VAR começou há cinco anos em jogo obscuro da 3ª divisão dos EUA sem cabine

Aos 17 anos, o atacante Pierre da Silva ficou intrigado ao ver o árbitro Ismail Elfath parar o jogo, desenhar com os dedos uma tela no ar e correr até linha de fundo do campo para rever em uma televisão improvisada o lance que acabara de apitar na partida entre Orlando City II e New York Red Bulls II, em Harrison, nos Estados Unidos.

Filho de pai brasileiro e mão peruana, ele não fazia ideia de que naquele instante, aos 33 minutos do primeiro tempo do duelo pela terceira principal liga dos Estados Unidos, estava testemunhando uma verdadeira revolução no futebol.

Naquele dia 12 de agosto de 2016, há exatos cinco anos, o árbitro de vídeo (cuja sigla em inglês é VAR) foi utilizado pela primeira vez em uma partida oficial e revisou dois lances durante o duelo de 90 minutos.

O primeiro deles está citado acima e resultou na correção de um pênalti contra o Orlando City II, quando o atacante Junior Flemmings, do NY Red Bulls II, foi atingido fora da área e caiu dentro da área. Em menos de dois minutos, o árbitro mudou de ideia. Cancelou a marcação da penalidade e expulsão do zagueiro Conor Donovan, autor da infração e companheiro de Pierre.

“Eu comentei com os caras: ‘Caramba, se fosse na semana passada não teria tido o cartão vermelho. O jogo seria outro. Daqui para frente, o futebol será muito diferente’”, disse Pierre da Silva, hoje jogador do Miami FC, ao ESPN.com.br.

O teste chamou a atenção porque foi feito em uma partida da terceira divisão, com pouca divulgação e até mesmo repercussão. Também chamou a atenção a improvisação para que a ferramenta fosse utilizada. Há cinco anos não existia a cabine do VAR. Um auxiliar da arbitragem é quem segurava o monitor perto da linha de fundo.

“Ouvimos durante aquela semana que ia ter VAR, e nós não sabíamos muito sobre o VAR. Teve uma reunião falando sobre o que ia acontecer. Nós falamos que tínhamos que jogar o nosso jogo, mas se tivesse alguma decisão do VAR, se um carrinho fosse mal dado, não poderíamos fazer nada”, disse o atacante, que nasceu na cidade americana de Port Chester.

A segunda e última intervenção do VAR naquela partida ocorreu aos 33 minutos do segundo tempo, quando o árbitro de campo aplicou um cartão amarelo em Kyle McFadden, do Orlando City II, após uma entrada forte em Florian Valot.

Pierre, que passou pela base do Santos e pelo time sub-23 do Athletico-PR, lembra que saiu chateado com a derrota por 5 a 1 para o NY Red Bulls II, mas ficou com a recordação de ter participado de um jogo histórico para o futebol.

“Perdemos o jogo e saímos de cabeça baixa, algo normal. Depois do jogo falaram que o VAR seria comum. Foi legal ter essa experiência. A gente sabia que dali para frente teríamos que viver com isso e ter cuidado, mas sempre jogar da forma como sempre jogamos: forte e firme. Hoje, eles usam em Copa do Mundo e em todos os grandes torneios”, disse.

Escalada para o VAR

No quinto aniversário do árbitro de vídeo, o jornalista brasileiro William Tales Silva acaba de publicar um livro sobre os bastidores da ferramenta: “[VAR] - A história e os impactos da maior mudança na aplicação das regras do futebol”.

Segundo ele, a implementação da ferramenta no futebol ganhou adeptos após uma escalada de erros impactantes na elite do futebol. Só assim para derrubar o conservadorismo conhecido de Fifa e International Board.

"O ponto de partida foi a eliminatória da Copa do Mundo de 2010, quando Thierry Henry domina a bola com a mão e dá uma assistência [para Gallas] para a França empatar o jogo com a Irlanda e se classificar para o Mundial", disse William.

"Sim, toquei com a mão, mas não sou o árbitro. Eu estava atrás de dois irlandeses, a bola bateu na minha mão e continuei a jogada", disse o atacante que defendia o Barcelona na época, em entrevista ao jornal "Le Monde" no dia seguinte.

"A partir dali uma sequência de erros cruciais da arbitragem em países muito próximos a International Board começa a ventilar mais essa possibilidade da introdução de uma tecnologia. Já na Copa do Mundo tem um erro em Alemanha x Inglaterra. Foi o gol do Lampard que passou a linha do gol aproximadamente 30cm e não foi marcado. Na Eurocopa de 2012 tem um gol da Ucrânia que entrou e não foi marcado contra a Inglaterra. Então, foram três erros numa sequência de tempo muito curto que acabam impactado bastante a comunidade futebolística global", disse William.

Depois disso, foi introduzida a tecnologia da linha do gol, que abriu as portas para o VAR. Assim que assumiu a presidência da Fifa, Gianni Infantino autorizou os testes com o árbitro de vídeo em seis países, incluindo Brasil e EUA.

Após ser usado em um amistoso na Holanda, o VAR debutou em uma partida oficial pela primeira vez na USL (United Soccer League), uma liga inferior e de pouca repercussão fora dos Estados Unidos.

“Os Estados Unidos foram escolhidos para testaram a ferramenta por serem um país acostumado com a dinâmica de árbitro de vídeo, seja no futebol americano, com os challenges [desafios]. Era um país com histórico favorável”, disse William.

“Foi o primeiro grande momento [de mudança] no futebol. Como a MLS [principal liga de futebol nos EUA] tomou uma proporção muito grande, colocar o árbitro de vídeo ali podia ser bastante arriscado tendo em conta que aquele momento os árbitros não estavam preparados. Era o início do processo. Não havia um grande treinamento, uma grande experiência”, disse Willian, sobre os motivos que levaram o VAR para a terceira divisão dos EUA.

Passados cinco anos desde que foi usado pela primeira vez em uma partida oficial, o VAR ainda sofre com muitas críticas e está longe de ser unanimidade no futebol (entre jogadores, técnicos, dirigentes e até jornalistas).

“Desde o início da implementação do VAR todos sabiam que seria necessário pelo menos dez anos para que toda a comunidade futebolística se adaptasse ao árbitro de vídeo. É uma mudança muito drástica. É uma mudança na dinâmica do futebol. Talvez a modalidade nunca tivesse visto uma mudança tão significativa tão rápida”, disse William.

No livro publicado, o jornalista também buscou apontar qual deve ser a evolução da ferramenta. Entre as descobertas, citou que a CBF sugeriu a Fifa e a International Board que uma mudança na linha de impedimento, por exemplo.

Ou seja, ainda que mais odiado do que amado, está bem claro que o árbitro de vídeo chegou para ficar.

“É preciso de adaptação, investimento e todo um trabalho para que a prática do árbitro de vídeo chegue mais perto da teoria. A ferramenta não é executada como deveria porque ainda falta tempo, falta adaptação. São cinco anos. É pouco tempo. Tem muitas ligas que estão nas primeiras temporadas de uso do árbitro de vídeo. Outras nem sequer usar. Então, é um processo global de adaptação e investimento. Temos de entender isso para que o VAR seja usado da melhor forma possível”.