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Ele foi campeão da Champions no videogame e largou premiações milionárias para viver o sonho de ser jogador de futebol após grave lesão

Oliver Provstgaard em ação durante jogo da Lazio Domenico Cippitelli/NurPhoto via Getty Images

No mundo do futebol, muitas são as histórias de superação, com muitos atletas passando por grandes dificuldades na infância até chegarem ao ápice. Mas a vida de Oliver Provstgaard, atualmente jogador da Lazio, que neste domingo (9) visita a Inter de Milão pelo Campeonato Italiano, com transmissão do Disney+, é das mais curiosas.

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O jogador dinamarquês de 22 anos, contratado pelo clube de Roma no início do ano, surgiu como uma das grandes promessas de seu país, até que sofreu uma grave lesão que o afastou dos gramados por um longo período. Nesse tempo de inatividade, e também por conta da pandemia de Covid-19, Provstgaard passou a jogar muito videogame, mais especificamente o Fifa (hoje EA Sports FC). E ele ficou tão bom no jogo, que se tornou campeão da Champions League, superando atletas consideradas grandes lendas dos eSports.

O sucesso, e também as altas premiações poderiam fazer com que ele decidisse "pendurar as chuteiras" para se dedicar integramente ao game, mas não. Ele optou por voltar ao futebol e hoje em dia joga no clube em que sempre gostou em sua infância.

O início promissor

Em novembro de 2020, o promissor zagueiro estava jogando pelo time sub-19 do Vejle contra o FCK, apenas algumas semanas depois de ser incluído no elenco principal para uma partida da Copa da Dinamarca. Tudo indicava uma estreia perfeita, mas então o desastre aconteceu.

Em um momento tão crucial de seu desenvolvimento, um acidente inesperado paralisou tudo. O jovem desabou em lágrimas quando o médico pronunciou as quatro palavras que nenhum jogador de futebol quer ouvir: lesão do ligamento cruzado anterior.

"Aconteceu na pior hora possível", disse Provstgaard, para o SPORTbible, olhando para o chão. "Eu estava começando a treinar com o time principal, e aí aconteceu. Foi como um grande revés. Quando fui cabecear, o goleiro adversário me atingiu bem na hora do pouso. Foi muito difícil."

Mais do que a tristeza de ficar tanto tempo longe dos gramados, o mundo sofreu um grande baque no período, com a pandemia.

"Consegui me concentrar na minha reabilitação enquanto todos os outros estavam presos em casa, então não foi tão ruim quanto poderia ter sido. Aprendi muito sobre mim mesmo."

No período, Provstgaard também se concentrou em outra grande paixão, o videogame.

A carreira meteórica no Fifa

Em suas próprias palavras, o zagueiro era um jogador de Fifa mais "casual" antes da pandemia, mas depois que seu melhor amigo, Emil Skifter – um jogador profissional de eSports que ganhou bastante dinheiro no Fifa 21 Global Series – o incentivou a melhorar, Provstgaard começou a se dedicar.

"Emil era um dos melhores da Dinamarca e me venceu tantas vezes que perdi a conta", diz o jovem de 22 anos. "Mesmo quando eu perdia, a gente ria. No começo não era nada sério, mas minha mentalidade sempre foi que, se eu vou fazer alguma coisa, vou me dedicar ao máximo."

Quanto Fifa ele jogou durante o período de isolamento? "Muito", ele ri.

"Depois da escola e da fisioterapia, eu entrava no Discord por volta das 17h com meus amigos e jogávamos até tarde. Era uma boa distração e eu sempre tentava melhorar. No fim das contas, eu não jogava só por diversão. Eu queria ficar melhor."

Depois de apresentar melhorias significativas no campo virtual, Emil apresentou o amigo ao mundo dos torneios competitivos de Fifa. No início, Provstgaard era eliminado nas primeiras fases, mas as coisas mudaram quando ele decidiu se dedicar.

Em breve, ele alcançaria o nível Elite 1 no FUT Champions, o que lhe permitiria jogar em torneios oficiais contra alguns dos jogadores profissionais.

"Tudo começou com pequenos torneios particulares durante o lockdown, mas depois percebi que conseguia vencer alguns dos melhores jogadores", conta Provstgaard. "Com o tempo, meu ranking me permitiu tentar chegar à eChampions League.

"Passei por algumas das fases de qualificação e continuei avançando. Eventualmente, cheguei ao top 32, o que foi incrível. Não esperava chegar tão longe, mas quando cheguei, continuei me esforçando. A adrenalina era surreal."

Contra todas as probabilidades, Provstgaard chegou às fases finais de uma das competições de eSports mais prestigiadas do calendário. Ninguém, nem mesmo ele, conseguia acreditar no que estava acontecendo.

