Até o fim de 2024, Gui Lobo tinha uma vida muito parecida com a de inúmeros jovens da periferia de São Paulo. Aos 24 anos, ele trabalhava como caixa no mercadinho do sogro, mas estava sempre com o pensamento no próximo fim de semana.
Aos sábados e domingos, deixava de lado a frustração de não ter sido um jogador de futebol profissional e se realizava com um dos principais nomes da várzea. Disputado por muitas equipes, recebia cachês pelas partidas que ajudavam no sustento de casa.
Ele jamais imaginaria que em pouco tempo viraria titular do Criciúma na Série B e estaria perto de entrar para a elite dos jogadores do Brasil. Neste domingo (26), ele entra em ação às 20h30 (de Brasília), contra o CRB, pela 6ª rodada da Segundona, com transmissão do plano premium do Disney+.
Nascido em uma família humilde, Gui Lobo precisou trabalhar em várias profissões antes de viver o sonho nos gramados. Foi motoboy, servente de pedreiro, entregou gás e comida, além de distribuir panfletos.
Apesar do talento para o futebol, não conseguiu se firmar em categorias de base de clubes profissionais.
"Fazia bastante testes, em alguns eu passava, mas em outros não. Quando era aprovado, não conseguia dar sequência nos treinos por falta de dinheiro", contou, em entrevista à ESPN.
A primeira chance real de ingressar em um clube profissional veio somente aos 18 anos. O meia foi chamado para participar de um amistoso por um time de várzea contra a equipe sub-20 do Nacional, da capital paulista.
"Cheguei atrasado e não tinha chuteira. Comecei no banco de reservas porque não me conheciam. Faltando 12 minutos para acabar, peguei as chuteiras emprestadas e entrei", recordou.
O pouco tempo em campo foi o suficiente para chamar a atenção com uma bela jogada.
"Dei um passe na linha de fundo e recebi o cruzamento na área. Fiz um gol de voleio, e o treino acabou na hora. O técnico do Nacional me chamou e perguntou de onde eu era", rememorou.
O jovem foi inscrito para jogar o Estadual de juniores pelo clube da capital e assinou o primeiro contrato profissional.
Nos anos seguintes, porém, a carreira não deslanchou. Ele jogou apenas os primeiros meses por equipes menores em divisões de acesso durante os Estaduais.
"Quando acabavam os campeonatos, ia para várzea para poder ganhar dinheiro também, que era o meu sustento", ressaltou.
Gui Lobo recorreu ao futebol amador para pagar as despesas quando a esposa engravidou da primeira filha do casal. Em alguns finais de semana, ele jogava até quatro partidas.
Da várzea para a Série B
Curiosamente, a chance que mudaria a vida do meia veio por meio da várzea. Após se destacar na final da Copa Macaco Louco, em 2024, ele foi chamado - junto com mais quatro colegas de time - para defender o Santa Catarina na 2ª divisão profissional do Estado.
"Falei que não queria mais, porque eu já tinha colocado na minha cabeça que já tinha desistido. Depois de duas semanas, o técnico me chamou de novo", relatou.
O meia desta vez aceitou. Foi titular da equipe semifinalista do Estadual e perdeu nos pênaltis para o campeão Avaí.
"Meu empresário me avisou que ia chegar um e-mail. Quando abri o celular, era uma notificação do Criciúma. Eu fiquei besta, fiquei subindo e descendo a mensagem para ver se era verdade", emocionou-se.
"Fiquei sem saber o que fazer. Mostrei para a minha mãe, para o meu tio e para os meus irmãos. Foi bem difícil de acreditar", admitiu.
Na chegada ao Tigre, Gui se deparou com uma realidade muito diferente. Por ser muito franzino, precisou fazer um programa de treinamentos e suplementação para ganhar 8 kg de massa muscular. O meia não estava acostumado com os treinamentos intensos e os duelos físicos.
Mesmo assim, virou rapidamente titular do técnico Eduardo Baptista e por muito pouco não conseguiu o acesso para a Série A do Brasileiro. A equipe catarinense ficou na 5ª posição, com um ponto a menos do que o Remo, 4º colocado.
Durante a competição, ele renovou contrato até o final de 2027. Neste ano, o meio-campista é uma das apostas do Tigre para conseguir o tão sonhado acesso. São 15 partidas disputadas e um gol marcado na temporada.
"Foi espetacular, sem palavras. Agradeço sempre por essa oportunidade. Pude mostrar meu trabalho. Acho que para Deus, ainda mais eu como prova-viva, nada é impossível", finalizou.
Onde assistir a Criciúma x CRB?
Criciúma x CRB, neste domingo (26), às 20h30 (de Brasília), pela Série B, terá transmissão do plano premium do Disney+.
