Alex Iwobi vai para a 10ª temporada consecutiva na Premier League. Meio-campista do Fulham, que estreia nesta sexta-feira (16) contra o Manchester United, com transmissão ao vivo no Disney+, ele está bem acostumado com os julgamentos a que os jogadores de futebol estão sujeitos, por mais injustos que sejam.
Um incidente meses atrás mostrou isso. Um vídeo de alguns jogadores do Fulham empinando pipas antes de uma partida contra o Manchester City causou revolta nos torcedores do Arsenal, que disputava o título ponto a ponto. O time de Pep Guardiola goleou por 4 a 0 em Craven Cottage, o que só aumentou a ira sobre os atletas.
"As pessoas pensaram que éramos distraídos. Se não colocássemos isso na mídia, todos pensariam 'oh, eles estão concentrados'", disse Iwobi, que passou pelas categorias de base do Arsenal e jogou quatro temporadas no time principal, à ESPN. "Nós treinamos duro, mas não vamos treinar duro 24 horas por dia. Gostamos de ter um tempo de descanso também. Isso foi literalmente 10 minutos depois de uma sessão de academia".
Por essas e outras, o jogador de 28 anos aprendeu a se importar menos com o que as pessoas pensam e está mostrando um lado diferente de si mesmo. No início deste verão, Iwobi se tornou o primeiro jogador da Premier League a lançar um EP. Sob o nome de 17, ele lançou um single intitulado "Don't Shoot" (Não atire, em tradução livre), juntamente com Don-EE (ex-jogador da seleção de base da Inglaterra, Medy Elito) e Skoli (atacante do Ajax, Chuba Akpom, ex-companheiro de equipe de Iwobi no Arsenal).
Com referências a Moise Kean e Declan Rice, e letras como "It's not West Ham, I'm trying to blow all bubbles", "Don't Shoot" reflete o passado futebolístico do trio, enquanto o vídeo animado que o acompanha é uma ode à sua criação em Newham, no leste de Londres. A mensagem central da música é dissuadir os jovens de se envolverem com a violência nas ruas.
"Você vê coisas com armas e em Londres, onde eu cresci, você está prestes a ver algo", diz Iwobi. "Todo mundo quer ser um jogador de futebol, um artista ou quer ganhar dinheiro rápido, o que não é a melhor coisa. Então, você vê coisas que não gostaria quando jovem. É só tentar permanecer no caminho certo. Eu não explicaria o que passei, mas vi coisas que não gostaria de compartilhar e superei isso".
"Sou grato pela educação que tive porque não estaria onde estou sem o que passei. Meus pais, o sistema de apoio que tive, meus amigos, tudo isso fez de mim o homem que sou. Amadureci muito cedo e não gostaria que todo mundo passasse pelo que passei. Quero que todos tenham uma vida tranquila".
Carreira fora do futebol
Iwobi cria música há oito anos, mas começou a fazer freestyle quando estava na escola. No entanto, "Don't Shoot" é a primeira música que ele lança, pois temia que as pessoas pensassem que essa era uma distração de sua carreira no futebol.
Isso era especialmente verdade em seu antigo time, o Everton, onde ele evitou por pouco o rebaixamento na temporada 2022/23. Iwobi tinha uma música com seu colega de equipe, Amadou Onana, que ele estava desesperado para lançar, mas decidiu não fazê-lo para evitar que as pessoas a usassem como "munição" para críticas.
O lançamento de "Don't Shoot" foi adiado por motivos semelhantes. A música estava pronta em dezembro, mas, devido às dificuldades do clube de Akpom na época, eles esperaram para lançá-la.
A intensidade da repercussão nas redes sociais mexe com a vida de um atleta, que tem dificuldade para ser visto além de sua profissão. Esportistas que excluem suas redes sociais devido aos abusos que recebem têm se tornado cada vez mais comuns. Iwobi sofreu um destino semelhante após a Copa das Nações Africanas deste ano, quando, após a derrota da Nigéria na final, arquivou todas as suas postagens no Instagram. Nesse contexto, o lançamento de sua própria música pode ser visto como um ato de rebeldia.
