Já faz um bom tempo que a badalada Premier League é a liga nacional estrangeira mais querida dos brasileiros. Digo isso com a experiência de ser comentarista do Campeonato Inglês há mais de 20 anos, quando nem tudo era mato (em termos de transmissões de futebol internacional), mas ainda víamos uma certa resistência à liga inglesa, aquele velho preconceito de que tudo é correria, chutão, kick and rush, aquela ideia de que os jogadores britânicos são todos cintura dura, sem técnica, sem arte. Com o passar dos anos neste século, a Premier League virou uma febre, um modelo de sucesso, uma referência de futebol bem jogado, dinâmico, intenso, corrido, com muita ação durante os 90 minutos, a bola não para quase nunca, todos os duelos individuais valem muito etc. Os mais que seculares clubes ingleses deixaram de ser figurinhas estranhas e passaram a ganhar milhares de fãs, perfis diversos de torcedores aqui no Brasil. Se antes o Campeonato Inglês não achava espaço nem na grade de programação da ESPN, virou nos últimos tempos um recordista de audiência no país.
Cinema, música e games ajudaram a popularizar os clubes britânicos por aqui. Na TV, filmes e séries sobre clubes ingleses, como a do Sunderland, só fizeram esse carinho pelos times de lá aumentar exponencialmente aqui. A cultura inglesa (sem fazer propaganda de curso de inglês) puxa o futebol na “terra do rei” (lembra de quando falávamos “terra da rainha”?) e vice-versa. Temos hoje um monte de especialistas em Premier League no Brasil, gente que aprendeu a admirar o Inglesão e a conhecer muito da história, das figuras lendárias e dos elencos dos clubes. Mas pegue apenas a primeira rodada, que começou na sexta-feira com um 4 a 2 do Liverpool sobre o Bournemouth, e veja que tem muito mais atrações nesse campeonato diferenciado além dos jogos tão vibrantes.
A Premier League começou com várias e belas homenagens a Diogo Jota e André Silva, atletas que morreram em acidente de carro nas férias. O Liverpool, atual campeão nacional e clube que Jota defendia, foi quem mais emocionou o mundo. O respeito que a Inglaterra tem pelos profissionais da bola é quase tão grande quanto o que mostra pelos seus heróis de guerra, sempre lembrados com o mais profundo respeito no Remembrance Day (Dia da Lembrança) em novembro. Minuto de silêncio lá é silencioso mesmo! Homenagem lá é Homenagem com H maiúsculo. Quem fez gol acabou entendendo o momento e lembrou do dono da eterna camisa 20 (minuto 20 agora é sagrado em Anfield). O craque Salah, que é africano e muçulmano, chorou copiosamente pelo colega português que perdeu no dia 3 de julho em acidente de carro na Espanha. O egípcio está completamente adaptado ao tipo de vida no Reino Unido e, que bom para os Reds e para a Premier League, renovou seu contrato com o time 20 vezes campeão do país (o Liverpool poderá muito bem desempatar essa disputa com o grande rival Manchester United, se conquistar o bicampeonato nesta temporada). Mesmo quem não gosta de futebol não consegue não ficar emocionado com o Liverpool jogando em casa com a poderosa YNWA ("You'll Never Walk Alone") e, agora, com Diogo Jota como pano de fundo. O técnico holandês Arne Slot revelou de forma dramática que, quando seu time sofreu o empate do Bournemouth, pensou logo em colocar Diogo Jota em campo. Tocante.
O sábado começa logo com Aston Villa x Newcastle, dois clubes que brigaram na mesma faixa de tabela na temporada passada e que podem repetir a dose agora. Só que como não lembrar de Ozzy, lendário roqueiro que morreu no dia 22 de julho, duas semanas e meia depois de fazer o maior show de heavy metal da história junto com os amigos do Black Sabbath? O Villa Park, campo do time de coração do Ozzy, foi o palco do épico “Back to the Beginning”, o show beneficente que mais arrecadou. Claro que dentro e fora do estádio do Aston Villa rolaram muitas homenagens ao “Príncipe das Trevas”, com destaque para grafite diferenciado em paredes nas cercanias. Os times entraram em campo ao som do clássico “Crazy Train”. Ozzy e a turma do Black Sabbath já participaram de lançamento de uniforme do Aston Villa e sempre fizeram questão de declarar amor ao clube e à cidade que é o berço do rock pesado. Mesmo quem não é metaleiro deve ter se sentido triste com a morte do simpático Ozzy e com o fim de verdade de uma das mais bandas mais icônicas da história. A Premier League é mais uma forma de eternizar grandes figuras de todas as áreas, em especial das artes. O amor da cidade de Birmingham (o time dos vigorosos Peaky Blinders, personagens de uma das melhores séries de todos os tempos, seria o Birmingham, não o Aston Villa) pelo heavy metal tem origem na sua vocação industrial e operária. Isso passa para o futebol local e faz com que muitos curtam e se identifiquem com os times de Birmingham.