"Fora da Dinamarca, ninguém sabia quem eu era. Eu era um completo desconhecido. Lembro-me de estar jogando em um domingo qualquer e meu melhor amigo disse: 'Como você está ganhando isso? Você deveria fazer uma transmissão ao vivo na Twitch.' Então eu fiz. Aí todos esses jogadores começaram a assistir. Houve um momento em que eu realmente pensei que estava fora do torneio depois de uma derrota. Eu estava muito bravo, mas não entendia como funcionava a qualificação. Meu amigo conhecia o sistema e me disse que eu estava dentro. Eu não tinha ideia do que esperar depois disso."

Quase nenhum de seus oponentes sabia o que esperar também, o que jogou a seu favor. De fato, após cinco vitórias consecutivas, ele encerraria sua jornada inédita com uma vitória sobre o AC Monza Caccia na grande final.

"Lembro que meus pais estavam na casa dos vizinhos durante a final", diz Provstgaard, relembrando as comemorações pós-jogo. "É uma sensação que nunca mais vou sentir. Eu estava tão acostumado a jogar futebol e sentir aquela adrenalina da torcida. Isso foi muito diferente."

Mais do que a alegria com a conquista, o dinamarquês embolsou um prêmio de 75.000 dólares, algo descrito por ele mesmo como algo que mudou sua vida, já que ainda era estudante na época.

O caminho para se tornar um competidor sério na comunidade Fifa estava claro. Na realidade, a única pessoa que poderia impedi-lo de alcançar esse objetivo era ele mesmo. E foi essa a sua vontade. Então, em vez de se dedicar aos eSports em tempo integral, o jovem aposentou seu controle de PlayStation de vez para se concentrar no processo de recuperação e voltar ao futebol.

"Nem por um segundo (pensei em seguir no Fifa). Depois de vencer, fui convidado para outro torneio e, se ficasse entre os 10 primeiros, me classificaria para a Copa do Mundo. Mas recusei o convite. Cheguei a tuítar que não participaria e deixaria outra pessoa ficar com a minha vaga. As pessoas achavam que eu era louco por me afastar, mas o futebol era minha prioridade."

A volta ao futebol e a ida ao 'time de infância'

Provstgaard se recuperou completamente e voltou a se juntar aos seus companheiros do Vejle para a temporada 2021/22. E logo conquistou uma vaga no time principal, tornando-se peça fundamental da defesa.

"Achei que a lesão atrasaria as coisas em alguns anos, mas o clube acreditou em mim. Trabalhei duro e fui promovido ao time principal depois de cerca de três meses."

Mesmo antes de jogar um único minuto pelo time principal, Steen Thychosen, o gerente de jovens talentos do Vejle Boldklub, estava absolutamente convencido do talento de Provstgaard.

"Nunca tivemos um talento defensivo maior do que Provstgaard", disse ele em abril de 2022. "Temos que voltar a jogadores como Alexander Scholz e Benjamin Hansen, e já faz cerca de uma década desde que eles jogaram nas categorias de base conosco."

Mais de 80 jogos pelo time principal depois e com a experiência adquirida, o relatório de observação de Thychosen era bastante promissor. O zagueiro estava sendo monitorado por diversos clubes na Europa, incluindo a Lazio, que foi assistir a um de seus jogos em agosto do ano passado, e clube pelo qual tem relação desde a infância.

na época ele estava tão bem que foi eleito o jogador jovem do mês de fevereiro da Superliga. Ao receber o prêmio no centro de treinamento do Vejle, ele vestia uma camisa vintage da Lazio da temporada 1999-2000, quando Alessandro Nesta, Diego Simeone, Pavel Nedved, Sergio Conceição, Roberto Mancini e Simone Inzaghi ajudaram o clube a conquistar seu segundo e mais recente scudetto.

"Meu pai mereceu o crédito por isso. Eu tinha essa camisa no armário dele", disse Provstgaard no início deste ano, em entrevista ao Lazio Style Channel, descrevendo a transferência como um "sonho realizado".

"Ele é torcedor da Lazio e chega à Lazio, é uma loucura. A lesão, jogar na base do Vejle, no time principal, na seleção sub-21 da Dinamarca, você chega à Lazio como torcedor do clube – é como quando (Kylian) Mbappé foi para o Real Madrid!", revelou Raul Albentosa, que foi companheiro do atleta no futebol dinamarquês.

A transferência aconteceu em janeiro de 2025, e Marco Baroni logo daria a estreia ao jovem zagueiro na vitória por 1 a 0 fora de casa contra a Atalanta. Em vez de tentar se defender de Juan Cuadrado e Charles De Ketelaere no Fifa, ele agora estava jogando contra eles na vida real.

Agora com a Lazio sendo comandada por Maurizio Sarri, Provstgaard segue ganhando espaço, e participou na última segunda-feira (3) da vitória por 2 a o para cima do Cagliari, resultado que fez o time subir na tabela e entrar na briga por vagas europeias na próxima temporada.

E o jogador, campeão da Champions League no videogame, agora sonha em atuar, dentro dos campos, na maior competição de clubes do mundo.