E se Iugoslávia ainda existisse? Como seria 'seleção dos sonhos' para Copa do Mundo

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E se a Iugoslávia ainda existisse? Hofman imagina e 'convoca' seleção para Copa do Mundo (3:00)

Em 25 de março de 1992, a seleção iugoslava entrou em campo pela última vez. Em Amsterdã, perdeu por 2 a 0 para a Holanda, em amistoso de preparação para a Eurocopa daquele ano. Desde então, imaginar como seria a Iugoslávia atualmente se tornou um debate permanente entre apaixonados por futebol internacional.

A Copa do Mundo de 2026 terá dois países que integravam a antiga República Socialista Federativa da Iugoslávia. Finalista na Rússia e semifinalista no Qatar, a Croácia volta a marcar presença em um Mundial. Já a Bósnia retorna à competição após estrear em 2014, no Brasil. Sérvia, Montenegro, Eslovênia, Macedônia do Norte e Kosovo ficaram fora do torneio nos Estados Unidos, Canadá e México.

Projetar uma seleção iugoslava nos tempos atuais é, acima de tudo, um exercício de imaginação futebolístico. O contexto dos Bálcãs que levou às guerras na região, à morte de milhares de pessoas e à dissolução do estado iugoslavo exige respeito acima de tudo.

Time atual

Não há muita discussão sobre quem seria a grande estrela da hipotética seleção iugoslava. Luka Modric, aos 40 anos, deixou o Real Madrid como lenda e ainda conseguiu ter impacto imediato no Milan. Chegaria à Copa do Mundo mais uma vez como referência técnica de um meio-campo espetacular.

Ao lado de Mateo Kovacic e Marcelo Brozovic, o croata comandou durante anos um dos setores mais fortes do futebol internacional. Inclusive naquele jogo inesquecível contra o Brasil, nas quartas de final da Copa do Qatar.

Se muitas vezes pareceu faltar à Croácia um centroavante de elite nos últimos anos, em uma eventual Iugoslávia aconteceria justamente o oposto.

A lista impressiona: Aleksandar Mitrovic (Sérvia), Dusan Vlahovic (Sérvia), Edin Dzeko (Bósnia), Ermedin Demirovic (Bósnia), Benjamin Sesko (Eslovênia) e Vedat Muriqi (Kosovo).

No gol, Jan Oblak seria titular absoluto. O goleiro esloveno do Atlético de Madrid, considerado um dos melhores da posição na última década, superaria a concorrência de nomes como Dominik Livakovic (Croácia), Predrag Rajkovic (Sérvia) e Vanja Milinkovic-Savic (Sérvia).

As opções seriam abundantes em praticamente todos os setores do campo. A linha defensiva também misturaria juventude e experiência. Nikola Milenkovic (Sérvia) se consolidou na Premier League pelo Nottingham Forest, enquanto Duje Caleta-Car (Croácia), hoje na Real Sociedad, atua em alto nível há muitos anos, sem falar em Josko Gvardiol (Croácia) no Manchester City.

No meio-campo, a oferta seria ainda maior: Nemanja Gudelj (Sérvia), Sergej Milinkovic-Savic (Sérvia), Sasa Lukić (Sérvia), Lovro Majer (Croácia), Nikola Vlasic (Croácia), Mario Pasalic (Croácia), Petar Sucic (Croácia), Luka Sucic (Croácia), Eljif Elmas (Macedônia do Norte), Enis Bardhi (Macedônia do Norte) e Edon Zhegrova (Kosovo), entre outros.

Passado sem títulos

A primeira seleção "iugoslava" representava o Reino dos Sérvios, Croatas e Eslovenos, criado em 1918. O nome Iugoslávia, que significa literalmente "terra dos eslavos do sul", passou a ser utilizado oficialmente a partir de 1929, com o Reino da Iugoslávia.

A Segunda Guerra Mundial redesenhou o mapa político da Europa. Nos Bálcãs, surgiu a República Socialista Federativa da Iugoslávia, liderada por Josip Broz Tito, figura central da unificação política do país no pós-guerra.

