ESPN esteve presente em Doha, no Qatar, e traz resposta a oito perguntas sobre a Copa do Mundo, que terá o pontapé inicial dado daqui 58 dias
Faltam apenas dois meses para a Copa do Mundo de 2022. Doze anos depois de receber os direitos de sediar o torneio, o pequeno estado do Qatar, no Golfo, construiu os estádios, abriu rodovias de cinco pistas e um sistema de metrô de US$ 36 bilhões, empreendeu um enorme esforço de construção em um cronograma exaustivo para garantir que os torcedores de todo o mundo pudessem participar da competição de um mês. Mas com o grande pontapé inicial daqui a algumas semanas, quão pronto está o Qatar para realizá-lo?
A ESPN viajou para Doha no início deste mês para avaliar os preparativos e a prontidão do país para sediar a primeira Copa do Mundo, a primeira a ser realizada no Oriente Médio.
Todos os grandes torneios - Copa do Mundo, Jogos Olímpicos - acontecem em meio a preocupações de estádios não estarem prontos, problemas de segurança, acomodações caras e viagens para os torcedores, e o Qatar não é diferente. A realidade do país é que, faltando apenas 61 dias para o jogo de abertura entre Qatar e Equador, há boas e más notícias à medida que o relógio avança para o torneio de 32 equipes.
Quão pronto está o Qatar?
Quando o Lusail Iconic Stadium, com capacidade para 80.000 pessoas, sediou um amistoso entre o Zamalek, do Egito, e o Al-Ahly, da Arábia Saudita, em 9 de setembro, foi o último dos sete novos estádios (Estádio Internacional Khalifa inaugurado em 1976) construídos para a Copa do Mundo oficialmente abrir suas portas. O Lusail sediará a final em 18 de dezembro, e é um estádio espetacular: pense no Tottenham Hotspur Stadium (ambos foram projetados pelos arquitetos do estádio Populous), porém maior.
Todos os sete novos edifícios estão prontos e testados para a Copa do Mundo, enquanto os designs impressionantes do Estádio Al-Bayt e Al Janoub, em forma de pérola, garantirão que o Qatar obtenha 10 de 10 em estética e estilística. Mas assim como as vastas rodovias de cinco linhas e o sistema de metrô estão prontos para conectar os torcedores entre os estádios, com a viagem mais longa não mais do que uma hora de Al Janoub, no sul, a Al Bayt, no norte, há muito pouco em termos de amenidades dos torcedores com apenas algumas semanas antes do jogo de abertura.
Alguns estádios são cercados por depósitos de poeira - enormes áreas de deserto, canteiros de obras ou estacionamentos vazios - sem hotéis, lojas ou cafés por quilômetros. Os organizadores disseram à ESPN que todos os estádios terão zonas de torcedores, barracas de comida e áreas de diversão até a Copa do Mundo, mas ainda há muito o que fazer.
A acomodação também será uma preocupação. Neste momento, o Qatar é um enorme canteiro de obras. Alguns hotéis e apartamentos estarão prontos, outros claramente não serão concluídos a tempo. Em torno do Lusail, um projeto de cinco anos para construir hotéis, restaurantes, lojas e apartamentos ainda está a anos, não meses, de ser concluído.
Onde ficarão os torcedores?
O Comitê Supremo do Qatar, encarregado de entregar a Copa do Mundo, espera que 1,3 milhão de torcedores visitem o país durante o torneio, um número equivalente a metade da população total atual. E aqui está a má notícia: não haverá espaço suficiente para todos.
No início deste ano, o Qatar concordou com 160 voos diários entre Doha e os Emirados Árabes Unidos para permitir que os torcedores peguem o voo de 40 minutos de Dubai e Abu Dhabi. A rota é normalmente servida por apenas seis voos por dia.
No próprio Qatar, as opções limitadas variam de cápsulas para dormir (US$ 80 por noite) à opulência de Banana Island, a 20 minutos de barco de Doha, que oferece villas de praia sobre palafitas acima da água por £ 2.500 por noite (R$ 14,4 mil). Fontes da Banana Island disseram à ESPN que as reservas já foram feitas pelas famílias dos jogadores da França e da Inglaterra. Enquanto isso, 80% dos quartos de hotel em Doha foram reservados pelo Comitê Supremo e pela FIFA para equipes e oficiais, embora 20.000 quartos devam ser liberados no mês anterior ao torneio.
