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Corinthians: em Araçatuba, Taunsa tem sede com sinais de abandono, e atraso por Paulinho é mais conhecido que negócio

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Sede da Taunsa em Araçatuba, onde parceira do Corinthians diz que começou, tem sinais de abandono; VEJA imagens (2:05)

Reportagem da ESPN foi até local da sede da patrocinadora do clube paulista (2:05)

Parceira do Corinthians desde 2021, a Taunsa está sediada em Araçatuba, mas o local não tem a pompa proporcional ao tamanho e ao capital social da empresa


Araçatuba Address: Estrada Municipal Araçatuba a Bilac, KM 15. É assim que aparece o endereço da Taunsa, parceira do Corinthians responsável por viabilizar o pagamento do salário do volante Paulinho, no site do grupo ARJ Holding, conglomerado de Dubai, nos Emirados Árabes Unidos, do qual a empresa brasileira é subsidiária. Em português, esse é também o endereço registrado pela empresa, que afirma ter um capital social de R$ 150 milhões, na Junta Comercial do Estado de São Paulo (Jucesp).

Tanta pompa é algo que não é visto no endereço da companhia que fala em investir bilhões de reais para se tornar uma das maiores exportadoras de soja do Brasil. A ESPN esteve na última semana na cidade do interior paulista. E constatou sinais de abandono e nenhuma indicação que lá funciona uma empresa com tamanha ambição.

Distante a quase 20 km do centro de Araçatuba, é necessário percorrer uma estrada de terra, sem placas ou outras indicações rodoviárias, onde o sinal de rede é bastante irregular, para chegar à sede.

Também não há qualquer referência visual que ligue o local a Taunsa, como a presença de uma logomarca da empresa. A estrutura da entrada é moderna, com dois portões automáticos e uma guarita, enquanto os vizinhos se caracterizam pelo estilo rústico mais comum em sítios espalhados pelo interior dos estado, com cercas e portões de madeira.

Ao se aproximar da entrada há sinais de abandono. Os dois portões encontram-se fechados, com alguns traços de ferrugem. Não há nenhum funcionário dentro da guarita nem mesmo objetos, como cadeiras, monitores ou sequer um interfone ligando a sala de entrada à residência principal.

A distância da portaria para a residência é de pouco mais de 300 metros. Da estrada é possível ver que o local é moderno, amplo, luxuoso e nada rústico, com uma piscina e outras estruturas.

Mas não havia maquinário nem movimentação de funcionários. O local estava aparentemente parado.

Nem mesmo na área interna há qualquer referência visual que ligue o local à Taunsa. Nome totalmente desconhecido pelos moradores e os trabalhadores rurais. Para eles, a instalação que está ali tem outro nome - Sítio As 5 mulheres - e se destacou em um passado recente pela alta produção de leite.

Angolano

Na zona rural de Araçatuba, o nome Cleidson Augusto Cruz, 46, não é facilmente reconhecido. Os vizinhos conhecem o dono do Sítio "As 5 mulheres" pelo apelido de Angolano.

Segundo eles, a forma pela qual o chamam tem a ver com a transformação social que o antes trabalhador rural passou até virar empresário, e, desde dezembro de 2021, parceiro do Corinthians.

À reportagem, os vizinhos de Cleidson afirmaram que ele era funcionário de Jamil Buchalla Filho, um famoso e forte empresário local. Entre outras coisas, trabalhava numa fazenda de sêmen de cavalo e gado, um dos negócios mais prósperos de Buchalla Filho.

Natural de Campinas, Cleidson foi descrito como um jovem humilde, trabalhador e que gostava de jogar bola com os amigos. Ele era o atacante do time, mas, segundo os locais, nada habilidoso.

Alguns disseram que ele nunca foi corintiano e ficaram surpresos com o salto social.

