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País dos meio-campistas, Espanha não evolui em nada com Luis Enrique e segue com 'medo' do gol

Espanha falha na primeira Copa sob comando do ex-meia do Barcelona e amarga eliminação para Marrocos nos pênaltis


O título da Eurocopa de 2008 foi um marco para a Espanha. Ali, começava uma rara sequência de conquistas (Copa do Mundo de 2010 e Euro de 2012) que, mais do que troféus, deixou como herança para La Roja uma identidade. Começava a era do 'Tiki Taka', um jogo baseado na posse de bola como instrumento de dominação do adversário.

O trabalho iniciado na seleção por Luis Aragonés (falecido em 2014 aos 75 anos de idade) teve sequência pelas mãos de Vicente del Bosque, mas sofreu nítida influência do Barcelona de Pep Guardiola e que anos mais tarde viria a ser treinado por Luis Enrique, condutor da Espanha eliminada por Marrocos nas oitavas de final nesta Copa no Qatar.

MARROCOS 0 (3) x (0) 0 ESPANHA: ASSISTA PELA ESPN NO STAR+ AO COMPACTO DO JOGO COM NARRAÇÃO DE ROGÉRIO VAUGHAN E COMENTÁRIOS DE VITOR BIRNER

Aquela geração tinha como referências técnicas os meio-campistas Xavi (hoje técnico do Barça) e Iniesta. Jogadores com excelente passe, capacidade de cadenciar o jogo e reter a posse de bola. Toda uma nova geração de atletas foi moldada nas escolinhas espanholas sob a influência da dupla que por muitos anos ditou o ritmo no meio-campo barcelonista.

O resultado disso está aí. Pedri e Gavi são os seus sucessores e controlam as ações no mesmo clube e na mesma seleção. A ideia continua sendo a mesma – uma posse de bola massiva, quase obsessiva. O controle do jogo a partir dos passes de primeira e do giro de um lado para o outro. O adversário fica perdido com tanta qualidade nesse toque.

As medições de posse de bola (76,5%) e de passes (800 por jogo) da Espanha explodiram neste Mundial. Mas um time que gosta muito de ter a bola parece encontrar alguma dificuldade em se desfazer dela. Mesmo que seja para tentar fazer gol, que é simplesmente o objetivo do jogo.

A Espanha virou o país dos meio-campistas.

Nesta Copa, a Fúria precisou de 76 passes para cada finalização, enquanto o Brasil precisou de 32, logo, menos da metade. Aquela seleção campeã de três grandes torneios em sequência não tinha atacantes do mesmo nível de seus meias, mas David Villa e Fernando Torres se fizeram presentes em momentos decisivos marcando gols importantes para as conquistas da geração. Depois que eles saíram de cena, os títulos sumiram. Os espanhóis tentaram adaptar Diego Costa na posição em 2018, na Rússia, mas apesar de ele ter feito gols, La Roja não foi adiante.

Este time de Luis Enrique tinha um centroavante, Morata. Que ficou a maior parte do tempo na reserva. O técnico preferia começar com Asensio fazendo um falso 9. Não levou para o Qatar nomes como Borja Iglesias e Raul de Tomas, centroavantes característicos que chegaram a ser convocados no ciclo. Nem o habilidoso e agressivo Iago Aspas. Nenhum deles é o centroavante dos sonhos, mas todos poderiam ter contribuído para acabar com a falta de profundidade do time. Que já era nítida nas competições anteriores.

Luis Enrique não conseguiu deixar como legado uma evolução na escola espanhola. O dever de casa para o próximo treinador é desenvolver o jogo no chamado último terço. E para a Espanha, como um todo, é trabalhar a formação de novos atacantes, de jogadores mais agudos e objetivos. Acima de tudo, estimular o interesse pelo ataque. Livrar o time das amarras do passe seguro e autorizar a ousadia. O medo de finalizar se materializou até na disputa de pênaltis contra Marrocos, que venceu a mesma por 3 a 0 após um 0 a 0 que durou todo o tempo normal mais a prorrogação.

O falecido craque Dener certa vez disse que achava um drible mais bonito que um gol. Era o que ele fazia de melhor. A Espanha precisa parar de achar o passe mais bonito que a finalização, a posse de bola melhor do que a vitória. No dia que conseguir isso, será mais uma vez brilhante e vencedora.