Haverá acampamentos com barracas, semelhantes aos oferecidos em festivais de música como Coachella e Glastonbury, com uma barraca de luxo em oferta por US$ 380 (R$ 1,9 mil) por noite no Al Khor. Mas enquanto milhares de chalés estão programados para serem oferecidos no Al Wakrah Camp, por US$ 190 (R$ 976) por noite, eles oferecem pouco em termos de luxo no momento. Atualmente, são fileiras de cabanas de metal no deserto pelas quais as imagens falam por si.
Os organizadores insistem que estarão prontos e atraentes a tempo da Copa do Mundo, mas serão um choque cultural para muitos torcedores.
Pode álcool?
O álcool está disponível no Qatar, mas é estritamente regulamentado e continuará sendo controlado durante a Copa do Mundo. A ESPN perguntou ao chefe de segurança do Comitê Supremo se os fãs poderiam trazer seu próprio álcool para o país e a resposta foi um firme "não".
Os torcedores com muito dinheiro de sobra podem visitar um dos muitos hotéis de luxo em Doha e comprar bebidas alcoólicas nos bares e pubs esportivos dentro deles. Os preços da cerveja no Inter Continental Beach, Marriott Marquis e Kempinski Pearl - o USMNT reservou o Kempinski como base - variam entre £ 12-14 (R$ 69-81) por uma cerveja.
O álcool estará disponível para os torcedores nos estádios antes e depois do jogo, mas não poderão comprar uma cerveja e assistir ao jogo das arquibancadas. A Budweiser, patrocinadora da Copa do Mundo, fornecerá a cerveja nos estádios e nas fan zones. A zona de torcedores com capacidade para 40.000 pessoas no Al Bidda Park, no centro de Doha, servirá álcool em dias de jogos, mas somente após 18h30 até 1h.
Residentes não muçulmanos no Qatar podem obter uma permissão para comprar álcool da Qatar Distribution Company, mas não há planos para diminuir as restrições para os visitantes comprarem álcool fora de hotéis, restaurantes e zonas de fãs durante a Copa do Mundo. Embora as fontes tenham dito que é improvável que as autoridades imponham medidas draconianas aos fãs pegos com álcool fora das zonas autorizadas, beber em público pode levar a uma sentença de seis meses de prisão ou multa de US$ 800 (R$ 4,6 mil).
Logísitca entre os estádios
O Qatar é pequeno - muito pequeno, aproximadamente do tamanho de Connecticut ou metade do tamanho do País de Gales - então não haverá jornadas árduas para os torcedores como nas últimas Copas do Mundo na Rússia no Brasil. E a boa notícia é que o país construiu novas estradas e um sistema de metrô que conecta todos os estádios. O metrô custa apenas 6 riais (US$ 1,65/R$ 8,4) por um passe de um dia e será gratuito durante a Copa do Mundo para torcedores com ingressos para os jogos.
Ubers estão amplamente disponíveis e também baratos. Uma viagem de 30 minutos do Aeroporto Internacional de Hamad até o centro de Doha custa apenas 40 riais (US$ 11/R$ 56).
Os fãs poderiam andar de metrô entre todos os oito locais e fazê-los em pouco mais de duas horas se estivessem se sentindo aventureiros. A entrada no Qatar dependerá de ter um ingresso para a partida e baixar o aplicativo Hayya, que permitirá que os torcedores exibam seu ingresso, mas também é necessário para acesso a transportes, hotéis, restaurantes e algumas lojas e shoppings.
Ar-condicionado nos estádios?
Todos os estádios, com exceção do 974 Stadium, terão ar-condicionado para espectadores e jogadores durante o torneio, embora possa não ser necessário devido às temperaturas em novembro e dezembro que dificilmente chegarão a 30ºC. A temperatura nas arquibancadas será regulada para ficar entre 21-22ºC durante os jogos. As aberturas no nível do assento bombearão ar fresco, então os torcedores podem até precisar levar um casaco para alguns jogos para evitar sentir frio.
Ao nível do campo, o ar-condicionado vem de enormes aberturas ao lado da superfície de jogo que serão controladas por 350 sensores diferentes enterrados sob a grama. Eles medirão a temperatura e a umidade, enquanto o sistema de ar condicionado ajustará a temperatura de acordo com os jogadores em campo.
