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Discursos de ódio: como Palmeiras e torcedores se tornaram alvos de acusações de fascismo e racismo nas redes sociais

Palmeiras e palmeirenses têm sido alvos de manifestações fascistas e racistas nas redes sociais Arte/ESPN

Vivendo o melhor período de sua história e empilhando troféus nos últimos anos, o Palmeiras e o torcedor palmeirense têm sido alvo constante de discursos de ódio nas redes sociais.

É comum encontrar diversas mensagens de internautas acusando os simpatizantes do Verdão e de outros clubes com ascendência italiana de terem ligações com regimes políticos fascistas e de torcerem para um clube de cunho racista.

Neste mês de abril, uma mensagem com este tipo de conteúdo não passou despercebida.

O criador de conteúdo Vinicius Moraes, que atende por “LilVinicinho”, escreveu em sua conta oficial do “X” a seguinte frase: “Sei que para vocês torcedores do nazimeiras assusta ver preto, mas achei que já tivessem se acostumado”. A publicação foi apagada.

Mesmo assim, a frase escrita pelo criador de conteúdo chegou ao conhecimento do Palmeiras, que encaminhou o caso ao seu Departamento Jurídico e ainda estuda uma forma de processá-lo. Mas a frase escrita acima é apenas um entre vários exemplos do tipo de violência que o clube e seu torcedor têm vivido na internet.

Além deste episódio público, é costumeiro encontrar nos últimos anos mensagens de ódio, como respostas e provocações aos palmeirenses, em discussões sobre futebol nas redes sociais. Em muitos momentos, o público majoritariamente formado por pessoas brancas presente no Allianz Parque e a relação entre clube e referências italianas são fatos utilizados por torcedores rivais como bases de argumentação.

Foi a partir deste fato que a ESPN elaborou esta reportagem especial para trazer luz ao tema. Um dos personagens que aceitou falar sobre o caso foi Micael Lazaro Zaramella Guimarães.

Mestre em História Social pela Universidade de São Paulo, o historiador escreveu, em 2022, o livro “No gramado em que a luta o aguarda: antifascismo e a disputa pela democracia no Palmeiras”. À ESPN, o profissional respondeu uma importante questão: afinal, o Palmeiras tem um passado fascista?

O Palmeiras não é um clube de raízes fascistas. Inclusive, afirmar isso seria aquilo que na história a gente chama de anacronismo, ou seja, é utilizar um conceito de uma época para falar de algo que é de outra época”.

“Se a gente for pensar no contexto de formação do clube, como o Palestra Itália, em 1914, para começar essa conversa, sequer existia qualquer coisa que a gente chame de fascismo”, explicou Micael.

“O que a gente chama de fascismo histórico, que foi o regime que governou a Itália a partir dos anos 20, liderado pelo Benito Mussolini, a ideologia que sustentava esse governo não existia. O contexto de formação do Palestra Itália é anterior a isso tudo”.

O fascismo, aliás, foi o ponto de partida para que o Palestra Itália e seus torcedores enfrentassem grande retaliação e violência em meados dos anos 1920 e 1930, em São Paulo. O ápice do cenário ocorreu em 1942. Naquele ano, o governo brasileiro, dirigido por Getúlio Vargas, declarou apoio aos Aliados contra o Eixo, formado então pela Itália fascista, Alemanha nazista e pelo Império japonês.

Com isso, em março daquele ano, o governo brasileiro decretou que pessoas físicas ou jurídicas que tivessem bens pertencentes a italianos, alemães e japoneses, poderiam ser confiscados pelo país para compensar os prejuízos resultantes de atos de agressão praticados pelos países em guerra contra o Brasil.

Esta lei poderia fazer com que o Palestra Itália perdesse seu estádio, considerado um dos mais modernos na época. Foi em meio a este cenário que a agremiação foi obrigada a mudar de nome.

A princípio, o clube se tornou “Palestra de São Paulo”. Porém, a nomenclatura precisou ser alterada, uma vez que existia uma alegação de que a palavra “palestra” remetia à Itália. É válido ressaltar que a palavra tem uma origem grega. Com isso, o clube se tornou Palmeiras.

E a primeira exibição do Verdão aconteceu em 20 de setembro de 1942. Precisando de apenas uma vitória para ser campeão paulista, o Palmeiras enfrentou o São Paulo, no Pacaembu.

A equipe entrou em campo com uma bandeira do Brasil, liderada pelo então capitão do exército Adalberto Mendes, sinalizando que havia deixado para trás o estigma de “time de italianos”, tornando-se naquele momento uma equipe brasileira.

Em campo, o Palmeiras venceu o São Paulo por 3 a 1, com o rival abandonando o gramado após um pênalti assinalado a favor do Alviverde. Com o título em mãos e sob o lema “morre líder, nasce campeão”, a “Arrancada Heroica” consumava saga que deu ao Palmeiras seu primeiro título da história.

