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Just Fontaine, maior goleador de uma Copa do Mundo, nasceu em Marrocos, virou lenda pela França e teve que se aposentar aos 28 anos

Pelé e Just Fontaine em evento da Fifa em 10 de março de 2014, em Paris, na França Pierre Suu/Getty Images

Atacante que fez 289 gols em 304 jogos na carreira teve seu auge em 1958, mas sua história vai muito além


Just Fontaine jogou apenas uma Copa do Mundo, a de 1958. E foi suficiente para que ele, hoje um senhor de 89 anos de idade, virasse praticamente um sinômino do Mundial. E, como deve ser, uma espécie de assunto obrigatório a ser tratado (ou relembrado) a cada quatro anos. Pudera, seu feito já tem mais de SEIS décadas, e jamais alguém, nem mesmo Pelé, chegou sequer perto de igualá-lo. Superá-lo, então...

E não foi por falta de tempo. Nem de ótimos candidatos. Lá se vão mais de 64 anos desde que o atacante nascido no Marrocos fez incríveis 13 gols em seis jogos pela França na competição da Fifa disputada na Suécia e ganha pelo Brasil. Transformou-se ali no maior artilheiro de uma única Copa e também das Copas, em geral, passando o húgaro Sandor Kócsis, que fizera 11 em cinco partidas em 1954, na Suíça.

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Das Copas, acabou batido 16 anos depois pelo alemão Gerd Müller, que em 1974, na Alemanha, no seu segundo Mundial, fez quatro tentos e, juntando com os dez de 1970, no México, chegou a 14 no total. Mais tarde, Ronaldo Fenômeno anotou 15 em quatro Copas (1994, 1998, 2002 e 2006) e assumiu o posto, que lhe foi tirado pelo alemão Mirolslav Klöse há oito anos, no Brasil, onde chegou a 16 também distribuídos por quatro Mundiais (2002, 2006, 2010 e 2014).

Ah, os candidatos. Além dos já citados, também tivemos Cruyff, Maradona, Romário, Zidane; e temos Neymar, Cristiano Ronaldo, Messi e Mbappé. Nenhum conseguiu.

T R E Z E gols em uma única Copa do Mundo é mesmo algo absurdo. Para se ter uma ideia, até agora, no Qatar, os artilheiros são Messi e Mbappé, cada um com 5 tentos.

Um goleador monstruoso e final gigante contra o Real Madrid

Mas a história de Just Fontaine vai muito além, com direito a gols, gols e mais gols, quase nem ter sido convocado e muito menos titular na Copa de 1958, vários títulos por clubes no Marrocos e na França, aposentadoria pra lá de precoce, um pequeno período como técnico, elogio e lista de Pelé e Chuteira de Ouro ganha tardiamente.

Filho de pai francês, Delphin Louis Martin Fontaine (1900-1976), e mãe espanhola, Maria Dolores Ortega (1908-1997), Just nasceu em 18 de agosto de 1933 em Marraquexe, no Marrocos, então colônia de França e Espanha (a independência dos dois países só veio entre março e abril de 1956), e teve seis irmãos. Mudou-se para Casablanca para estudar em uma unidade escolar francesa e lá começou a jogar futebol, em 1950, no USM Casablanca, no qual ficou até 1953 e ganhou em 1952 o Campeonato Marroquino e também a Copa dos Campeões do Norte da África (torneio extinto que reunia os campeões das colônias francesas de Marrocos, Argélia e Tunísia). Os 62 gols em 48 partidas (média de 1,29 por aparição) chamaram a atenção das equipes da metrópole, e o Nice, então, superou a concorrência e o contratou, aos 19 anos. Vale explicar: naquela época, os principais times franceses eram o Nice, o Stade de Reims e o Saint-Étienne.

Pelo novo clube, Justo, era este seu apelido, balançou as redes 52 vezes em 83 apresentações (média de 0,62) e conquistou a Copa da França de 1953-1954 e o Francês de 1955-1956. O Stade de Reims não teve dúvidas e após o fim daquela temporada o tirou, com 22 anos, do rival para substituir sua principal estrela e um dos melhores jogadores do mundo naquele período, Raymond Kopa (guarde este nome), que acabara de se transferir para o Real Madrid.

Foi um casamento perfeito. Fontaine ficou seis temporadas no clube e levou seis títulos, sendo três do Francês (1957-1958, 1959-1960 e 1961-1962), um da Copa da França (1957-1958) e dois do Troféu dos Campeões (1958 e 1960), que opunha os campeões de Francês e Copa da França, o equivalente hoje à Supercopa da França. O atacante entregou demais: foi o artilheiro do Francês de 1957-1958 com 34 gols, 11 a mais que o segundo colocado, e da edição de 1959-1960, com 28.