O saudosismo futebolístico muitas vezes faz parecer que a Iugoslávia foi historicamente mais dominante do que realmente conseguiu ser.

Foram oito participações em Copas do Mundo, com semifinais alcançadas em 1930 e 1962. Curiosamente, no Uruguai, a delegação viajou apenas com jogadores sérvios, após protestos de dirigentes croatas pela transferência da sede da federação de Zagreb para Belgrado.

Em sua última Copa, na Itália, a Iugoslávia levou um time jovem e extremamente talentoso, com base no Estrela Vermelha que seria campeão europeu em 1991. Dejan Savicevic (Montenegro), Robert Prosinecki (Croácia), Vladimir Jugovic (Sérvia), Siniša Mihajlovic (Sérvia) e Darko Pancev (Macedônia do Norte) lideravam aquela geração. Os iugoslavos caíram nas quartas de final, eliminados nos pênaltis pela Argentina de Sergio Goycochea.

Essa equipe já sofria os impactos dos movimentos nacionalistas nos Bálcãs. Em 13 de maio de 1990, o jogo entre Dinamo Zagreb e Estrela Vermelha, pelo Campeonato Iugoslavo, terminou em cenas de violência no estádio Maksimir, na capital croata. Ultras das duas equipes invadiram o campo e entraram em confronto. Zvonimir Boban, capitão do Dinamo e um dos maiores jogadores croatas de todos os tempos, acertou uma voadora em um policial que detinha um torcedor. A imagem se tornou um símbolo de resistência croata contra os sérvios.

A partida aconteceu semanas após a primeira eleição na Croácia em mais de 50 anos com multipartidarismo, e o resultado fortaleceu o movimento de independência.

Em Eurocopas, o retrospecto foi melhor, ainda que sem títulos: vice-campeã em 1960 e 1968, além da semifinal em 1976, quando sediou o torneio. A seleção estava classificada para a Euro de 1992, mas UEFA e FIFA acataram as sanções impostas pelas Nações Unidas por causa da guerra nos Bálcãs e suspenderam os iugoslavos de todas as competições.

A maior conquista do futebol iugoslavo veio com a medalha de ouro olímpica em 1960.

É importante lembrar que, após 1992, a Iugoslávia continuou existindo formalmente como estado. A nova República Federativa da Iugoslávia, porém, já não contava com Bósnia, Croácia, Eslovênia e Macedônia do Norte. Em 2003, o país passou a se chamar Sérvia e Montenegro, até a independência montenegrina, três anos depois.

Como Sérvia e Montenegro, o país disputou as Copas de 1998 (ainda sob o nome Iugoslávia) e 2006. Na França, porém, a grande sensação do torneio foi justamente a estreante Croácia, semifinalista liderada por Davor Suker.

Geopolítica atual

Por mais que tudo isso seja apenas um exercício de imaginação, alguns contextos atuais não podem ser ignorados.

Kosovo, por exemplo, ainda não possui reconhecimento internacional amplo. A Sérvia contesta a independência da região, localizada dentro de seu território histórico.

Em grandes eventos esportivos, é comum torcedores sérvios exibirem bandeiras com o mapa do país acompanhado da frase "Kosovo é Sérvia".

Há muitos outros elementos geopolíticos que moldaram a personalidade dos povos balcânicos.

Luka Modric carrega o nome do avô, figura central de sua infância no interior da Croácia. Ele foi assassinado aos 66 anos por tropas sérvias durante a guerra.

A família Modric tornou-se refugiada, assim como milhares de outras nos países que integravam a Iugoslávia. Muitas pessoas sequer conseguiram fugir de suas casas.

Edin Dzeko nasceu e cresceu em Sarajevo durante o cerco militar imposto pelo exército sérvio à cidade. Ao longo da carreira, o atacante relembrou diversas vezes um episódio que o marcou para sempre.

