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'Eu sou bagulho doido.' Lateral hoje na Série A foi ovacionado após cumprir o que prometeu, virou 'homem de confiança' e até cobrou apostadores

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Procurador-geral do STJD faz promessa em meio a escândalo de apostas: 'Nada vai passar em vão; vamos sim punir' (1:45)

Ronaldo Piacente participou do ESPN FC nesta quarta-feira (10) (1:45)

O lateral-direito Mateusinho, que pertence ao Cuiabá, é mais um nome que aparece em diálogos obtidos pela Operação ‘Penalidade Máxima II’, que investiga manipulação e ações indevidas no esporte mais popular do país.

A operação tocada pelo Ministério Público de Goiás (MP-GO) investiga um esquema envolvendo jogadores e grupos criminosos, que ganhavam dinheiro com apostas relacionadas a lances específicos em partidas das Séries A e B do Campeonato Brasileiro, além de partidas de torneios estaduais. As competições analisadas são de 2022.

O ESPN.com.br teve acesso ao processo, que mostra inúmeros diálogos envolvendo o lateral-direito, à época no Sampaio Corrêa, com intermediadores de apostas. Mateusinho teve o celular apreendido durante a operação.

Os documentos do processo mostram que o lateral fazia parte de um grupo de mensagens com sete pessoas. Em determinado momento da conversa, Mateusinho indica que cometeria uma falta dura de propósito para ser punido com cartão amarelo ou vermelho.

“Pacilo, pô rapá eu sou bagulho doido. Me deu uma missão pra mim matar... ou mato ou morro mano. Não tinha jeito mano. Eu falei Ihh.. Alguém vai se f** aí, porque eu vou dar o carrinho”, disse o lateral em áudio transcrito pelo Ministério Público de Goiás.

“A missão foi cumprida, eu ia largar de barriga”, diz o atleta adiante no diálogo. Em seguida, Mateusinho é parabenizado pelos demais nomes do grupo e é tido como um ‘homem de confiança’ por parte dos apostadores.

“Ai ai, tu a partir de hoje tu cresceu muito comigo véi. Tu é como juvenil, mas agora é profissional. Tamo junto. Descansar aqui também, que a mulher já tá olhando torto porque eu tô só no celular. Valeu rapaziada. Até amanhã”, escreve um integrante do grupo de mensagens identificado apenas como 'Ps zagueiro'.

“Nada, deixa eu como juvenil pai. Eu quero sempre ser o menor da casa. Entendeu?”, responde Mateusinho.

Em um outro momento, o lateral-direito recorre aos intermediadores ao dizer que precisa ‘fazer um dinheiro’ e se coloca à disposição até mesmo para ajudar a organizar uma manipulação. No diálogo, Mateusinho sugere o confronto entre Goytacaz e Belford Roxo, uma vez que tinha um amigo que atuava pelo Belford Roxo e poderia ajudar.

“Fala Vitão, manda a boa pra nóis. Tô durinho meu irmão. Entendeu? Fazer um dinheiro aí com a tipiçazinha de... Pô pra botar cem para mil. 100 (cem) pra qualquer coisa aqui. Fala com nóis. Boa tarde”.

“Tô na luta pra nóis aqui, tô na luta. Vamos ver se sai pelo menos uma fezinha pra nóis aí. Fechar essa daí... pra respirar todo mundo”, responde um dos sete nomes presentes no grupo. “Fechar e bater ne? É o mais difícil. Fechar ainda é fácil”.

“É isso aí... Mas ai tu manda antes pô. Pelo menos uma meia hora antes de começar que aí dá pra entrar”, escreve o lateral, que indica o jogo do Carioca como opção. “Ah tô ligado, tô ligado. Não aparece nenhuma do carioca aí não? Goytacaz e Belford Roxo? Vê ai”.

“Vê se aparece aí. Vai lá em carioca lá. Campeonato carioca. Goytacaz e Belford Roxo. Tem um parceiro meu aqui que joga no Belford Roxo”, finaliza.

Por fim, nas páginas seguintes do processo, Mateusinho aparece irritado com um suposto não pagamento realizado após o cumprimento de uma aposta. O lateral-direito fala inúmeras vezes em ‘cobrar os caras’.

“Mano os cara não tá cobrando dos maluco lá? Então pronto mano. Nóis tem que cobrar aqui. Se fosse nóis os cara ia tá em cima cobrando igual eles tão em cima dos cara lá. Ué... então tem que cobrar mesmo fí”.