Um momento ímpar marca este período: a decisão de 1958-1959 da Copa Europeia, o que atualmente é a Champions League. Assim como em 1955-1956, a final tinha Real Madrid e Stade de Reims, mas desta vez a equipe espanhola, já um timaço com Di Stéfano e Puskás, tinha também Kopa, compatriota de Fontaine, agora no Reims e que passou em branco naquele duelo em Stuttgart, na Alemanha, ganho pelos merengues por 2 a 0. Mas Just, pra variar, acabou mais uma vez como artilheiro de uma disputa, agora com dez gols. Ele era mesmo um goleador monstruoso. Em quatro edições, o Real levava seu quarto título da competição continental.

A seleção, o ano mágico e o apogeu

Fontaine tem uma história incrível de objetividade com a seleção francesa, com 30 gols marcados em apenas 21 partidas, média altíssima de 1,42 por jogo. A mesma começou em 1953, e logo na primeira convocação uma amostra: 3 tentos seus na goleada por 8 a 0 sobre Luxemburgo em um amistoso em dezembro daquele ano.

O atacante não defendeu mais o time nacional em 1954 e 1955; em 1956 e 1957, apenas uma aparição por ano, com nenhuma bola na rede. Então, apesar do sucesso por Nice e Reims, o atleta não era parte efetiva do grupo que foi preparado para defender o país no Mundial da Suécia.

Mas aí veio 1958, o ano mágico para ele. Seu apogeu.

Como tudo tem contexto, vamos a ele. Primeiro, Thadée Cisowski, o principal goleador da França nas eliminatórias, sofreu uma lesão e não pôde ser convocado, abrindo espaço para novos nomes. A poucos dias da Copa, o técnico Albert Batteux avisou Fontaine e Rene Biliard que só um deles seria titular, fazendo o último homem do ataque à frente da estrela Raymond Kopa. Billiard sofreu uma lesão e acabou fora. Fontaine estaria no 11 inicial.

No grupo B, a França estreou com sonoros 7 a 3 sobre o Paraguai, com ‘só’ 3 gols de Just. A parceria letal com Kopa, que não aconteceu no Stade de Reims, dava seu cartão de visitas. Na derrota por 3 a 2 para a então Iugoslávia, o atacante fez mais 2, o que abriu o placar e o do empate em 2 a 2. Na decisão diante da Escócia, triunfo por 2 a 1 com gols de Fontaine (1) e Kopa (1) e vaga nas quartas em primeiro lugar, com os iugoslavos em segundo. Já eram 6 bolas nas redes em três partidas. Nas quartas de final, o camisa 17 fez mais 2 na goleada por 4 a 0 sobre a Irlanda do Norte.

A semifinal contra o Brasil faz parte do que podemos chamar de jogos históricos das Copas do Mundo, tal a quantidade de acontecimentos. Vavá abriu o marcador logo a 2 minutos, e ele, Fontaine, empatou aos 9. Aos 13, o árbitro Benjamin Griffiths não viu o gol de Zagallo, que chutou de três dedos e viu a bola bater no travessão, dentro do gol, voltar no travessão e retornar ao campo. Era um confronto parelho até que aos 35, o zagueiro francês Jonquet fraturou a fíbula após disputa com Vavá e, como não havia substituições à época, seguiu em campo apenas para constar. Aos 39, Didi acertou belíssimo chute e desempatou. Garrincha fez o terceiro antes do intervalo, mas o juiz viu impedimento que não existia e anulou. Não adiantou nada. Na volta, Pelé fez 3 gols entre os minutos 7 e 31 e definiu, com Piantoni ainda descontando no fim. 5 a 2 para a equipe do capitão Bellini e do técnico Vicente Feola, que seria campeã batendo a Suécia, anfitriã, na final também por 5 a 2.

Fontaine saía sem vaga para a decisão, mas já com 9 tentos. Faltavam apenas dois para igualar Kócsis. E ele tinha a disputa do terceiro lugar contra a então Alemanha Ocidental para isto. Foi um espetáculo do atacante, que fez muito mais. Kopa marcou um, Douis outro e Just enfiou 4 bolas nas redes alemãs em um 6 a 3 impiedoso.

