foi bastante diferente dessa vez. O Chelsea essencialmente contratou um funcionário que já era seu. O Strasbourg, antigo time de Rosenior, é parceiro dos Blues, e por isso, na prática, Liam já fazia parte do grupo da equipe inglesa.

Depender de um clube parceiro para desenvolver um ativo é algo que se tornou muito comum no âmbito dos jogadores. O próprio Chelsea, por exemplo, usou essa estratégia com o volante brasileiro Andrey Santos, que teve uma passagem pelo Strasbourg antes de ser titular dos Blues.

Agora, do outro lado da moeda, é raríssimo que esse mesmo processo seja feito com técnicos - e por isso a contratação de Rosenior chama tanto a atenção.

Agora o Chelsea enfrenta o Arsenal nesta quarta-feira (14), às 17h (de Brasília), em jogo válido pelas semifinais da Copa da Liga Inglesa e com transmissão ao vivo pelo Disney+. Resta agora ver se o desenvolvimento de Rosenior deu certo, e entender melhor como ele foi feito

Planos de carreira são comuns para jogadores ... mas não para treinadores

Atualmente, existem mais de 100 organizações multi-clube (MCOs) no futebol, das quais pelo menos 23 ligam três ou mais times. Alguns até parecem mini-impérios -- por exemplo, o portfólio de 12 equipes em cinco continentes do City Football Group, com o Manchester no topo da organização.

Jogadores percorrerem um “plano de carreira” que envolve mais de um clube parceiro se tornou algo comum no futebol europeu. O grupo Red Bull aperfeiçoou essa arte há mais de uma década, movendo jogadores dentro do grupo do FC Liefering (na segunda divisão da Áustria), para o RB Salzburg (na primeira divisão da Áustria), para o RB Leipzig na Bundesliga, e então para um clube de elite em busca de lucro na transferência.

Alguns dos melhores jogadores da Europa atualmente, como Dominik Szoboszlai, do Liverpool, e Dayot Upamecano, do Bayern de Munique, completaram esse caminho.

O caminho entre Chelsea para Strasbourg por sua vez agora está entre os mais percorridos do futebol. Três jogadores atuais dos Blues -- Mike Penders, Kendry Páez e Mamadou Sarr -- estão emprestados ao time francês, enquanto outros três -- Ben Chilwell, Diego Moreira e Mathis Amougou -- foram em definitivo para a equipe.

Andrey Santos passou a última temporada emprestado ao Strasbourg e agora se reunirá com Rosenior no Chelsea. O atacante holandês Emmanuel Emegha, de 22 anos, também se juntará ao Chelsea no meio do ano.

Já os técnicos não costumam percorrer os mesmos planos de carreira. O único MCO que realmente conseguiu isso foi a Red Bull, que promoveu com sucesso Marco Rose, Matthias Jaissle e Jesse Marsch através de seu sistema.

Exemplos em outros lugares são escassos. Patrick Vieira treinou a equipe juvenil do Manchester City e depois se transferiu para o New York City FC sob a bandeira do CFG; Daniel Stendel comandou o Barnsley e depois se transferiu para o Nancy, também do Pacific Media Group na França; e Nigel Pearson assumiu o comando do OH Leuven, de propriedade da King Power International, na Bélgica, logo após deixar o Leicester City.

Os clubes no topo das principais ligas europeias ainda não tinham usado essa estratégia para o seu próprio treinador -- até agora.

”Boehly entrevistou todo mundo que eu conheço na Red Bull”

A ESPN conversou com Marsch (agora treinador da seleção masculina do Canadá), que é o principal exemplo de um treinador moldado por uma organização de múltiplos clubes, tendo progredido do New York Red Bulls, para o FC Salzburg e depois para o RB Leipzig ao longo de seis anos.

O ex-jogador americano enfatizou que, embora uma boa organização multi-clube alinhe estilos de jogo e desenvolva caminhos para os jogadores, ela pode - e deve - fazer mais.

"A primeira coisa que eu diria é que, quando Todd Boehly comprou o clube [Chelsea], ele deve ter entrevistado praticamente todas as pessoas que conheço na Red Bull sobre quais eram os processos no desenvolvimento de um modelo de múltiplos clubes. Então ele claramente tinha isso em mente desde o início", ele disse.