O fato é explicado em detalhes por Micael. “O Palmeiras se mantém primeiramente vinculado a uma certa identidade étnica, uma certa ideia de italianidade, e que mesmo nesse contexto vai se reinventando”.

“Tanto que em 1942 há a mudança de nome, de Palestra Itália para Sociedade Esportiva Palmeiras, e com essa mudança de nome vai abraçar abertamente uma série de segmentos brasileiros não vinculados com essa italianidade que já vinham compondo o clube nas décadas anteriores”.

Segundo o historiador, este tipo de acusação de conluio fascista com torcedores do Palmeiras já ocorria em meados dos anos 20 e 30 do século XX. E, dentro do clube, lideranças do Palestra Itália eram, inclusive, parte do movimento antifascista em São Paulo. “Havia conselheiros como Dante Isolde, que já tinha tido problemas ali dentro da coletividade italiana justamente por expressar o seu antifascismo”, cita.

Acusações de racismo

“Para um palmeirense, é muito ofensivo ouvir que se trata de um clube fascista e racista. Primeiro, porque desconsidera toda a história desse clube, mas é ofensivo também em relação ao presente”, destaca Micael. “Quando você olha para a torcida do Palmeiras hoje, nota-se um momento muito particular em que prolifera a existência de diferentes coletivos de arquibancada que se apresentam justamente na contramão desse discurso”.

A relação entre o clube e a comunidade negra é bem antiga. Se olharmos para a história, mesmo no início dos anos 20 do século XX, o Palmeiras já contava com atletas negros em sua equipe de atletismo e pugilismo, por exemplo.

Já no futebol, de acordo com Fernando Galuppo, historiador do Palmeiras, o primeiro negro a ser contratado pelo então Palestra Itália foi Moacir, vindo do Rio de Janeiro, em 1936. É válido ressaltar que clubes rivais, como o Corinthians, já contavam com atletas negros desde 1918.

A relação entre o povo negro e parte da sociedade que compôs o Palestra Itália, formada por operários ítalo-brasileiros, em seus primeiros anos de fundação foi se intensificando com o passar dos anos não só nos esportes, mas também na formação de sua torcida.

Em novembro de 2020, o Palmeiras publicou em seu site oficial a história de Adelaide Antônia das Dores, mais conhecida como “Vovó do Pito”. Nascida em 1822, a icônica personagem foi escravizada ao longo da vida e se tornou uma das torcedoras mais apaixonadas no início das atividades do então Palestra Itália.

Dos 91 anos, idade que tinha na fundação do clube, em 1914, aos 111 anos, idade em que Adelaide morreu, a ex-escravizada se tornou um ícone do Palmeiras, indo para caravanas e sendo uma das “corneteiras” do time à época, marca registrada de parte da torcida do Verdão.

Mas, voltando ao século XXI, outros torcedores negros seguem expressando seu amor pelo clube, mesmo enfrentando a violência e o preconceito impulsionado pelas redes sociais.

É o caso de Eliton Jones. Em entrevista à ESPN, o torcedor desabafou a respeito de todo o “hate” que tem recebido até mesmo de pessoas negras que torcem para rivais do Palmeiras. “Isso me machuca demais mesmo, mas não me esmorece. Me mantenho firme porque entendo que tenho voz e que outras pessoas precisam ser encorajadas”.

É comum aparecerem diversas pessoas negras em perfis nas redes sociais condenando o fato de existir outros pretos que sejam palmeirenses, uma vez que, para estas pessoas, o Palmeiras é “um time racista” e não deveria receber apoio da comunidade negra.

“O mesmo direito que o preto adquiriu de ser corinthiano, são-paulino, santista é o direito que eu tenho de ser palmeirense. É triste demais ver alguém que sofre tanto preconceito querer invalidar seu semelhante”, aponta Eliton.

Pai de três filhos, Cauê, Gabriel e Ana Beatriz, Eliton explicou como convive com esta situação desde que era criança e como tenta ensinar aos filhos que o racismo existe e é preciso se proteger desta prática.

“Já enfrentei isso diversas vezes desde quando eu era criança. Mas nunca da torcida do Palmeiras. Cansei de ouvir quando criança que um preto não podia torcer pelo Palmeiras. E confesso que faltou pouco para que eu acreditasse nisso”.

“Mas, no dia que fui ver o Palmeiras pela primeira vez no estádio e vi o Gerson Caçapa com a camisa do Palmeiras, ali eu tive a certeza de que eu podia ser um preto palmeirense”.

