Eu não queria fazer dois posts seguidos sobre a Premier League, mas a janela de transferências não deixa. A Premier League e o Liverpool tentam ser humildes, mas o recorde no gasto com reforços não deixa. O Inglesão chegou a inacreditáveis £ 3,19 bilhões (mais de R$ 23,4 bilhões) em contratações nesta janela que terminou ontem, mais que LALIGA, Bundesliga, Serie A e Ligue 1 juntas. A conta está ficando absurda e desigual. A continuar assim, vai ter gente querendo fair play financeiro entre as ligas ou uma regulação ainda maior do dinheiro que entra no futebol. A maioria dos donos de clubes da Premier League é de empresários estadunidenses, mas o Campeonato Inglês tem por trás também magnatas ou companhias da Arábia Saudita, da China, dos Emirados Árabes, da França, da Grécia e do País de Gales, além da própria Inglaterra, é claro. Investir no futebol inglês virou um enorme negócio, que o digam os atores Rob McElhenney (Estados Unidos) e Ryan Reynolds (Canadá), que estão se divertindo e lucrando também à frente do Wrexham, humilde clube galês que hoje joga na também milionária segunda divisão inglesa (Championship). A Premier League paga bem mais do que a Champions League e o Mundial de Clubes. Claro que essas duas nobres disputas internacionais são em mata-mata, contam com bem menos jogos, mas mesmo assim os valores impressionam. O campeão inglês fatura algo como US$ 221 milhões, contra US$ 127 milhões do campeão europeu e US$ 125 milhões do campeão mundial. Talvez muito por isso também que o vencedor da primeira edição da Copa do Mundo de Clubes tenha sido um time que ficou em quarto lugar na Premier League (Chelsea).
Foi o terceiro verão seguido na Europa com a liga inglesa gastando mais que £ 2 bilhões (lembro que a moeda britânica vale mais do que o euro e o dólar, hoje £ 1 vale R$ 7,32). O recorde anterior de gastos na aquisição de atletas em uma janela era de £ 2,4 bilhões, o que aconteceu em 2023, segundo os cálculos da Deloitte. O valor fechado no primeiro dia de setembro deste ano é, aproximadamente, £ 650 milhões maior do que a marca antiga. Esse montante surreal de £ 3 bilhões em uma simples janela de transferências representa 51% do que gastaram juntas (valor bruto) as outras quatro grandes ligas nacionais europeias (Alemão, Espanhol, Francês e Italiano). Dá para dizer, portanto, que quatro tradicionais campeonatos de ponta no Velho Continente juntos equivalem financeiramente à metade da Premier League apenas. Há um abismo econômico claro entre os torneios neste momento, sem dúvida. A penetração global do Inglesão e a sua grande força interna multiplicaram seu valor e o colocaram em um patamar à parte no futebol mundial. Assim como a NBA se reinventou na década de 80 e virou um modelo de sucesso como liga esportiva em todo o planeta, a Premier League é sim o exemplo a ser seguido no mais popular dos esportes.
Sem o dinheiro infinito do Manchester City de Guardiola, o Liverpool de Jürgen Klopp sofria para superar o rival na Premier League mesmo quando fazia mais que 90 pontos. Isso fez com que o simpático treinador alemão chamasse a atenção algumas vezes para o fair play financeiro e para o fato de os Reds serem competitivos mesmo não tendo a mesma dinheirama do poderoso concorrente. Curioso ver que agora, um ano após a saída de Klopp do futebol inglês, o Liverpool gastou em apenas uma janela de transferências metade do que investiu durante os 9 anos em que o treinador alemão esteve no comando da equipe. O time de Guardiola pagou £ 185,8 milhões por reforços neste verão, ficando bem atrás do Liverpool, que gastou incríveis £ 446,5 milhões. Vale lembrar que na temporada passada o time da cidade dos Beatles foi campeão com certa sobra, mesmo estreando um técnico (Arne Slot) que tinha a dura missão de suceder o queridão e ídolo Klopp. Essa imagem humilde dos Reds diante dos endinheirados City, Newcastle, Chelsea e até mesmo o grande rival Manchester United virou do avesso de vez. As três contratações mais caras deste verão foram todas do Liverpool: Alexander Isak (€ 144 milhões), Florian Wirtz (€ 125 milhões) e Hugo Ekitiké (€ 95 milhões). Ele estourou a banca dentro de um cenário em que a Premier League quebrou praticamente tudo: das dez transações mais vultosas desta janela de transferências, oito são com times da Premier League comprando. As exceções no Top 10 dos reforços mais caros são Osimhen no Galatasaray (€ 75 milhões) e Luis Díaz no Bayern de Munique (€ 70 milhões). E essa saída do atacante colombiano do Liverpool explica em parte porque os Reds conseguiram gastar tanto em uma única janela. O clube 20 vezes campeão da Inglaterra lucrou bastante também com vendas, tanto que o Arsenal na verdade acabou sendo quem teve o maior déficit financeiro (ou maior investimento) na balança entre entradas e saídas.
Vou passar abaixo o quadro com o quanto cada clube da Premier League gastou em contratações neste verão e o quanto cada um recebeu com vendas de atletas (valores em milhões de libras). Se a Premier League é mesmo a grande liga nacional deste século, nada melhor do que estudá-la a fundo para entender seu poderio. E entender também quem são os favoritos na competição com base no que a balança comercial dos times aponta (sete deles venderam mais do que compraram, a maioria botou a mão no bolso).
CLUBE COMPRAS VENDAS RESULTADO
ARSENAL 267 10 257
LIVERPOOL 446,5 228,1 218,4
MANCHESTER UNITED 232,4 61,7 170,7
TOTTENHAM 171,2 17 154,2
SUNDERLAND 183,4 42 141,4
EVERTON 124 10 114
LEEDS 103,1 0 103,1
NOTTINGHAM FOREST 182,5 81,5 101
NEWCASTLE 256,3 157 99,3
MANCHESTER CITY 185,8 96 89,8
WEST HAM 131,3 55 76,3
BURNLEY 97,7 31 66,7
FULHAM 35,1 8,7 26,4
ASTON VILLA 28 43 -15
CRYSTAL PALACE 49,8 67,5 -17,7
CHELSEA 296,5 314,4 -17,9
WOLVERHAMPTON 105,6 126,5 -20,9
BRENTFORD 92,8 152 -59,2
BRIGHTON 67,7 127,5 -59,8
BOURNEMOUTH 136,7 202,5 -65,8
