O Manchester United está sob nova administração. Os proprietários não mudaram - a família Glazer ainda detém mais de 50% do clube - mas, após a aprovação da Premier League e da Associação Inglesa de Futebol (FA) na semana passada, o grupo Ineos, de Sir Jim Ratcliffe, agora controlará todas as operações de futebol em Old Trafford. Na terça-feira (20), o clube confirmou que sua participação minoritária havia sido concluída.
A compra de Ratcliffe por R$ 6,4 bilhões de uma participação de 25% no clube, que aumentará para 29% até o final de 2024, deu à segunda pessoa mais rica da Grã-Bretanha a responsabilidade pelo que acontece no campo do United. Ele tem pela frente uma enorme tarefa para tornar um clube que passou por uma década de declínio competitivo novamente na Premier League e na Liga dos Campeões.
Portanto, com Ratcliffe, 71 anos, e sua equipe tendo recebido o farol verde das autoridades do esporte para começar a trabalhar em Old Trafford, quais são os grandes problemas que ele enfrenta ao tentar reviver o maior vencedor da Premier League, que enfrenta o Fulham, neste sábado (24), às 12h (de Brasília), com transmissão pela ESPN no Star+.
Melhorar decisões no mercado
A ESPN noticiou no outubro passado que Ratcliffe e sua equipe sênior na Ineos haviam iniciado uma auditoria completa das negociações do Manchester United no mercado de transferências nos últimos anos, devido aos repetidos fracassos do clube em termos de tomar as decisões corretas nas transferências de entrada e saída.
Desde o início da temporada 2018/19, o United gastou R$ 5,6 bilhões para contratar novos jogadores e arrecadou apenas R$1,3 bilhão ao se desfazer daqueles considerados desnecessários ao clube. Apenas o Chelsea e o Paris Saint-Germain gastaram mais no mesmo período, enquanto nenhum dos principais rivais do United arrecadou menos com suas transferências. Não demorou muito para que a Ineos percebesse que a falta de sucesso do time inglês se deve ao desperdício e à falta de experiência, e não ao seu gasto financeiro.
O United precisa ser mais esperto no mercado de transferências, agir mais rapidamente para identificar e garantir novas contratações e evitar pagar o que uma fonte de Old Trafford descreveu à ESPN como o "Imposto United", que faz com que os clubes se aproveitem da reputação do time inglês de fazer contratações impulsivas e caras por causa do pânico, aumentando o preço que os vendedores pedem por acreditarem que o desespero os forçará a pagar o que for preciso.
Fontes disseram à ESPN que Ratcliffe contratará Dan Ashworth, diretor de futebol do Newcastle, para chefiar o departamento de recrutamento do clube. Sam Jewell, chefe de olheiros do Brighton, era outro nome no topo da lista de alvos do United antes dele se transferir para o Chelsea. Mas, depois de ver os Red Devils não conseguirem um retorno pelo dinheiro gasto em grandes contratações recentes, como Antony, Mason Mount, Jadon Sancho e Harry Maguire, a janela de verão será um teste da capacidade do clube de aprender com os erros do passado no que diz respeito ao recrutamento.
Decidir quem deve ser o técnico
Após a vitória de domingo por 2 a 1 sobre o Luton Town, Erik ten Hag está em sua melhor fase desde março de 2023, com o United invicto há sete jogos. A equipe de Ten Hag venceu seis e empatou um desde que a derrota por 2 a 1 para o Nottingham Forest, em 30 de dezembro, deixou o United a nove pontos de distância dos quatro primeiros colocados da Premier League.
Apesar dessa recente recuperação, o United ainda está três pontos atrás do quarto colocado, o Tottenham, e suas perspectivas de classificação para a Uefa Champions League continuam como objetivo a ser atingido. Além disso, o contrato de Ten Hag como técnico termina no final da próxima temporada. Portanto, uma decisão sobre seu futuro estará no topo da lista de tarefas de Ratcliffe.
