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OPINIÃO: A arbitragem é um problema útil a muitos

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Renata Ruel desabafa sobre erros em jogos no Brasil e dispara contra a CBF: 'A arbitragem está perdida'; VEJA (2:30)

Arbitragem foi polêmica em vários jogos da 27ª rodada do Campeonato Brasileiro (2:30)

Uma rara coluna separada por assuntos, para que a compreensão seja alcançável e clara até para quem não tem essa intenção.

Sobre a arbitragem em São Paulo x Palmeiras:
O São Paulo foi gravemente prejudicado no clássico por - pelo menos - um pênalti não assinalado e um cartão vermelho não exibido. O que se viu no Morumbi ultrapassa os contornos do que é normal até mesmo pelos padrões anormais de erros do apito no Brasil. A palavra "escândalo" não é exagerada, mesmo considerando que um pênalti não é um gol automático e que uma equipe em superioridade numérica nem sempre leva vantagem, mas as circunstâncias do jogo permitem afirmar que, não houvesse os erros, as chances de uma derrota são-paulina seriam muito pequenas.

Sobre as declarações de Hernán Crespo:
Por mais que se queira, é muito difícil acreditar em Crespo quando ele diz - letra por letra - que nunca viu nada igual em 32 anos de futebol como jogador e treinador. Por favor. Crespo atuou na Argentina e na Itália numa época em que o jogo de futebol não era tão ostensivamente investigado pela televisão e, por óbvio, não havia VAR. É impossível que ele não tenha visto coisas multo mais assustadoras do que o que se passou no domingo (5). O exagero, claro, o auxilia a não ter que elaborar sobre a dificuldade de seu time a se ajustar às mudanças feitas por Abel Ferreira no segundo-tempo, entre outros assuntos incômodos.

Sobre as declarações de Abel Ferreira:
Vamos nos ater, desta vez, ao que o técnico do Palmeiras não disse, desperdiçando uma gigantesca oportunidade de fazer o que é certo: "Hoje, meu adversário foi muito prejudicado pelos erros da arbitragem. Como já aconteceu comigo e reclamei muito, hoje, não posso deixar de registrar que o Palmeiras foi beneficiado." Bastava que tivesse dito isso e seria elogiado pela coerência, além de colaborar para o debate. Ao tentar aplicar uma dinâmica fictícia ao lance do pênalti em Tapia, Abel se juntou ao mais do mesmo. Uma pena.

Sobre as declarações de José Boto:
É lastimável que, após uma derrota justa em que o Flamengo teve dois jogadores expulsos, o dirigente rubro-negro tenha preferido falar sobre a arbitragem de outra partida. É mais lastimável ainda que, ao fazer declarações específicas sobre um árbitro, Boto tente escapar de suas responsabilidades ao acrescentar que não estava "a acusar ninguém". Mas o pior de tudo é o final do raciocínio: "como estrangeiro, isso não me cheira bem". Note o ar de superioridade que o dirigente português (com carreira desenvolvida em seu país, na Ucrânia, na Grécia e na Croácia) não faz questão nenhuma de disfarçar. É mais um ato falho de quem pensa que veio ao futebol brasileiro - uma espécie de selva da bola, sob tal perspectiva - para ensinar, mas se cala quando seu time vence. Quem age assim não pretende colaborar para resolver um problema que afeta a todos, apenas pressionar e elevar a temperatura da conversa. É o mesmo tipo de postura de João Martins, assistente de Abel, que falou sobre o "sistema" que impediria o bicampeonato brasileiro do Palmeiras em 2023. Ou a "cruzada" de John Textor contra a corrupção na arbitragem, que chegou até Brasília, mas silenciou após os títulos do Botafogo no ano passado. As massas, obviamente, preferem aderir a pensar.

Sobre a CBF, a punição aos membros da equipe de arbitragem e um problema sem solução à vista:
Do ponto de vista prático, a suspensão de árbitros não faz diferença alguma. Faria, se a arbitragem brasileira fosse profissional e independente. Como não é nem uma coisa e nem outra, trata-se apenas de uma satisfação inócua aos indignados da vez. O problema, como se sabe, é estrutural. A CBF não abre mão do controle do apito e os clubes adoram a opção de reclamar para se justificar perante suas torcidas, que, ano após ano, adotam as mesmas reclamações como se fossem as únicas vítimas de grandes operações criminosas. Seguirá assim.