O Campeonato Paulista começa neste sábado (10) e terá um estreante na elite do futebol paulista: o Primavera, carinhosamente chamado de Fantasma ou Fantasma da Ituana. Prestes a completar 99 anos de fundação, o clube de Indaiatuba, a cerca de 115 quilômetros de São Paulo, fará sua primeira participação na Série A1 após uma campanha histórica na Série A2 de 2025.
Comandado por Rafael Marques, ex-atacante com passagens vitoriosas por Palmeiras e Botafogo, o Primavera carrega uma trajetória marcada por histórias curiosas e inusitadas, que vão desde a visita do craque argentino Lionel Messi em solo brasileiro, passam por um gandula que invadiu o campo para evitar um gol adversário e chegam até a um período em que o presidente do clube era um padre.
Para contar esses e outros capítulos da história do Fantasma, a ESPN.com.br conversou com Roberto Barce, historiador e conselheiro do clube.
Jogo festivo com Messi
Um dos capítulos mais curiosos e emblemáticos da história do Primavera aconteceu no ano de 2010. O estádio Ítalo Mário Limongi, em que o clube manda seus jogos, foi palco de um jogo festivo e beneficente que contou com a presença de Lionel Messi, além de outros ídolos do futebol mundial.
A partida foi realizada no dia 18 de julho daquele ano, apenas 15 dias após a eliminação da Argentina na Copa do Mundo da África do Sul, quando a seleção de Messi foi goleada pela Alemanha por 4 a 0. Mesmo em um momento delicado da carreira, o craque argentino foi o grande personagem do evento, organizado pelo ex-meia Deco, brasileiro naturalizado português, que idealizou o jogo com caráter solidário.
O duelo entrou para a história ao registrar o maior público já visto no estádio, com mais de 10 mil torcedores, número alcançado graças à instalação de arquibancadas móveis e estruturas extras para acomodar a grande procura.
Mais do que um evento beneficente, aquela tarde marcou um momento importante: foi apenas a segunda vez que Lionel Messi pisou em gramados brasileiros, transformando Indaiatuba em um ponto de encontro do futebol mundial. A estreia aconteceu dois anos antes, em 2008, no Mineirão, pelas eliminatórias da Copa do Mundo.
Padre-presidente e um título que virou procissão
A história do Primavera guarda um capítulo singular que mistura futebol, fé e mobilização popular. Entre 1947 e 1948, o clube teve como presidente o Padre Antônio Janoni, figura central na vida social e religiosa de Indaiatuba naquele período.
Em 1949, já após a saída do padre da presidência, o Primavera conquistou seu primeiro título de destaque, durante uma fase do então Campeonato Amador do Interior. Naquela época, o futebol paulista ainda não contava com divisões estruturadas como as atuais Séries A3 e A4. As competições eram organizadas em 22 regiões, e tinham nível técnico comparável às divisões intermediárias de hoje.
O Primavera não foi campeão geral do torneio, mas venceu o setor regional em que estava inserido. A fase decisiva foi marcada por equilíbrio extremo: quatro jogos, sendo três empates, contra o Oficinas Gasola, tradicional equipe amadora de Itu.
A decisão aconteceu em Capivari, em campo neutro. O Primavera venceu por 1 a 0, em uma partida histórica. A delegação viajou até a cidade de trem, enquanto torcedores acompanharam a decisão de ônibus, carro e também por trilhos (Capivari fica a cerca de 45 km de Indaiatuba).
No retorno, já com o título garantido, o trem chegou à Estação Ferroviária de Indaiatuba enquanto o padre Antônio Janoni celebrava uma missa na Igreja Matriz de Indaiatuba. Avisado durante a celebração sobre a conquista do clube, o ex-presidente encerrou a missa imediatamente.
Em seguida, jogadores, torcedores e fiéis deixaram a igreja a pé, atravessaram a praça em frente ao templo e seguiram juntos em direção ao antigo estádio. Um desfile espontâneo, que transformou o título em procissão, marcou para sempre a memória do clube e da cidade.
O “Mão de Onça” e o gol mais bonito da carreira de Pelé
Outro personagem curioso da história do Primavera é o goleiro conhecido como Mão de Onça. Adversário do clube em 1949, ele acabaria escrevendo parte importante de sua trajetória justamente em Indaiatuba.
Em 1951, o Primavera contratou o goleiro, que passou a defender o clube e esteve presente no primeiro Campeonato Profissional disputado pela equipe, em 1952. Foi ali que Mão de Onça deu os primeiros passos de uma carreira que ganharia projeção no futebol paulista.