Historicamente, um novo regime em um clube de futebol tende a nomear um novo técnico poucos meses depois de assumir o comando, e Ten Hag é vulnerável no United porque sua equipe teve um desempenho muito ruim nesta temporada. O United foi eliminado da Liga dos Campeões ao terminar em último lugar em seu grupo em dezembro.
O ex-técnico do Ajax também se envolveu em confrontos de alto nível com jogadores como Jadon Sancho e Marcus Rashford, disciplinando ambos por não atenderem aos seus padrões, e seu julgamento sobre os jogadores foi questionado pelo fracasso de muitas de suas contratações (Antony, André Onana, Mason Mount) em dar resultados em Old Trafford. Portanto, mesmo que Ten Hag consiga inspirar sua equipe a chegar entre os quatro primeiros e a se classificar para a Liga dos Campeões, isso pode não ser suficiente para salvar seu emprego.
De forma simples, Ratcliffe e a Ineos devem decidir se Ten Hag é o homem certo para liderar a equipe ou se deve ser substituído. Nesse caso, a duração de seu contrato forçará a situação.
Ou Ratcliffe dá a Ten Hag uma extensão de contrato e o apoia como seu escolhido, ou decide que a equipe precisa de uma mudança com um novo técnico. O cenário menos provável é que Ten Hag permaneça sem um novo contrato, pois isso indicaria incerteza por parte de Ratcliffe - uma realidade que não funcionará nem para ele nem para o treinador.
Construir uma estrutura na qual o United possa confiar
A aposentadoria do técnico Sir Alex Ferguson em 2013 foi um evento sísmico que continua a desestabilizar o United, mas a saída do executivo-chefe de longa data David Gill na mesma época foi igualmente prejudicial ao clube. Sem Ferguson e Gill, o United ficou sem experiência e conhecimento fora do campo, e os Glazers contribuíram para o declínio do clube ao não reconhecerem as novas tendências do esporte quando foram substituí-los.
Todos os rivais do United haviam adotado, ou estavam em vias de adotar, uma nova estrutura de gestão composta por um executivo-chefe, um diretor de futebol, um diretor esportivo e um técnico preparado para adotar uma abordagem mais intelectual. O United, por outro lado, manteve o modelo antigo de um gerente e um CEO tomando as principais decisões. Os Glazers promoveram Ed Woodward e Richard Arnold de funções comerciais internas para o cargo de CEO - nenhum deles foi bem-sucedido - enquanto cinco técnicos com estilos e personalidades contrastantes (David Moyes, Louis van Gaal, José Mourinho, Ole Gunnar Solskjaer e Ten Hag) assumiram o comando da equipe.
O United ainda não tem um diretor de futebol - Ashworth, do Newcastle, provavelmente ocupará essa função sob o comando de Ratcliffe - e John Murtough e Darren Fletcher foram contratados pelos Glazers para liderar o departamento de futebol, apesar de nenhum deles ter experiência anterior nessas áreas.
Ratcliffe já começou a montar uma nova estrutura no United, com Omar Berrada deixando seu cargo de diretor de operações de futebol no Manchester City para se tornar o novo CEO do United. Ashworth virá em seguida, com outras nomeações previstas dentro da estrutura do futebol. Sir Dave Brailsford, diretor esportivo da Ineos e responsável por transformar o ciclismo britânico em uma campeões olímpicos em série, está liderando a busca pelos melhores talentos para ocupar os cargos no futebol, enquanto Jean-Claude Blanc, ex-CEO da Juventus, também deverá ocupar um cargo sênior sob o comando de Ratcliffe.
Restaurar o Old Trafford à sua melhor forma
Como parte de seu acordo para comprar 29% da participação dos Glazers, Ratcliffe se comprometeu a investir um valor inicial de R$ 1,4 bilhão na infraestrutura do clube, ou seja, em Old Trafford e no campo de treinamento do United em Carrington. Mas, mesmo que esse valor financie uma atualização muito necessária para ambos os locais, a realidade é que ele cobrirá apenas a manutenção que foi negligenciada nos últimos anos.
