Em entrevista ao jornal italiano Corriere della Sera, o ex-goleiro Gianluigi Buffon falou abertamente sobre sua luta contra a depressão ao longo da carreira.
De acordo com o lendário atleta, ele viveu seu pior momento em termos emocionais na temporada 2003/04, quando estava em seu 3º ano na Juventus.
Na ocasião, a "Velha Senhora" vinha de derrota para o rival Milan na final da Champions 2002/03 e começou mal no Campeonato Italiano, que terminaria com o próprio Milan "roubando" o título da então bicampeã Juve.
Segundo Buffon, ele passou a ter várias crises de pânico no período.
"Era o final de 2003. Até começamos bem no campeonato (Italiano), depois começamos a perder, levamos vários golpes e perdemos o estímulos", recordou.
"A gente vinha de dois Scudetti seguidos, chegamos ao topo e começamos a cair. Então, abriu-se um buraco na minha frente... Comecei a dormir muito mal. Assim que eu deitava na cama, começava a me sentir muito mal, com ansiedade, e ficava pensando que não ia dormir um segundo sequer", rememorou.
O pior momento foi quando ele foi acometido por uma crise durante uma partida pela Juventus.
"Tive um ataque de pânico. Sentia uma pressão no peito, não conseguia respirar... Só pensava que não tinha mais vontade de estar ali e que não poderia mais jogar aquela partida", admitiu.
"Nem era um jogo decisivo, era um Juventus x Reggina, em casa ainda por cima. Chamei o treinador de goleiros, o Ivano Bordon, que era um grande cara. Ele me tranquilizou: 'Gigi, não se sinta forçado a jogar. Eu respirei fundo...", contou.
De acordo com Buffon, foi no momento seguinte que ele se viu em uma encruzilhada em carreira e teve que tomar uma importante decisão.
"Eu olhei e vi que o goleiro reserva, o Chimente, que é um grande amigo meu, começou a aquecer para entrar no meu lugar. E eu pensei que estava diante de uma porta, e que aquilo seria um momento decisivo da minha carreira e da minha vida", salientou.
"Eu disse a mim mesmo: 'Gigi, se você não continuar em campo hoje, vai criar um precedente para você mesmo. Talvez isso volte a acontecer, depois outra vez, e você nunca mais vai conseguir jogar'. Resolvi seguir em campo. Acabei fazer uma boa defesa e 'salvei' o resultado, porque ganhamos de 1 a 0. Mas o problema permaneceu", lamentou.
"Fui ao médico, que me deu um diagnóstico. Posteriormente, o psicoterapeuta confirmou: eu estava com depressão", relatou.
O ex-goleiro admitiu que teve dificuldade para lidar com a situação, mas acabou recebendo um valioso conselho que mudou seus hábitos.
"Eu recusei os remédios. Eu precisava deles, mas tinha medo de ficar dependente. Fui só umas três ou quatro vezes ao terapeuta, mas ele me deu um conselho precioso: cultivar outros interesses e não focalizar minha vida toda no futebol", recordou.
Foi a partir daí que Buffon se apaixonou pelo mundo da arte. Segundo o ex-atleta, ele passou a frequentar diversas mostras, especialmente na Galeria de Arte Moderna de Turim.
O ex-goleiro contou que o cultivo de outros passatempos o ajudou bastante, mas ressaltou que a luta contra a depressão não é fácil.
"É muito complicado... Mas minha vida sempre foi assim: cair, levantar, errar, consertar... Eu cometei muitos erros, como todas as pessoas. Mas eu nunca me escondi", finalizou.
