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Alex Rossi e a incrível história de como o ex-Corinthians e Internacional superou o vício do crack

Ex-jogador de Corinthians, Inter, entre outros clubes do Brasil e exterior precisou superar dura realidade com as drogas


O que é mais difícil: tornar-se um craque do futebol ou sair da dependência química? Pior ainda, do crack? “As duas coisas têm que querer muito, cara. As duas coisas você tem que querer muito.”

A resposta é de Alex Rossi, um cara que viveu os dois lados da moeda. Foi vencedor e brilhou no futebol profissional e, depois de aposentado dos gramados, travou uma dura luta para se livrar de uma das drogas mais devastadoras e mortais: o crack, consumido por milhares de pessoas no Brasil.

“Para você ser um bom jogador, ser jogador de futebol, tu tens que querer mais do que tu imagina. Tem que querer muito, tem que estar em primeiro lugar. Não tem essa de ‘ah, vou namorar, vou...’ Não. ‘Vou treinar, ah, vou descansar, ah, vou me preparar’. E depois, para ti vencer a droga, é a mesma coisa. Tem que ter garra, tem que ter raça, tem que ter fé, muita fé, acreditar no Senhor, e é isso aí.”

Assista ao especial "Terras Gaúchas" no SportsCenter pela ESPN no Star+.

A história de Alex Rossi

Alex Rossi é um apaixonado por uma cidadezinha com pouco mais de 10 mil habitantes, distante 450 km da capital Porto Alegre.

De Cacequi, ele saiu de sua terra com um sonho: jogar no Grêmio, time de toda sua família, e ser o novo Renato Gaúcho.

Cabeludo, irreverente e um ponta-direito ousado, assim o garoto de 15 anos venceu sua primeira batalha no futebol, sendo aprovado numa peneira para fazer parte do juvenil do Tricolor Gaúcho.

Foram dois anos morando no estádio Olímpico, tempo suficiente para conhecer sua maior referência na bola, Renato Portaluppi.

Alex foi um cigano do futebol brasileiro. Passou por Fluminense, Inter de Santa Maria e virou ídolo mesmo quando marcou o gol no Gre-Nal que deu o título do Campeonato Gaúcho para o Internacional em 1991, quando ele já vestia a camisa colorada.

Foi nessa época que o atacante ganhou dois apelidos da torcida: Touro indomável e Buscapé, pois tinha um vigor físico e coragem invejáveis para um ponta, posição que já não existe mais no “futebol moderno”.

Dali em diante, Alex tornou-se um viajante da bola. Jogou no Corinthians, onde conquistou o título Ramon de Carranza; São Caetano, sendo vice das Série B e A do Brasileirão.

Alex também jogou em várias equipes da América do Sul. No Paraguai, com o Cerro Porteño, foi campeão e vice artilheiro nacional e semifinalista da Conmebol Libertadores contra o São Paulo em 1993. Além de jogar na Argentina, Peru e na Espanha - pelo Osasuna.

Em 20 anos como jogador profissional, claro, Alex Rossi ganhou dinheiro. Comprou fazenda, tinha carro luxuoso, conta recheada no banco... Mas algo de errado aconteceu depois de sua aposentadoria dos campos.

Aqui, curiosamente, o ex-jogador fala de um Alex como alguém que já não existe mais. Na terceira pessoa, ele conta como decidiu voltar para a amada Cacequi depois de duas décadas.

“O Alex já foi um cigano, o Alex já foi um cara que rodou o futebol no Brasil e no exterior, e hoje ele quer aquietar o facho em algum lugar. E nada mais apropriado do que eu ficar mais perto dos meus familiares e com os meus amigos daqui”, disse Alex Rossi.

A luta contra a maldição do crack

Alex é daquelas pessoas que não escondem o jogo e afirma que, tempos atrás, não soube lidar com o dinheiro que conquistou no futebol.

Dez anos depois de sua aposentadoria, o gaúcho no auge de sua maturidade, aos 46 anos, decidiu, por uma “brincadeira”, pegar da mão de uma outra pessoa uma pedra de crack para experimentar. De lá, por pouco, nunca mais saiu.

Com a droga, Alex perdeu tudo. Dinheiro, esposa, filhos, amigos e por um certo período a dignidade. Foram de cinco a seis meses, suficientes para leva-lo ao fundo do poço.

De lá, Alex só saiu quando foi apresentado à Fazenda Senhor Jesus de Ivorá, onde a princípio ficaria internado por nove meses. Mas, antes de sair, o próprio ex-jogador pediu para que lá permanecesse até completar um ano de tratamento.

A extrema força de vontade para largar a dependência do crack é, sem dúvida, uma das maiores vitórias da vida do ex-atacante. Segundo pesquisadores, psiquiatras e psicólogos, de cada grupo de dez dependentes da droga, apenas dois conseguem se recuperar.

Afinal, não só o crack, mas toda dependência química não tem cura, e sim um tratamento ao qual o paciente terá que estar atento para o resto da vida.

A vida como ela é...

Desde o término da internação, Alex Rossi nunca mais colocou o crack na boca. Limpo da droga há seis anos, o ex-jogador trabalha como ajudante de serviços gerais na Prefeitura de Cacequi.

Ganha um salário mínimo por mês, ou melhor, 60% dele, já que paga pensão para um casal de filhos gêmeos. Trabalha duro limpando calçadas, cortando grama, concretando obras em serviço pesado e diário.

Está se perguntando sobre a vida que ele leva hoje? “Digna! Digna! Posso bater no peito e dizer: sou pobre, mas sou feliz. Encontrei, sim, a minha felicidade, e qual é o problema?”, questionou, com orgulho o funcionário público.

Nesse recomeço, Alex não está sozinho. Conta com o apoio do irmão mais novo, Juca, frentista de posto de combustíveis na pequena cidade.

Alex só não conta mais com os companheiros de futebol. Alguns, queridos por ele, como Valdir Spinosa e o atacante Gérson, já não estão mais entre nós. Mas Alex não esquece dos amigos, como o técnico Cuca, companheiro de Inter, hoje treinador do Atlético-MG.

Rossi disse que, recentemente, enviou mensagem, via aplicativo de mensagens, para o parceiro das antigas, Cuca, mas que não obteve resposta...

No final das gravações em Cacequi, a reportagem dos canais ESPN colocou os dois para conversar por telefone. Imagine a felicidade de Alex ao falar, ainda que rapidamente, com o amigo que virou treinador famoso?

Depois do papo, pedimos para falar com o técnico, que se preparava para enfrentar o Palmeiras na semifinal da Libertadores. Contamos a Cuca como o ex-companheiro da bola estava vivendo. Dissemos que Alex perdeu tudo, menos a dignidade. Estava recuperado das drogas, pobre, mas feliz.

Aproveitamos para sugerir ao técnico que o levasse para dar uma palestra ao seu estrelado elenco. Cuca disse que o Alex que havíamos acabado de conhecer era o mesmo do início dos anos 90 quando o Inter foi campeão.

Alex ainda não foi convidado para dar palestra para um grande time. Azar deles, pois, em sua amada Cacequi, a Prefeitura decidiu promovê-lo a treinador da escolinha de futebol.

Por lá, certamente Alex Rossi será ouvido. O “filho pródigo” da cidade voltará a ser o grande ídolo da região, respeitando e salvando muitas crianças da maldição pela qual passou e milagrosamente se salvou.