O Reino Unido e a minha querida Irlanda estão vivendo de novo muito em torno do Oasis, fenômeno do britpop nos anos 90 e começo do século 21. Os shows dos irmãos Gallagher (por enquanto em paz, eu acho) estão fazendo muito barulho nessa volta triunfal da banda. Guardiola é amigo dos caras e, como o maior treinador da história do Manchester City, tem já aproveitado bem os hits e a vibe do Oasis em seu clube. O badalado treinador foi com a camisa dos Citizens e tudo mais no meio da galera no show dos marrentos brothers. Não tem como desassociar Man City e Oasis neste momento. Será uma temporada agitada e com reformulação em um dos grandes favoritos ao título. Os mais novos, que irão conhecer mais sobre a popular banda inglesa agora, vão se amarrar ainda mais no time de Guardiola, que talvez tenha um pouco mais de atitude, uma marca forte dos irmãos Liam e Noel. Já vimos ao longo dos tempos o envolvimento de muita gente da música e do cinema com os clubes britânicos. Muito antes de os atores Ryan Reynolds e Rob McElhenney transformarem o humilde Wrexham em um sucesso dentro e fora de campo, o futebol inglês atraiu de Elton John (Watford) a Michael Jackson e Margot Robbie (Fulham), de Adele e Zendaya (Tottenham) a Steve Harris e Dave Grohl (West Ham), de Anne Hathaway e Jay-Z (Arsenal) a Drake e Emma Watson (Chelsea), de Sean Bean e Joe Elliott (Sheffield United) a Will Champion e Craig David (Southampton), de Angelina Jolie, Brad Pitt e Lana Del Rey (Liverpool) a Sting (Newcastle), Tom Hanks (Aston Villa) e Snoop Dogg (Swansea). E a adoração ao futebol britânico vai muito além das artes, faz parte da política mundial. Se o Príncipe William se envolve com o Aston Villa, Obama e Elon Musk curtem o West Ham e o Manchester United, respectivamente.
Quem acompanha a Premier League antes mesmo do início dos jogos, deve ficar encantado com a trilha sonora dos estádios. Não só as músicas de entrada de cada clube são bem bacanas, mas como todo o som oferecido ao público enquanto aguarda o início das partidas é de altíssima qualidade. O Sunderland, que voltou com força à primeira divisão, traz a sensacional música “Dança dos Cavaleiros” (Dance of the Knights, clássico de Sergei Prokofiev), por exemplo. Várias demonstrações de amor são dadas aos times com algumas das mais belas canções de todos os tempos. A Premier League tem uma playlist simplesmente espetacular. E isso vem já nas próprias músicas oficiais da liga inglesa (não sei qual é a minha preferida na história, mas creio que seja “Fire”, do Kasabian, tema oficial da PL entre 2010 e 2013). O excelente aúdio não fica atrás do caprichado vídeo no Campeonato Inglês, que tem certamente a melhor qualidade de transmissão de um torneio nacional. Tudo é muito bem feito e vendido, uma atmosfera atraente que passa por estádios lotados, gramados perfeitos e muita organização. Como não curtir a Premier League? Até mesmo Fabio Sormani, colega que fez um discurso forte contra a adoração à Premier League, me escrevia durante algum tempo no antigo Twitter elogiando ao extremo as transmissões do Campeonato Inglês que eu fazia com Gustavo Villani no FOX Sports. Mesmo quem critica na mídia quem usa termos como “hat-trick” e “clean sheet” não tira os olhos da Premier League, pois é essencial hoje para a profissão. A globalização encurtou distâncias e colocou a liga que melhor se preparou em evidência no planeta todo. Melhor aceitar, assim dói menos.
Romário, gênio da grande área, nada tem a ver com a Premier League. E onde ele estava neste final de semana? Na tribuna vendo Chelsea x Crystal Palace. Não sei se ele conversou com João Pedro, Estêvão e Andrey Santos, mas sei que o Baixinho bateu um papo com o correspondente Renato Senise e elogiou o centroavante dos Blues, que aliás fez uma boa Copa do Mundo de Clubes. Romário teve seu auge no início da Premier League, mas jogando em outra liga europeia. Hoje, ele vai em busca de um bom jogo e encontra fartura no Campeonato Inglês. Chelsea x Crystal Palace, um derby londrino, opõe agora o vencedor do primeiro Supermundial de clubes contra o vigente campeão da FA Cup (simplesmente o torneio de futebol mais antigo do mundo) e da Community Shield (a Supercopa da Inglaterra). Cool! Como o Palmer. Quem gosta de futebol gosta hoje da Premier League. Não tem jeito.
Eu sou muito suspeito para falar do Campeonato Inglês, afinal ele ajudou a mudar a minha vida. Seja escrevendo sobre a Premier League na Folha de S. Paulo desde a metade dos anos 90, seja comentando a disputa na TV desde 2003, eu cresci profissionalmente e fiz bons contratos na televisão por ter abraçado desde o início essa competição tão atraente. Posso dizer de certa forma que eu e ela ganhamos espaço juntos na mídia nacional. Foi triste ficar de fora da escala na primeira rodada desta temporada, mas eu estava no DM. Ao menos pude acompanhar como fã de esporte todos os jogos da PL até aqui. Não sei quantos jogos irei comentar nesta temporada e sei que não dará para ver todas as partidas, mas vou desfrutar ainda mais do querido Inglesão, cheio de atrações, dentro e fora de campo. Have fun!