O ar também será atualizado constantemente para garantir a melhor qualidade do ar, filtrando poeira e pólen e também fornecendo ventilação para ajudar a combater a propagação de vírus como o COVID-19.
Dr. Saud Abdulaziz Abdul Ghani - apelidado de "Dr. Cool" - projetou o sistema de ar condicionado dos estádios da Copa do Mundo, incluindo o sistema de torná-los ecologicamente corretos. As fazendas solares localizadas a 30 milhas de Doha irão gerar, diariamente, 10 vezes mais eletricidade do que o necessário para alimentar as unidades de ar condicionado.
O Qatar é seguro?
Todo grande torneio ou evento agora é acompanhado por uma grande operação de segurança, e no Qatar não será diferente. Devido ao tamanho de suas forças de segurança, especialistas serão recrutados das nações vizinhas. A Força Aérea Real do Reino Unido ajudará a patrulhar os céus durante o torneio, enquanto a Base Aérea dos EUA em Al Udeid também fornecerá suporte de segurança e inteligência.
No terreno, o Qatar construiu um centro de controle ao estilo da NASA na Aspire Zone como o centro para controlar o que acontece dentro de cada estádio durante a Copa do Mundo. Cada estádio tem pelo menos 2.000 câmeras de segurança para monitorar catracas e fluxo de multidão, enquanto os operadores podem ampliar cada assento individual para controle de multidão. Programas de inteligência artificial acionarão sistemas de alerta se o fluxo de multidões for muito grande ou muito pequeno em horários específicos.
Quando perguntado se o sistema poderia ter evitado as cenas de multidão que marcaram a final da Champions League entre Liverpool e Real Madrid em Paris em maio, Niyas Abdulrahiman, diretor de tecnologia da Aspire Zone, disse à ESPN: "Se uma situação de multidão se formar, vamos detectá-lo e agir proativamente. Cada canto do estádio está sob vigilância."
E embora a segurança cibernética nunca possa ser dada como garantida, uma tela de vídeo destacando o nível de ameaça cibernética em todo o mundo correu ao lado das telas de dados do estádio para enfatizar sua conscientização sobre o possível direcionamento do sistema por hackers.
Ingressos esgotados ou altos custos podem atrapalhar?
A FIFA vendeu ingressos em etapas para o Qatar 2022, com 2,5 milhões já comprados por torcedores em todo o mundo. A maior aceitação foi da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos, mas Estados Unidos, México, Inglaterra e Brasil também têm sido fortes mercados para a compra de passagens.
Os 500.000 ingressos finais devem ser colocados à venda antes do final de setembro, então a Copa deve ser disputada em estádios cheios, independentemente das equipes envolvidas. Mas enquanto os torcedores na Europa e nas Américas manifestaram preocupação com as dificuldades de chegar e permanecer no Qatar, a empolgação no Oriente Médio e regiões vizinhas tem sido enorme.
Os organizadores esperam que os fãs do Irã e do norte da África viajem em maior número do que nunca, enquanto os expatriados que vivem e trabalham no Qatar também devem assistir suas nações em ação. Mas se você quer ir ao torneio e ainda não tem passagem, precisa ser rápido para conseguir.
Avaliação geral
Será uma Copa do Mundo diferente de todas as anteriores, mas os elementos cruciais estão prontos agora que os estádios e os projetos de infraestrutura foram concluídos.
A falta de alojamento será um problema. Fontes disseram à ESPN que a mentalidade do Qatar é deixar as coisas para a última hora, mas que eles sempre entregam. Fontes também disseram que essa abordagem chocou alguns na FIFA que esperam que todos os projetos funcionem como um relógio.
Houve pouca preocupação óbvia no Qatar de que o tempo está acabando para que o trabalho seja concluído, mas os torcedores podem ter que se preparar para um torneio sem as distrações fora de campo das Copas do Mundo em diferentes partes do mundo. As instalações já são de classe mundial e o clima deve garantir condições perfeitas para o futebol.
Mas a grande questão é se um país tão pequeno pode lidar com um fluxo tão grande de apoiadores de todo o mundo. Essa é a pergunta que só poderá ser respondida quando tudo estiver funcionando em 61 dias.
