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Em litígio com Corinthians, Taunsa foi condenada e tem dívida de mais de R$ 100 milhões em Dubai

Cleidson Cruz, dono da Taunsa, em visita a Dubai em 2022, com a camisa do Corinthians com o nome de Paulinho Divulgação

Se o Corinthians procurou a Justiça para tentar receber cerca de R$ 26 milhões da Taunsa, uma empresa de Dubai, nos Emirados Árabes, fez o mesmo em seu país há dois meses. Nesse caso, já há uma decisão, de primeira instância, que condenou a antiga patrocinadora alvinegra a pagar mais de R$ 100 milhões.

A ESPN obteve acesso ao processo, de maio deste ano, contra a Taunsa e a Fortaunsa BV, movido pela Vista Capital Goods Wholesalers L.L.C, que processa e armazena matéria-primas agrícolas.

A dívida se refere a um contrato firmado entre as partes ainda em dezembro de 2021, dias depois de o Corinthians anunciar uma "parceria inédita" com Taunsa, que viabilizou a contratação de Paulinho.

O acordo com a Vista Capital Goods Wholaselers L.L.C não é especificado na condenação, e a Taunsa foi julgada à revelia porque não compareceu à corte no Centro Financeiro Internacional de Dubai (DIFC, na sigla em inglês), cuja jurisdição engloba disputas comerciais entre empresas de diferentes países, nem se manifestou dentro do prazo legal.

A condenação considerou uma dívida de US$ 17,38 milhões (cerca de R$ 83,3 milhões na cotação atual), com mais US$ 4,45 milhões em juros (R$ 21,3 milhões) até a data do julgamento. O total supera R$ 104 milhões e deveria ter sido pago até o dia 16 de maio. Como a Taunsa não realizou o pagamento, a dívida segue sendo reajustada a juros de 1% ao mês.

"Da nossa parte, não vai ser pago, porque nós não devemos", disse Cleidson Cruz, dono da Taunsa, em contato com a ESPN, sobre a dívida. Segundo ele, apesar do entendimento da Justiça de Dubai, quem não teria cumprido o contrato seria a própria Vista Capital Goods Wholaselers L.L.C.

"Houve uma quebra da parte deles de contrato. Eles não pagaram, eles deixaram de honrar um pagamento conosco", justificou ele, que responsabiliza um suposto repasse do dinheiro não realizado pela Fortaunsa, também envolvida no negócio, à Taunsa.

A Fortaunsa é uma empresa que até hoje aparece no site da Taunsa como uma parceira de negócios. O logo da Fortaunsa também estava na fachada da sede da Taunsa em Campinas, mas Cleidson afirmou não haver ligação de sua empresa com a Fortaunsa.

"A Vista contratou a Fortaunsa, e a Fortaunsa nos contratou para fornecer produto, para fornecer farelo de soja e óleo de soja degomado. Nós exportamos o farelo de soja na sua totalidade e, no contrato do óleo de soja degomado, eles pagaram na totalidade essa Fortaunsa, e a Fortaunsa não nos repassou o valor, e aí nós só exportamos 50% do valor contratado", explicou Cleidson.

Embora garanta que não pagará a dívida, o dono da Taunsa não disse se vai recorrer da decisão em Dubai e afirmou só ter tomado ciência da cobrança nos últimos dias. "Eles entraram pleiteando só que nós não fomos notificados, não fomos citados, nada. E tomamos ciência disso há uns 20 dias. Eu entro com o processo contra você, se você não foi citado, como você vai se posicionar?"

Taunsa x Corinthians

Em relação ao Corinthians, a Taunsa é cobrada na Justiça em R$ 25,7 milhões, em valor já acrescido de juros. Como revelou a ESPN, a empresa alega, porém, que o clube descumpriu uma cláusula de confidencialidade estabelecida em acordo no qual a empresa assumia sua dívida, o que anularia seu pagamento, na visão dos representantes da empresa agrícola.

"Tendo em vista que o Corinthians não cumpriu com as suas obrigações contratuais, e mesmo após devidamente notificado se quedou inerte, permitindo que as notícias divulgadas na mídia permanecessem ao acesso de qualquer indivíduo, certo é que também não pode exigir o pagamento da dívida", diz trecho da argumentação dos advogados.

Apesar do posicionamento na Justiça, em entrevista à ESPN, Cleidson garantiu que a empresa não está tentando se livrar da dívida. "Isso não tira a responsabilidade da minha empresa de pagar. Isso é uma outra questão que a gente está discutindo, mas isso não isenta e não tira a minha responsabilidade de arcar com o acordo com o Corinthians".

No mesmo dia que conversou com a reportagem dizendo que pagaria a dívida independentemente da decisão legal, porém, Cleidson, através de seus representantes legais, realizou pedido ao juiz Rodrigo Galvão Medina para que coloque, com urgência, o processo em segredo de justiça.

A reportagem entrou em contato diretamente com o presidente do Corinthians, Duílio Monteiro Alves, que não deu retorno sobre o processo atual nem sobre os problemas com a Taunsa. O mandatário se manifestou na segunda-feira por meio de uma nota ao GE, negando a versão da empresa de que teria partido do clube informações que seriam sigilosas.

"As próprias reportagens indicadas pela Taunsa (anexadas como prova no processo na Justiça) trazem informações incorretas, que não condizem com a realidade dos fatos. Há erro, por exemplo, quando mencionam a data de assinatura da confissão de dívida, o valor da dívida e o prazo de pagamento. Não há prova ou indício de prova de que o Corinthians teria fornecido à imprensa qualquer informação sobre os termos e condições da confissão de dívida."

No ano passado, em um extenso trabalho de reportagem, a ESPN revelou a origem da Taunsa, cuja sede inicial era em Campinas e depois se mudou para Araçatuba, em um local na área rural da cidade e com fortes indícios de abandono. A empresa, que ainda hoje se apresenta como "uma das maiores exportadoras de soja do Brasil", com capital social de R$ 150 milhões, também era desconhecida pelos moradores de Araçatuba e pelos mais influentes investidores do agronegócio.

Rastro de dívidas no MT

Durante o trabalho de reportagem, a ESPN também descobriu que a Taunsa tinha outras dívidas no Mato Grosso, onde arrendou fazendas para o plantio de soja e depois abandonou os locais.

Foram quatro fazendas em três cidades diferentes: São José do Xingu, Brasnorte e Paranatinga. Só nesta última a dívida com juros e correção monetária fica próxima a R$ 400 mil, segundo fontes da cidade.

Um dos maiores prejudicados foi o corretor da cidade, contratado pelo dono da Taunsa para procurar proprietários interessados em arrendar parte de suas fazendas para o plantio da soja. Ele considera que o valor atual da dívida seja superior a R$ 50 mil (valor atualizado).

Ao todo, seis prestadores de serviço foram prejudicados. No ano passado, eles contrataram um escritório de advocacia e decidiram fazer uma ação conjunta, mas, após ouvirem promessas de Cleidson de que a dívida seria quitada sem necessidade de recorrerem à Justiça, desistiram.

Até hoje o valor devido pela Taunsa não foi pago, e eles ainda cobram Cleidson.