A conta para uma modernização completa de ambos os locais provavelmente ultrapassará R$ 6,2 bilhões. A Ineos está investigando a possibilidade de construir um novo complexo de treinamento nas proximidades de Knutsford, e a equipe de Ratcliffe já está analisando os centros de última geração recentemente construídos pelo Leicester City e pelo Tottenham, e isso custaria pelo menos 250 milhões de libras. Enquanto isso, os planos de modernização, reconstrução ou até mesmo demolição do Old Trafford estão acumulando poeira na sala de reuniões do United desde que foram elaborados há quase dois anos.
Fontes disseram à ESPN que a modernização e a reconstrução do Old Trafford levariam até cinco anos e potencialmente custariam R$ 6,2 bilhões nos preços de hoje, enquanto um estádio completamente novo no mesmo local custaria a partir de R$ 7,4 bilhões, mas seria concluído em um prazo mais curto.
Desde a compra do United em 2005, os Glazers não realizaram nenhuma obra significativa em Old Trafford. Enquanto isso, o Arsenal e o Tottenham se mudaram para estádios novos e modernos, e o Liverpool e o Manchester City aumentaram substancialmente a capacidade dos seus. Na Europa, o Bayern de Munique e a Juventus se mudaram para um novo estádio, enquanto o Real Madrid, o Barcelona e o PSG se comprometeram a modernizar suas casas atuais.
O Old Trafford se tornou uma relíquia de uma época diferente, com um telhado com vazamento funcionando como uma metáfora do declínio do lugar. Será caro, mas Ratcliffe terá de encontrar uma maneira de restaurar o estádio às suas antigas glórias.
Fazer com que os torcedores deixem de lado a toxicidade dos Glazers
Quando os Glazers anunciaram uma revisão estratégica de sua propriedade do United em novembro de 2022, muitos torcedores entendiam que os donos pretendiam vender sua participação após quase duas décadas de hostilidade e oposição dos torcedores. Mas, apesar das ofertas da Ineos e do Catar terem inicialmente se oferecido para assumir a propriedade total do United, os Glazers optaram por manter uma participação majoritária e vender 29% para a Ratcliffe.
Enquanto os Glazers permanecem, o mesmo acontece com sua oposição, e Ratcliffe tem sido criticado por grupos de torcedores por permitir que eles permaneçam no clube. Todos os jogos do United são marcados por músicas e cantos anti-Glazer. Parte da torcida disse que continuará protestando contra a propriedade dos Glazers, de modo que Ratcliffe e a Ineos terão de trilhar um caminho em meio à discórdia e encontrar uma maneira de diminuir a toxicidade que ainda envolve o clube.
Comecar a ganhar troféus de novo
O Manchester United é um clube que está acostumado a vencer e espera continuar vencendo. Nenhum clube inglês ganhou mais títulos da Premier League e, na Inglaterra, somente o Liverpool ganhou mais Ligas dos Campeões. Os anos pós-Ferguson foram uma experiência vexatória e, às vezes, humilhante para o United, e o único verdadeiro barômetro do sucesso de Ratcliffe em Old Trafford será o quanto a equipe vencerá durante o período em que ele estiver no comando.
Essa é a chave de tudo para Ratcliffe e sua equipe. Se ele conseguir recolocar o United em uma posição de destaque na Inglaterra e na Europa, seu investimento terá valido a pena e ele será considerado um herói pelos torcedores do clube. É tão simples quanto isso.
Ratcliffe pode fazer muitas mudanças e arrastar o United para a era moderna, mas, em última análise, ele precisa fazer com que o time volte a ser vencedor. Todo o resto é apenas um mero detalhe.
Onde assistir a Manchester United x Fulham
Assista a Manchester United x Fulham, pela Premier League, às 12h, com transmissão pela ESPN no Star+.
*Tradução: Vinicius Garcia