“Meu filho Gabriel, de 10 anos, me acompanha nas arquibancadas desde os 3 anos. Ele já tem mais de 100 jogos na arquibancada. Faço questão de levá-lo não só por ter passado minha paixão para ele, mas também para que ele viva a realidade da arquibancada e veja que na torcida do Palmeiras não existe este preconceito que os rivais tanto dizem”.

Por outro lado, há também torcedores negros do Palmeiras que se reúnem como resistência ao preconceito enraizado. É o caso do “Zumbi dos Palmeiras”. Com menos de um ano de existência, o coletivo conta hoje com mais de 100 pessoas e se reúne na Rua Caraíbas, reduto dos palmeirenses nos arredores do Allianz Parque.

“O Zumbi dos Palmeiras surgiu com a finalidade de fortalecer a comunidade preta e quebrar o estereótipo que o time da Barra Funda é apenas de torcedores brancos e elitizados”, afirma Renato Porto, um dos líderes do movimento, à ESPN.

“Com a mensagem 'pele preta e manto verde', nós seguimos crescendo e nos fortalecendo dentro das quebradas e ganhando notoriedade entre os torcedores, tornando-nos, de fato, um quilombo alviverde, reunindo os pretos, pretas, maloqueiros e maloqueiras que são apaixonados pelo Palmeiras”, destaca.

Renato fala abertamente sobre o orgulho que tem de ser palmeirense e como o movimento tem sido fundamental para que outros torcedores negros se sintam representados. “É uma questão de identidade. Quando tem essa identidade, automaticamente todo mundo entra de cabeça, muitas pessoas entram de cabeça, colocam a camisa da Zumbi como se fosse uma bandeira por ser representativa”.

Renato ainda relembra dos famosos bailes do “Chic Show”, que aconteciam no clube do Palmeiras em meados dos anos 70 e 80. Chegando a reunir mais de 20 mil pessoas em algumas edições, o evento se tornou um marco na cultura negra de São Paulo.

Com a presença de nomes marcantes da música, como o cantor James Brown, os bailes da “Chic Show” fizeram com que a população negra paulistana ampliasse a sua voz, arte, cultura e demais manifestações em um local formado por nomes da elite paulistana branca.

Todo este cenário ocorria em maio à Ditadura Militar, vigente no Brasil entre 1964 e 1985. Era uma época na qual grande parte da população negra sofria com perseguições, crimes de racismo e violência por conta da forte repressão policial.

Para Renato, o objetivo do “Zumbi dos Palmeiras” é crescer e fazer com que mais pessoas negras expressem a “palestrinidade” nas ruas. “Queremos continuar sendo essa voz ativa. Essa voz ativa do povo periférico, essa voz ativa das pessoas pretas que são palmeirenses. Continuar com a nossa identidade, sem perder nenhuma essência, sem perder valor. A gente é um coletivo, a gente não é uma torcida organizada. Tem pessoas que estão com a Zumbi e são da Mancha também”, aponta.

Como o Palmeiras age nos bastidores

Procurado pela ESPN, o Palmeiras afirma que “não é de hoje que se tenta imputar um rótulo injusto e incompatível com a própria história do clube, que nunca teve qualquer relação com o fascismo e que o Palmeiras tem trabalhado com afinco a fim de mostrar a diversidade de seus torcedores”.

No início do mês de abril, o Palmeiras realizou um teste de ancestralidade com alguns atletas negros do elenco, que puderam descobrir de quais regiões da África vieram os seus antepassados. Atletas como Endrick, Murilo, Dudu, Estêvão e Luís Guilherme participaram da ação.

A relação entre negros e Palmeiras chegou até a África recentemente. Em janeiro de 2023, a ESPN realizou uma reportagem especial com um grupo de ganeses que criaram uma espécie de “comunidade palmeirense” no país africano. Existe até mesmo o “Family Palmeiras”, time amador inspirado no Verdão.

Para além do tema fascismo e racismo, o Palmeiras tem se tornado nos últimos anos cada vez mais brasileiro, e os números ajudam a comprovar isto. De acordo com dados oficiais do Verdão, existem hoje no país quase 600 mil correntistas do “Palmeiras Pay”, conta digital do clube, que estão espalhados em 94% dos 5.568 municípios do Brasil.

Por que essas acusações seguem sendo feitas?

Para o historiador Micael Zaramella, padrões são repetidos ao longo da história. A mesma violência e preconceito que o Palmeiras e seus torcedores sofreram em meados dos anos 20 e 30 do século XX ocorrem no mesmo período deste século, e ajudam a disseminar discursos de ódio.

“Os clubes não têm identidades sólidas, eles estão sempre em disputa. E isso não é específico também do Palmeiras. Se a gente for olhar para diversos outros clubes, a gente também vai ter as ambiguidades, a gente também vai ter as contradições e a existência de grupos antagônicos que fazem disputa desse clube, do seu imaginário de identidade”, conclui.

Próximos jogos do Palmeiras: