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Ele foi roubado pela máfia, estava desempregado há dois anos e agora é o paredão da Holanda e atleta mais alto da história das Copas

Noppert faz a defesa durante jogo da Holanda na Copa do Mundo ADRIAN DENNIS/AFP via Getty Images

Andries Noppert passou quase toda a carreira na reserva e estreou pela seleção holandesa justamente no primeiro jogo da Copa


Um dos grandes baratos da Copa do Mundo são as histórias inusitadas de alguns atletas que já viveram situações complicadas, mas hoje em dia estão no ápice, atuando no torneio mais importante do futebol.

Andries Noppert, goleiro holandês de 28 anos, é um desses muitos casos. Com 2,03 m, ele se tornou o atleta mais alto da história das Copas. O jogo contra o Senegal, na estreia no Mundial do Qatar, aliás, foi o primeiro de Noppert na seleção principal da Holanda.

Uma aposta do excêntrico técnico Louis van Gaal e que até o momento está dando resultado, já que o camisa 23 se destacou durante a primeira fase, sofrendo apenas um gol, e é uma das armas da equipe para as oitavas de final, contra os Estados Unidos, neste sábado (3).

"Não me surpreende de forma nenhuma ele estar tão bem na Copa do Mundo. Trabalhando no dia a dia, via a capacidade dele. Sabia que ele conseguiria se firmar. O que me surpreendeu foi a forma como chegou à Copa. Foi muito rápido. Ele está apresentando um grande trabalho e é um jogador e uma pessoa maravilhosa", comemora Lucas Chiaretti, ex-meia que atuou ao lado de Noppert no Foggia.

O brasileiro e o holandês ficaram bem próximos, até pelo interesse de Noppert pelo Brasil, e assim eles passaram situações divertidas juntos: "Ele perguntava algumas vezes sobre o futebol brasileiro e sobre as praias. A altura dele chama muita atenção. Por onde passava, não tinha como não conhecê-lo. Eu tenho 1,71 m e ficava ainda mais estranho estar ao lado dele. Um dia a gente estava em um bar e chegaram torcedores do Foggia. Ele puxou um canto dos torcedores e ninguém esperava. Foi algo bacana."

Apesar da grande amizade com Lucas, a passagem pelo clube italiano não foi das melhores para o goleiro. Ele foi contratado após apenas seis jogos em quatro temporadas no NAC Breda e decidiu ir de carro da Holanda até a Itália. Quando chegava, seu veículo foi roubado por mafiosos. Depois, vivenciou cenas de horror, conforme relatou em entrevista antiga à ESPN.

"Meu carro foi roubado, mas consegui recuperá-lo da máfia. Quando perdíamos, não podíamos circular pela cidade, já que os torcedores esvaziavam os pneus de nossos carros ou faziam bombas explodirem em nossos quintais."

Como se não bastasse as ameaças, Noppert ainda pouco entrava em campo, conforme contou o ex-colega. "Ele jogou pouco porque o primeiro goleiro era o Albano Bizzarri, que jogou no Real Madrid e na seleção argentina. Depois teve a concorrência de um goleiro que chegou para jogar. Ele entrou no time depois, mas o Foggia faliu. Ele com certeza teria um espaço maior pelo que tinha apresentado."

O goleiro então decidiu voltar à Holanda, para jogar no desconhecido Dordrecht. Mais uma vez, não conseguiu emplacar e foi dispensado em junho de 2020. Arrumou uma nova oportunidade apenas em janeiro de 2021, no Go Ahead Eagles. E finalmente sua vida deu uma grande volta por cima. Ele foi titular absoluto e, em 2022, se transferiu para o Heerenveen, clube de sua cidade natal e onde iniciou a carreira.

E a boa fase seguiu. Tanto é que ele passou a ser especulado na seleção, algo que, há alguns meses, era inimaginável para o goleirão de 2,03 m. Em abril, quando questionado sobre uma possível convocação, Andries riu e brincou: "Na seleção da Frísia?", fazendo referência à província holandesa onde nasceu.

Mas ele chegou lá. E foi chamado pela primeira vez por Van Gaal em setembro, para jogos da Liga das Nações. Dois meses depois, foi confirmado na Copa. "Ele ficou um tempo desempregado depois do Foggia, passou um período difícil para voltar a jogar futebol em um clube que desse uma sequencia boa. Uma vez que conseguiu, a convocação para a Holanda foi rápida", conta Lucas Chiaretti, que além do Foggia, atuou por vários outros clubes italianos e, no Brasil, passou por Cruzeiro.

Segundo o meia, aposentado desde 2020, a altura de Noppert pode ter sido um diferencial para ele ter vencido a disputa com Renko Pasveer e Justin Bijlow: "Ele sempre foi um goleiro muito elástico e rápido, mesmo sendo muito alto. Ele é magro, sabe jogar bem com os pés e eu tinha muita tranquilidade para recuar a bola para ele. Bola alta nem precisa falar, as saídas dele de gol eram ótimas. Os times adversários procuravam sempre bater faltas e escanteios mais abertos, porque ele pegava todas", encerrou.