Conheça a história por trás de um dos grandes clássicos sobre a Seleção Brasileira
Luiz Américo não foi o compositor da música “Camisa 10”, mas deu vida à canção que chegou a ele meio que do além, quando o álbum homônimo, lançado antes da Copa do Mundo de 1974, já estava fechado.
O cantor conta com detalhes como “Camisa 10” entrou no lugar de uma música censurada pelo regime militar.
A conversa com o cantor e compositor Luiz Américo bem que poderia ter início numa mesa de bar ou numa roda de samba. Mas o encontro com Luiz Américo, um dos maiores sambistas do Brasil, aconteceu em seu apartamento, com vista para o mar na praia das Astúrias, no Guarujá, litoral paulista.
Um sábado de um lindo sol e com uma temperatura ideal pra bater um papo com uma verdadeira lenda do samba, aos 76 anos de idade.
Américo Francisco Filho é mesmo um vencedor. Saiu dos morros, das favelas de Santos, no litoral, para tornar-se um dos sambistas mais conhecidos do Brasil.
Com a força dos morros, Luiz ganhou amigos no futebol. Com a malandragem da quebrada, desenvolveu verdadeiros hinos no rico samba dos anos 1970. Da favela vieram com ele a espiritualidade, a batida do tambor e a linguagem da Umbanda.
Da comunidade também veio a força para meter as caras em programas de rádio e televisão na busca da fama. Chegou a participar de programas de calouros, inclusive do apresentador Silvio Santos, ainda na TV Globo.
Com letras inspiradas no cotidiano da comunidade e na espiritualidade, certo dia Luiz Américo compôs: “Fio da Véia”, a primeira música que fez homenageando a mãe Dona Maria. O fato curioso para Luiz escrever a música aconteceu quando ele se depara com sua mãe fumando um charuto.
“Malandro, me lembro como se fosse hoje. Estava chegando em casa quando vi a minha mãe fumando um charuto, me assustei. Pô, mãe. A senhora nunca fumou um cigarro e agora tá fumando esse charuto? Em seguida, com a voz completamente alterada, ela respondeu: Sai daqui, moleque. Não sou sua mãe coisa nenhuma, sou o Caboclo. E assim escrevi o Fio da Véia”, relembra o sambista aos risos...
Toda vez que Luiz contava a história de uma música, ele pegava o violão, que estava ao lado e tocava. Foi assim com “Acabou o gás”, música muito atual, apesar de ter passado quase meio século, entre outras. Mas Luiz arrebentou mesmo quando recebeu, de um compositor até então desconhecido, a letra “Camisa 10”, de Hélio Matheus e Luis Vagner.
Luiz conta que um dia quando se apresentava no programa do Chacrinha, um cara com uma viola nas costas desembarcou do interior do Rio de Janeiro atrás dele nos estúdios da Globo. Era o compositor Luiz Vagner, que abordou Américo o escalando para interpretar a música que ele e o parceiro haviam feito para homenagear Pelé e, de uma forma bem humorada, cornetar o técnico Zagallo e seus comandados, que não eram os mesmo da seleção tricampeã no México na Copa de 1970.
Luiz Vagner colocou na cabeça que não existia outro intérprete para aquela obra, já que Luiz Américo, além de ter a voz e o perfil para cantar a música, era um cara muito envolvido com a boleirada e os craques da época. Aliás, Américo tentou jogar bola, não com a camisa 10, mas com a 8 onde teve passagem rápida na Portuguesa Santista.
“Camisa 10” foi a canção que transformou o sambista em astro no Brasil inteiro. Assim que lançada, entre o final de 1973 nas rádios e início de 1974 pelo álbum homônimo, Luiz Américo se tornou uma estrela da música nacional, requisitado em vários programas de rádio e televisão.
E pensar que “Camisa 10” só entrou no disco por conta de uma outra música feita para a mãe, Dona Maria, desta vez cesurada pela ditadura militar.
“O disco estava fechado para o lançamento. Não tinha mais como colocar mais uma música. Mas, veja como são as coisas. No álbum, eu tinha feito uma canção homenageando mais uma vez a Maria, minha mãe. E não é que algum gênio da ditadura achou que eu estava querendo dizer que toda Maria era prostituta? Você acha que alguém escreveria uma música chamando a própria mãe de p...?”, espanta-se.
Quando o Luiz Vagner me procurou e me levou a música, eu o convidei para ir comigo para o hotel, onde fiz alguns acertos na canção. Pouca coisa, refrão e adaptei a minha voz, do jeito malandro de cantar o samba na letra deles. Cara, isso só pode ser coisa do além, da espiritualidade, pois como explicar a decepção de uma censura e ser agraciado por uma canção que mudou a minha vida?”, questiona feliz da vida Luiz Américo.
A música que consagrou o sambista Luiz Américo foi a única que fez sucesso da dupla Matheus e Luiz Vagner. Luiz guarda muitas histórias da música e da bola. Guarda o respeito de Zagallo, Rivelino, Jairzinho, Luis Pereira, enfim, só o goleiro Leão que levou muito a sério a música, que tinha um certo tom de crítica bem-humorada à seleção de 1974, que já não tinha o camisa 10 mais famoso, Pelé.
Com o violão, Luiz Américo deu um show particular no apartamento dele para a nossa equipe. Mas, para aqueles que querem vê-lo em ação, é só ir ao galpão do samba no Guarujá, onde os filhos se apresentam com ele, todos os sábados, na cidade do Guarujá.
Lá os amantes do samba curtem um dia com muita música, feijoada e saudosismo de uma época que não volta mais. Na casa de shows. Luiz Américo canta e encanta antigas e novas gerações.