Outros recordaram que tudo começou a mudar quando o comércio de sêmen de cavalos da fazenda de Buchalla levou Cleidson para Angola. Foram muitas idas e vindas até que acabou retornado para Araçatuba com empresários angolanos interessados em tornarem-se produtores locais. Isso ocorreu entre 2007 e 2008, este o ano em que a Taunsa foi fundada, como "Taunsa Representações de Máquinas Agrícolas Ltda", por Cleidson e mais um sócio (leia mais abaixo), com sede administrativa em Campinas.

Apesar disso, o local de atuação da Taunsa naquele momento, em tese, era Araçatuba, no local visitado pela reportagem e que, desde 2017, consta como sede administrativa da empresa.

O nome "As 5 mulheres" foi inspirado em cinco angolanas que investiram no ramo do leite e escolheram Cleidson para ser o administrador, segundo relataram os moradores e comerciantes locais.

O dinheiro fez com que um velho sítio fosse turbinado e transformado em uma área de produção e refino do leite para venda para o mercado nacional e também internacional.

Quem testemunhou esse crescimento disse à reportagem que foi uma fase de muita fartura no sítio, quase sempre com churrascos aos fins de semana, a ponto de Cleidson mudar-se para o luxuoso condomínio Habiana, de alto padrão, então recém construído e próximo ao aeroporto.

Segundo o Jucesp, ele também tem uma mansão no bairro Jardim Nova York, um dos locais nobres da cidade, com uma área coberta por câmeras de segurança e também uma guarita.

Mesmo assim ninguém disse se lembrar do nome Taunsa. Recordaram apenas de Cleidson, o Angolano, e também da quantidade de angolanos que chegavam à cidade do interior paulista.

Alguns citam que aquele boom durou poucos anos. A venda de leite caiu e acabou impactando a produção. Muitos parceiros passaram a cobrar pagamentos atrasados, e os investidores angolanos, que nunca apareceram formalmente ligados à empresa, deixaram o Brasil.

O sítio manteve a estrutura luxuosa, mas já não era mais tão próspero.

Desde então, há dezenas de processos de penhora na Justiça contra a Taunsa e também processos contra o dono da empresa, hoje, segundo os moradores, pouco visto na zona rural da cidade.

Corinthians, é?

Durante a visita à Araçatuba, a reportagem conversou com pouco mais de 30 pessoas, ligadas à vida social, financeira e estrutural da região, como funcionários públicos, motoristas profissionais, pessoas do comércio e também influentes na vida política e no esporte.

Foram ouvidos ainda empresários do ramo do agronegócio e representantes do Sindicato Rural da Alta Noroeste (Siran), o órgão mais relevante no assunto em toda a região noroeste do Estado. Os poucos que já tinham ouvido falar sobre a Taunsa relacionaram o nome da empresa ao noticiário recente, ou seja, ao não repasse ao Corinthians dos valores referentes ao pagamento do volante Paulinho, conforme parceria acertada em dezembro do ano passado.

Um dos amigos que trabalhou com Cleidson ficou curioso ao ver a reportagem pesquisando o histórico da Taunsa e consequentemente do dono da empresa. Ao ouvir sobre a ligação que o hoje empresário firmou com o clube paulista, ficou surpreso: “O Angolano e o Corinthians, é?”.

Ligação com Campinas

Se o site dos parceiros em Dubai indica que a sede da Taunsa está em Araçatuba, no domínio oficial da empresa - que saiu do ar há uma semana e depois retornou - consta que o endereço atual da sede está em Campinas, na rua Rafael Andrade Duarte, 374.

A reportagem também visitou o local e lá, sim, encontrou referências da empresa.

Na Junta Comercial do Estado de São Paulo, no entanto, a informação é que o local é sede da "Taunsa Log", empresa cujos sócios são Rafael Anderson Cruz e Kaury Karina do Nascimento Cruz - o primeiro aparecia como contato de TI no registro do domínio do site da Taunsa, e a segunda é sócia também de duas empresas de estética.