O atleta de 24 anos – faria 25 apenas em agosto daquele ano - chegou a 13 gols e estabeleceu ali o recorde que jamais foi quebrado, o de maior artilheiro de uma Copa. Com a do Qatar, lá se vão 16 edições após a de 1958 e ninguém conseguiu repetir tal feito. Como já relatado, Gerd Müller fez 10 em 1970. E Ronaldo Fenômeno fez 8 em 2002. Foram os que chegaram mais próximos. “Não faço ideia se [este recorde] vai ser batido, não sou adivinho. Mas também não sou contra mantê-lo”, disse ele em entrevista à Fifa em 2014.

Também vale destacar: Fontaine fez gol de pé direito, pé esquerdo, por cobertura, driblando o goleiro e de cabeça. Tudo isto com um par de chuteiras emprestado do atacante reserva Stéphane Bruey, uma vez que as suas estavam muito gastas. E tem mais. Marcou em TODAS as seis partidas que atuou. Só o uruguaio Ghiggia em 1950, no Brasil, com um gol em cada um dos quatro jogos que sua seleção fez, e o brasileiro Jairzinho em 1970, no México, com dois gols na estreia e mais um em cada um dos demais cinco confrontos, ostentam tal marca em Mundiais.

Aposentadoria aos 28 anos

Ao todo, Just Fontaine defendeu a França por apenas sete anos corridos, de 1953 a 1960, por isto não disputou mais nenhuma Copa. O motivo? Sérias lesões que não só o fizeram não defender mais seu país como ter que, forçadamente, se aposentar do futebol em julho de 1962, com apenas 28 anos e 11 meses de idade. Foram 289 gols em 304 partidas, média absurda de 0,95 por aparição.

Dos problemas, um dos mais importantes foi em um dos joelhos, pelo qual teve que ser operado no fim de 1957. Segundo ele mesmo, algo que o ajudou a chegar ‘voando’ e ter tal performance na Copa de 1958. “Para [alcançar] o meu recorde na Copa do Mundo, minha grande vantagem foi que fiz uma operação no joelho em dezembro de 1957 e voltei em fevereiro. Isso me deu uma pequena pausa de inverno, o que significou que, em junho, eu estava descansado e os outros, não”, afirmou à Fifa em 2014.

Mas teve mais. Em 1960, entre 26 e 27 anos, o atacante teve duas fraturas na mesma perna em momentos diferentes. Era o começo do fim. Para se ter uma ideia, na temporada 1959-1960, ele fez 30 partidas e anotou 30 gols pelo Stade de Reims; em 1960-1961, foram só 8 jogos e 4 gols; em 1961-1962, de novo apenas 8 aparições, com 5 bolas nas redes.

Técnico, em lista de Pelé e dias atuais

Após se aposentar, Fontaine seguiu por alguns anos ativo no futebol, agora como e/ou diretor esportivo. Em 1967, assumiu a seleção francesa e teve uma passagem relâmpago, com apenas dois jogos – e duas derrotas. Entre 1968 e 1969, comandou o modesto Luchon; entre 1973 e 1976, foi diretor esportivo do então jovem Paris Saint-Germain, fundado em 1970, e o ajudou a chegar à primeira divisão do Francês. Em 1978 e 1979, esteve com o Toulouse; e aí veio seu trabalho mais forte fora das quatro linhas, com a seleção marroquina.

Just assumiu o Marrocos em 1979 e foi até 1981. Na Copa Africana de Nações (CAN) de 1980, na Nigéria, ele conseguiu fazer os Leões do Atlas passarem em segundo lugar no grupo B, atrás da Argélia e à frente de Gana e Guiné, e avançarem à semifinal, fase em que bateram de frente com os donos da casa, que venceram por 1 a 0. Veio a disputa pelo terceiro lugar, e Marrocos o garantiu ganhando do Egito por 2 a 0.

Em 2003, foi agraciado pela Fifa com uma Chuteira de Ouro e colocado como lenda do futebol. Em março de 2004, a Fifa, celebrando então 100 anos, revelou seus 125 maiores jogadores/as da história até ali, entre os que estavam em atividade e os que já tinham parado, e a tarefa da escolha foi dada a Pelé. A ideia inicial era ter apenas 100 nomes na lista, mas o Rei do Futebol alegou muita dificuldade na indicação de apenas uma centena e foi autorizado a ampliar a mesma em 25. Just Fontaine estava na relação.

Hoje um senhor de 89 anos, o ex-atacante que fez história e chocou o mundo com a camisa 17 da França na Copa do Mundo de 1958 vive em Toulouse, recluso com a esposa e sem aparições públicas. A ESPN tentou entrevistá-lo há cerca de seis meses, mas teve o pedido negado.

Embora debilitado e com muitas falhas de memória, Fontaine, segundo a esposa, ainda se recorda de todos os seus 13 gols na Suécia.

* Colaborou Julien Laurens, de Doha (Qatar)