Apesar de ter sido flagrado na Operação ‘Penalidade Máxima II’, Mateusinho não foi afastado pelo Cuiabá e segue em atividade pelo clube. O atleta foi relacionado e esteve no banco de reservas durante a goleada de 4 a 0 sofrida para o Atlético-MG, em casa, na última quarta-feira (10), pelo Campeonato Brasileiro.

Veja abaixo quais são os jogos que estão sob investigação na Série A

Quais jogadores estão sendo investigados?

  • Eduardo Bauermann (Santos)

  • Gabriel Tota (Ypiranga-RS)

  • Victor Ramos (Chapecoense)

  • Igor Cariús (Sport)

  • Paulo Miranda (Náutico)

  • Fernando Neto (São Bernardo)

  • Matheus Gomes (Sergipe)

Quais jogadores também foram citados no processo?

  • Vitor Mendes (Fluminense)

  • Richard (Cruzeiro)

  • Nino Paraíba (América-MG)

  • Dadá Belmonte (América-MG)

  • Kevin Lomonaco (Red Bull Bragantino)

  • Moraes Jr. (Juventude)

  • Nikolas Farias (Novo Hamburgo)

  • Jarro Pedroso (Inter de Santa Maria)

  • Nathan (Grêmio)

  • Pedrinho (Athletico-PR)

  • Bryan García (Athletico-PR)

Apostadores e membros da organização

  • Bruno Lopez de Moura

  • Ícaro Fernando Calixto dos Santos

  • Luís Felipe Rodrigues de Castro

  • Victor Yamasaki Fernandes

  • Zildo Peixoto Neto

  • Thiago Chambó Andrade

  • Romário Hugo dos Santos

  • William de Oliveira Souza

  • Pedro Gama dos Santos Júnior

O que a "Operação Penalidade Máxima" investiga

A investigação da "Operação Penalidade Máxima" aponta que grupos criminosos convenciam jogadores, com propostas que iam até R$ 100 mil, a cometerem lances específicos em partidas e causassem o lucro de apostadores em sites do ramo.

Um jogador cooptado, por exemplo, teria a "função" de cometer um pênalti, receber um cartão ou até mesmo colaborar para a construção do resultado da partida - normalmente uma derrota de sua equipe.

As primeiras denúncias ouvidas pela operação surgiram no fim de 2022, quando o volante Romário, então jogador do Vila Nova (GO), aceitou R$ 150 mil para cometer um pênalti contra o Sport, em partida válida pela Série B do Brasileiro.

Na ocasião, o atleta embolsou R$ 10 mil imediatamente e só ganharia o restante caso o plano funcionasse. Romário, porém, sequer foi relacionado para a partida, o que estragou a ideia.

A história chegou até Hugo Jorge Bravo, presidente do time goiano e também policial militar, que buscou provas e as entregou ao Ministério Público do estado. A partir daí, criou-se a operação "Penalidade Máxima" para investigar provas e suspeitas sobre o assunto.

Na primeira denúncia, havia a suspeita de manipulação em três jogos da Série B, mas os últimos acontecimentos levaram os investigadores a crer que o problema era de âmbito nacional e havia acontecido em campeonatos estaduais e também na primeira divisão do Brasileiro.

Além de Romário, outros sete jogadores foram denunciados pelo Ministério Público por participarem do esquema de fabricação de resultados: Joseph (Tombense), Mateusinho (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Cuiabá), Gabriel Domingos (Vila Nova), Allan Godói (Sampaio Corrêa), André Queixo (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Ituano), Ygor Catatau (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Sepahan, do Irã) e Paulo Sérgio (ex-Sampaio Corrêa, hoje no Operário-PR).

Algum jogador de futebol foi preso?

Nenhum jogador preso, só pessoas envolvidas nos pedidos de manipulação. Foram três mandados de prisão em São Paulo, mas só para não atletas.

Foram apreendidas granadas de efeito moral em um mandado de prisão em São Paulo a armas de fogo em outro endereço, também em terras paulistas. Nesse local, houve também um flagrante de armas de fogo sem o devido registro.

Os atletas ou aliciadores podem ser indiciados via Estatuto do Torcedor e também podem responder por crime por lavagem de dinheiro, se for o caso. Segundo o Estatuto do Torcedor, a pena varia de 2 a 6 anos de prisão.

O que os jogadores faziam para manipular as partidas?

Os atletas e envolvidos suspeitos estão sendo investigados por manipulação da seguinte forma: receber cartões amarelo ou vermelho, cometer um pênalti, garantir uma derrota parcial no 1º tempo, número de escanteios, etc.