Em sua apresentação institucional, a Taunsa reforça suas atividades começaram em Araçatuba, em 2008, mas a criação da "Taunsa Representações de Máquinas Agrícolas Ltda." não aconteceu lá. O primeiro registro da empresa foi em um bairro de Campinas, na Rua José Paulino, 1.123, onde Antonio Carlos da Silva Romeiro, então sócio de Cleidson, tinha um escritório. Somente em 2017, dois anos após Antonio Carlos deixar a sociedade, é que a Taunsa mudou a sede social para Araçatuba.

Foi também nesse ano que ingressou no quadro de sócios da empresa Carolina Moreira Lima Cruz, e o capital social mudou para R$ 5.100. Em 2019, a empresa mudou o nome para o atual, isto é, Taunsa Agropecuária Ltda., e deu um salto no capital social para R$ 150 milhões.

Antonio Carlos da Silva Romeiro, sócio de Cleidson no nascimento da Taunsa, foi procurado pela reportagem. Ele se limitou a dizer que "não tem rigorosamente nada para falar a respeito dessa empresa" e complementou também "não entender porque foi procurado", apesar da antiga sociedade. Ainda assim, indicou o contato do advogado Helber Duarte Pessoa para "prestar as informações pertinentes".

Helber representa Cleidson Cruz em processos particulares e responde pelo e-mail jurídico da Taunsa. Ele se comprometeu a responder aos questionamentos da ESPN na manhã desta terça-feira (29).

Outro lado

A reportagem entrou em contato com a Taunsa pelo telefone disponibilizado no site oficial da empresa na manhã da última segunda-feira (28). A orientação passada foi que os questionamentos deveriam ser repassados à porta-voz por e-mail - Wanderlea Cruz Teixeira.

Não houve resposta até às 16h, quando a reportagem tentou novos contatos por telefone. Foi enviada apenas uma resposta indicando outro e-mail para contato. Novamente não houve resposta nem mesmo nas tentativas feitas por telefone.

A ESPN também tentou ouvir a ARJ Holding, de Dubai, através do contatos disponibilizados pelo grupo por telefone e e-mail. Também não houve resposta.

Minutos depois da publicação desta reportagem, a Taunsa, questionada sobre sua origem em Araçatuba, a sede, o antigo sócio, a produção, a relação entre os sócios e apenas duas vezes sobre o Corinthians entre 14 perguntas, enviou a seguinte resposta, através de seu departamento jurídico:

"O Grupo Taunsa sempre atuou de forma ética, tendo por pilares a responsabilidade empresarial, social e ambiental. A Taunsa não comenta detalhes de sua relação com o Corinthians, em razão da cláusula de confidencialidade do contrato. Todo e qualquer assunto envolvendo a parceria está sendo tratado diretamente com a Diretoria do Clube."

No fim da tarde desta terça, através de suas redes sociais, a Taunsa publicou a seguinte nota oficial:

"A Taunsa, a propósito de algumas matérias publicadas recentemente por veículos de imprensa, faz questão de esclarecer alguns pontos à imensa torcida corinthiana.

1. A Taunsa está em franca atividade operacional, inclusive de exportação. No ano passado exportamos mais de R$ 250 milhões e celebramos a partida de um navio com 60.000 toneladas de farelo de soja e 20.000 toneladas de óleo de soja, exportados rumo ao Oriente Médio. Somos a única empresa 100% brasileira a exportar sozinha um navio completo de grãos. Quanto aos nossos endereços, são plenamente conhecidos por nossos clientes e fornecedores.

2. A Taunsa cumpre suas obrigações e nunca se furtou de prestar esclarecimentos quando necessário.

3. A relação entre a Taunsa e o Corinthians permanece sem sobressaltos, com a quitação da parte pendente dos compromissos prevista para muito em breve.

4. A Taunsa continua firme no seu propósito de investir no esporte como ferramenta de desenvolvimento social, mesmo diante do cenário de incertezas e percalços para o setor exportador gerado pelo recente conflito na Ucrânia. Pedimos desculpas a imensa torcida corintiana pelos ruídos causados e agradecemos a confiança em nosso trabalho.

Atenciosamente
Taunsa Group"