Entrevista polêmica de Cristiano Ronaldo falando em traição no Manchester United pode ter sido medida desesperada do craque para tentar romper de vez sua relação no clube
Cristiano Ronaldo costumava atrair as atenções no futebol pela genialidade que entrava com a bola no pé e dentro dos gramados. Mas o sinal claro da queda de status do atacante é que agora tem sido notícia muito mais pelo que tem falado e feito fora dos campos pelo Manchester United.
Enquanto se prepara para voar para o Qatar para sua quinta Copa do Mundo com Portugal, o atacante fez e disse tudo o que pode para garantir que não voltará ao Old Trafford e à Premier League quando o torneio terminar.
O problema para Ronaldo é que, para conseguir esse movimento, ele agora tem que deixar seu futebol falar no Qatar. O problema, no entanto, é que isso não tem acontecendo de fato nos últimos meses.
Basta pensar nos poucos momentos memoráveis de CR7 desde o final da temporada passada.
O atacante não compareceu à apresentação para pré-temporada a tempo, citando razões familiares, e depois perdeu a turnê de preparação do United por Tailândia e Austrália. Quando finalmente voltou ao elenco, Ronaldo foi criticado pelo técnico Erik ten Hag por deixar Old Trafford durante o segundo tempo de um amistoso contra o Rayo Vallecano.
O português se recusou a entrar em campo nos minutos finais na partida contra o Tottenham, no último mês, quando deixou o banco de reservas e caminhou rumo ao vestiário, deixando o Old Trafford antes do apito final. Isso rendeu um veto na partida seguinte, no clássico diante do Chelsea.
E agora, CR7 fez talvez seu gesto mais premeditado de dissidência em relação ao clube até hoje.
O atacante deu uma entrevista na qual acusa o United de "traição", dizendo que não respeita Ten Hag e acusou figuras ‘não identificadas’ de Old Trafford por quererem forçá-lo a sair. Pela terceira vez nesta temporada, a reação inicial é acreditar que Ronaldo foi longe demais e que pode não voltar a vestir a camisa do United. Mas nas ocasiões anteriores houve uma trégua nos bastidores e Cristiano voltou a defender o clube.
Para equilibrar, é justo que destaques de Ronaldo em campo nesta temporada sejam citados para amenizar os problemas fora dos gramados. CR7 marcou seu 700º gol na carreira por clubes na vitória por 2 a 1 sobre o Everton, pela Premier League, além de dois em duelos contra o Sheriff, pela Europa League.
Então aí está.
Três gols, sendo dois em uma mesma competição - a Europa League - que ele se esforçou tanto no verão para evitar ter que jogar.
A imagem que está surgindo é inevitável; Ronaldo já não tem impacto no gramado e, quando joga, o United está encarando suas piores atuações.
Não é de admirar que Ten Hag não perca tempo em seguir em frente com Ronaldo em papel de nada mais do que um coadjuvante.
Como a ESPN noticiou no mês passado, o United está preparado para deixar Ronaldo sair de Old Trafford em uma transferência gratuita.
Uma fonte do United disse à ESPN: “Há uma ideia de que o mantivemos refém, dissemos que tem que ficar, mas nada poderia estar mais longe da verdade”.
No último mercado não houve interesse de outros clubes em um jogador que ganha 500 mil libras (R$ 3,1 milhões) por semana, e próximo de completar 38 anos. E agora segue o mesmo cenário.
Muito disso se deve a clubes serem cautelosos em contratar um jogador cujo status global é tão grande que lhe dá a sensação de poder fazer o que quiser.
Ninguém quer contratar um atleta que cause problemas no elenco.
No entanto, se Ronaldo ainda fosse o Ronaldo de antigamente - um jogador capaz de marcar mais de 30 gols por temporada e que faz a diferença nos maiores jogos - os clubes deixariam de lado quaisquer reservas sobre sua personalidade simplesmente porque ele decidiria jogos.
Ronaldo talvez tenha no Qatar sua última chance de provar que ainda pode ser aquele cara.
No maior palco, Ronaldo tem a chance de silenciar seus críticos, provar que seus céticos estão errados e fazer com que o Manchester United e Ten Hag se arrependam de tê-lo maltratado nesta temporada, marcando gols em grandes jogos para comandar Portugal na competição.
Ronaldo pode mais uma vez falar em campo e garantir que os julgamentos sejam feitos sobre o que ele faz com os pés e não com a boca.
Mas se ele ainda fosse capaz disso, não precisaria desnudar sua alma em uma longa entrevista televisionada. A realidade é que foi um ato desesperado de um homem desesperado, tentando encontrar uma solução para um problema que ele mesmo criou.