"Não se trata apenas do estilo de jogo. Trata-se de desenvolver jovens jogadores, treinadores, olheiros, fisioterapeutas, cientistas do esporte, analistas de vídeo, assistentes técnicos”.

"É isso que eu acho que a identidade de um clube deve ser. Um dos elementos mais importantes é desenvolver os treinadores, porque são eles que estão encarregados de implementar o estilo de jogo”, completou.

Ao recrutar jogadores e supervisionar seu desenvolvimento em vários clubes, você desenvolve um conhecimento intenso sobre eles, e a mesma lógica se aplica à equipe. Marsch diz que isso remove algumas das incógnitas críticas que você encontra durante um processo padrão de contratação de um técnico.

"Um fato complicado quando se lida com técnicos é que você nem sempre sabe como eles lidam com o estresse e como assumem a responsabilidade em situações difíceis," ele diz. "Mas agora você já tem uma compreensão embutida de quem eles são. Como eles lidam com certos elementos do trabalho deles? Como eles tratam as pessoas ao seu redor? Essas coisas são quase mais importantes do que a forma como eles treinam”.

Um vislumbre do futuro sombrio do futebol?

A transferência de Rosenior para o Chelsea levanta questões importantes para o futuro próximo, a primeira das quais é quão viável é administrar com sucesso um sistema de múltiplos clubes. Marsch alerta que é incrivelmente difícil.

Há tantas ineficiências no futebol. O sistema de contratar e demitir que é criado na maioria dos clubes, a incapacidade de ter um plano de longo prazo, a incapacidade de alinhar um clube à sua base... fazer isso dentro de um único clube já é difícil, imagine fazer isso em um sistema de múltiplos clubes!

"Isso é futebol, são pessoas; a emoção dita as decisões mais do que a razão e a estratégia", disse March.

A Red Bull claramente teve sucesso com isso, e Boehly explorou essa organização em busca de dicas e sugestões sobre como recriar o modelo. O bilionário agiu rapidamente para contratar o ex-treinador do Wolverhampton, Gary O'Neil, como substituto no Strasbourg, o que significa que ele agora é visto como um potencial candidato para o Chelsea no futuro.

O CFG, que inclui o Manchester City, abriu caminhos nos níveis inferiores para treinadores e permitiu que eles treinassem em diferentes continentes, mas com Pep Guardiola ocupando o cargo principal nessa cadeia por quase uma década, não houve um movimento óbvio para preparar um substituto usando esse método.

Em vez disso, o City parece muito mais propenso a convocar um dos ex-assistentes de Pep quando chegar a hora. Pep Lijnders (anteriormente sob Klopp no Liverpool) está atualmente nesse cargo e foi recentemente rotulado de "gênio" por Guardiola; Maresca supostamente teve discussões sobre ocupar esse cargo e agora está livre no mercado; o técnico do Arsenal, Mikel Arteta, se formou sob a tutela de Guardiola; enquanto o chefe do Bayern, Vincent Kompany, foi um defensor e capitão chave para Guardiola em campo.

Depois, há o Manchester United, que é a joia da coroa no portfólio multi-clube da INEOS, que inclui o Lausanne na Suíça e o Nice na França. Tendo acabado de despedir Ruben Amorim -- o primeiro treinador que a sua hierarquia realmente escolheu -- talvez lhes servisse muito bem começar a usar os outros clubes sob o controle de Sir Jim Ratcliffe como campos de testes, o que ajudaria a evitar surpresas desagradáveis.

Mas a ausência de histórias de sucesso nesta área (exceto a da Red Bull) é um alerta?

Outra questão é o equilíbrio entre os clubes. O que é bom para um clube necessariamente será benéfico para o outro? Deve-se notar que os fãs do Strasbourg estão indignados com a transferência de Rosenior para Stamford Bridge, com a federação de torcedores rotulando-a como "mais um passo humilhante na subserviência do clube ao Chelsea."

Eles dificilmente são o primeiro grupo de fãs a sentir que estão sendo pisoteados por MCOs e grandes empresas - até mesmo o modelo da Red Bull atraiu a ira de alguns setores - e adicionar uma cadeia alimentar gerencial aos caminhos dos jogadores já estabelecidos só aumentará o problema para muitos.