Anos depois, em 1959, já atuando pelo Juventus, o goleiro entrou para a história do futebol brasileiro de forma inusitada: foi dele o gol considerado por Pelé como o mais bonito de toda a sua carreira.
A partida não teve registro em vídeo, algo comum à época, mas Pelé sempre fez questão de afirmar que aquele foi o gol mais especial que marcou. O detalhe curioso é que o goleiro que sofreu o lance histórico iniciou sua carreira justamente no Primavera, ligando para sempre o clube de Indaiatuba a um dos capítulos mais lendários do futebol mundial.
A história do gandula que “defendeu” um gol e entrou para o folclore
O ano era 1995, e o Primavera disputava a Série B1 do Campeonato Paulista, competição equivalente ao que hoje seria a A4, disputada em pontos corridos. Em Indaiatuba, o time precisava vencer o Andradina para seguir vivo na briga pelo título.
A partida, disputada à noite, acabou entrando para a história por dois motivos. Foi o último jogo noturno do Estádio Ítalo Mário Limongi por quase três décadas, até a próxima quarta-feira (14), quando o Primavera volta a atuar à noite contra o Mirassol e também por um episódio absolutamente inusitado.
Em campo, o Andradina era melhor. Em um contra-ataque fatal, um de seus atacantes saiu cara a cara com o goleiro do Primavera e tentou a finalização por cobertura. O lance tinha tudo para ser um golaço, não fosse a intervenção improvável de um personagem inesperado.
O gandula invadiu o campo e fez uma defesa espetacular, evitando o gol adversário. O estádio entrou em choque. Pouco depois, descobriu-se que o gandula era, na verdade, o goleiro do time juvenil do Primavera. Após o lance, ele pulou o alambrado, saltou o muro do estádio e desapareceu. Identificado posteriormente pela documentação do clube, acabou suspenso do futebol por um período.
Apesar da confusão, o Primavera venceu o jogo por 1 a 0. Ao fim do campeonato, o clube sagrou-se campeão. No entanto, o Garça, também participante da competição, entrou com pedido de anulação da partida contra o Andradina.
A Federação Paulista de Futebol acatou o recurso, anulou o confronto e determinou que o jogo fosse realizado novamente.
No reencontro, sem gandula decisivo e sem intervenções improváveis, o roteiro se repetiu: vitória do Primavera por 1 a 0. O resultado confirmou o título e eternizou uma das histórias mais curiosas e folclóricas da trajetória do clube.
Fogos, bandeiras… e arquibancada vazia: um episódio de fair play em 1977
O ano era 1977, e o Primavera disputava a Quarta Divisão do Campeonato Paulista. Em Laranjal Paulista, no jogo de ida contra o Laranjalense, o clima foi pesado: jogadores e torcedores do Primavera foram hostilizados, e o ambiente ficou marcado por tensão.
Diante desse cenário, a expectativa para o jogo da volta, em Indaiatuba, era de forte hostilidade contra o Laranjalense. Mas um episódio inusitado mudou completamente o roteiro.
Antecipando possíveis conflitos, um diretor do Primavera teve uma ideia incomum para a época, e que hoje seria facilmente enquadrada como uma das primeiras atitudes de fair play vividas pelo clube. Para receber bem o adversário, ele mandou confeccionar diversas bandeirinhas de mão, com mastro, nas cores do Laranjalense: branco e azul. Todas foram colocadas no setor destinado à torcida visitante, como sinal de respeito e acolhimento.
O detalhe curioso é que o diretor não avisou o próprio filho, que era líder da torcida do Primavera. Ao chegar ao estádio e ver as bandeiras do rival penduradas no alambrado, o torcedor se revoltou, acreditando se tratar de uma provocação. Em resposta, retirou todas as bandeirinhas do setor visitante.
Pouco depois, veio a surpresa definitiva: nenhum torcedor do Laranjalense apareceu. Temendo represálias após o clima hostil do jogo de ida, a torcida adversária simplesmente não viajou para Indaiatuba.
Assim, as bandeiras preparadas para um gesto de paz nunca foram usadas e a tentativa silenciosa de transformar rivalidade em respeito acabou entrando para o folclore da história do Primavera.
Ao longo de sua trajetória, o Primavera soma quatro títulos e seis acessos. Mas o conquistado em 2025 é, sem dúvida, o mais importante de todos: a principal realização em seus 99 anos de história, que colocou o clube, pela primeira vez, entre os grandes do futebol paulista.
O Primavera estreia no Campeonato Paulista neste sábado (10), às 18:30, fora de casa contra o Guarani. A última vez que esses dois clubes se encontraram foi em um amistoso realizado no ano de 1979. Na ocasião, o Bugre venceu o Fantasma por 3 a 2, com três gols de Careca.