Mesmo cercada pela guerra, Sarajevo tentava manter alguma aparência de normalidade. Quando podiam, crianças brincavam nas ruas e jogavam futebol.

Em um desses dias, Dzeko estava com amigos perto de casa. Sua mãe teve um mau pressentimento e o chamou para entrar. Minutos depois, uma bomba explodiu no local e matou alguns de seus colegas. Entre 1992 e 1996, mais de dez mil civis morreram durante o cerco de Sarajevo.

Quem conseguiu deixar o país, foi obrigado a viver como refugiado no estrangeiro. Caso da família Kolasinac, que se mudou para Karlsruhe, na Alemanha, e lá nasceu o atual defensor da Atalanta, Sead Kolasinac.

Time atual

Por isso, esta peça funciona apenas como uma alegoria esportiva sobre a qualidade histórica do futebol produzido nos Balcãs. Nada além disso.

Mesmo diante de todas essas cicatrizes históricas, o talento futebolístico produzido pela região continua impressionante.

Um possível time titular em 2026 poderia ter Jan Oblak; Josip Stanisic, Josko Gvardiol, Strahinja Pavlovic e Sead Kolasinac; Luka Modric, Mateo Kovacic, Marcelo Brozovic e Filip Kostic; Edin Dzeko e Benjamin Sesko.

Sem muito apego tático, deixando o 4-4-2 de lado e adotando uma formação mais ofensiva, o atacante sérvio Aleksandar Mitrovic, ex-Fulham, poderia formar um trio ofensivo de respeito ao entrar na vaga de Kostic.

Olhando apenas para a última década, a Iugoslávia teria vivido o auge de atletas como Modric e Dzeko, estrelas do futebol internacional. Teria sido, tranquilamente, uma das melhores seleções iugoslavas de todos os tempos. Um Dream Team dos Balcãs.

Sem falar em outros esportes, como o basquete, por exemplo, com Luka Doncic, Nikola Jokic, Mario Hezonja, Bogdan Bogdanovic, Goran Dragic, Bojan Bogdanovic e Jusuf Nurkic. Mas aí já é outro texto...

Quem seriam os 26 convocados da Iugoslávia

GOLEIROS

Jan Oblak, Eslovênia (Atlético de Madrid-ESP)

Dominik Livakovic, Croácia (Dínamo Zagreb-CRO)

Vanja Milinkovic-Savic, Sérvia (Napoli-ITA)

DEFENSORES

Strahinja Pavlovic, Sérvia (Milan-ITA)

Nikola Milenkovic, Sérvia (Nottingham Forest-ING)

Josip Stanisic, Croácia (Bayern-ALE)

Duje Caleta-Car, Croácia (Real Sociedad-ESP)

Josko Gvardiol, Croácia (Manchester City-ING)

Sead Kolasinac, Bósnia (Atalanta-ITA)

Stefan Savic, Montenegro (Trabzonspor-TUR)

Adam Marusic, Montenegro (Lazio-ITA)

MEIO-CAMPISTAS

Nemanja Gudelj, Sérvia (Sevilla-ESP)

Sergej Milinkovic-Savic, Sérvia (AL Hilal-SAU)

Filip Kostic, Sérvia (Juventus-ITA)

Mario Pasalic, Croácia (Atalanta-ITA)

Luka Modric, Croácia (Milan-ITA)

Mateo Kovacic, Croácia (Manchester City-ING)

Marcelo Brozovic, Croácia (Al Nassr-SAU)

Edon Zhegrova, Kosovo (Juventus-ITA)

ATACANTES

Aleksandar Mitrovic, Sérvia (Al Rayyan-CAT)

Dusan Vlahovic, Sérvia (Juventus-ITA)

Ante Budimir, Croácia (Osasuna-ESP)

Ermedin Demirovic, Bósnia (Stuttgart-ALE)

Edin Dzeko, Bósnia (Schalke-ALE)

Benjamin Sesko, Eslovênia (Manchester United-ING)

Vedat Muriqi, Kosovo (Mallorca-ESP)