"Foi isso que percebi recentemente, que você não deve ter vergonha de se expressar", diz ele. "Se quiser se concentrar no futebol, fique à vontade, mas, ao mesmo tempo, a vida é mais do que isso. Você é quem você é. Gosto de música, de moda, de retribuir às comunidades. Portanto, sempre que puder aproveitar isso, farei. Não apenas o futebol".
"Vou me dedicar 100% ao futebol, mas também tenho outras paixões. E os jogadores de futebol também têm muito tempo livre. Então, sinto que algumas pessoas têm medo de seguir esse caminho por causa da forma como a mídia pode retratá-las. Mas estou apenas mostrando que não tenho medo de fazer isso".
Busca por nova identidade
Alex, o rapper, recebeu elogios por sua habilidade atrás do microfone. O proeminente artista nigeriano Odumodublvck acredita que Iwobi tem talento. "Imagine o tipo de música que ele fará", acrescentou.
A colisão do futebol com a música catapultou a carreira do próprio Odumodublvck. Sua música "Declan Rice" foi a segunda faixa de rap global mais ouvida no Spotify em 2023. A música, promovida pelo próprio Rice, foi usada pelo Arsenal ao anunciar sua contratação na última temporada. Odumodublvck acredita que mais jogadores deveriam explorar interesses fora do esporte.
"Como ser humano, não se pode colocar todos os ovos em uma única cesta em termos de felicidade", disse ele à ESPN. "Se você é um jogador de futebol e decide fazer do futebol a única coisa que o faz feliz, o que acontece quando você não tem acesso a ele? Você deveria ter outras coisas".
Esse é um sentimento com o qual Matt Robinson concorda. O jogador de 30 anos tem duas vidas: ele é meio-campista do Braintree Town, da Liga Nacional, e já teve passagens pelo Luton Town e pelo Dagenham & Redbridge, mas também é Kamakaze, um rapper com quatro álbuns e mais de um milhão de ouvintes mensais. Ele tem a distinção de ser a primeira pessoa a aparecer na trilha sonora do EA Sports FC e no próprio jogo.
Robinson começou a fazer rap aos 12 anos de idade, mas sua infância foi centrada em ser jogador de futebol. É por isso que ser dispensado pelo Leicester City aos 18 anos foi um golpe tão duro.
"A crise de identidade para mim foi: sou de Leicester, torço pelo Leicester City, jogo pelo Leicester. Tudo bem, não sou mais. Então, quem sou eu agora?", disse Robinson à ESPN.
"Acho que muitas pessoas, especialmente quando não têm nenhuma identidade além de ser um jogador de futebol, ficam arrasadas. Isso vai destruir a visão que elas têm de si mesmas. Elas provavelmente sentem um sentimento de ódio de si mesmas ou de que decepcionaram todos ao seu redor. Porque, durante 16, 18 ou 20 anos, foi para isso que você foi criado".
"E acho que, no meu caso, eu tinha a vantagem de aos 18 anos já ser Kamakaze. Eu era um cara em Leicester. Não estou dizendo que eu era alguém, mas pelo menos [as pessoas] sabiam 'ah, é o Kamakaze, ele faz rimas, joga futebol'. Mesmo que eu não jogasse mais futebol, eu continuaria sendo esse cara".
Desde manter contas separadas no X para música e futebol, passando por ter seu comprometimento questionado por técnicos, até ser chamado de "vergonha" pelo diretor da academia do Leicester por fazer rap, equilibrar suas duas identidades não foi fácil para Robinson. Mas ele acredita que o cenário está mudando.
"Definitivamente, acho que o fato de mais pessoas se exporem e fazerem isso está permitindo que mais pessoas se manifestem e façam isso", diz ele. "Especialmente quando se trata de alguém tão bem-sucedido como Alex Iwobi ou Chuba Akpom [ou o jogador da seleção holandesa] Memphis Depay, quem quer que seja. Não se pode dizer que isso está prejudicando o futebol deles quando eles já estão em um nível que é o mais alto".
Iwobi pode ser um meio-campista "box-to-box", mas ele não será "encaixotado". E ao se expressar, ele está mostrando a outros atletas que eles também podem.
"Estou pronto para me expressar e quero que as pessoas me vejam como eu sou", diz ele. "Não apenas o Alex jogador de futebol, mas o Alex que é apenas ele mesmo, que gosta de aproveitar e viver a vida".
