Hélio dos Anjos detalha como fez Náutico virar máquina na Série B e diz em que técnicos brasileiros superam europeus

Aos 63 anos e com os cabelos um pouco mais esbranquiçados do que antes, Hélio dos Anjos voltou a chamar atenção do cenário nacional com boa campanha na Série B com o Náutico. Único time invicto após 11 jogos, dono do melhor ataque e da melhor defesa, o time lidera o torneio com 25 pontos.

Tudo isso surge em um novo momento de seu experiente treinador. Em nova fase na carreira, o comandante se vê mais estimulado a buscar mais conhecimento, com a ajuda de seu filho e assistente, Guilherme, como relatado em entrevista exclusiva ao ESPN.com.br.

“A partir do momento que o Guilherme veio trabalhar comigo, ele me estimulou muito a busca de uma adaptação mais rápida aos acontecimentos do futebol. Eu sempre tive minha visão do futebol, sempre gostei de coisas diferentes. Parece que não, mas sempre gostei. Para mim, a estrutura de três zagueiros é altamente ofensiva. As pessoas se enganam com isso”.

“Agora, nesse momento, nos últimos cinco anos, eu procurei, não só em termos de jogo, mas no dia a dia, criar situações diferentes no meu trabalho. E situações que, naturalmente, acompanham o que está se fazendo de moderno no futebol. E o Guilherme me estimula muito a isso. Não queremos copiar nada, mas se fazer o que é bem-feito na França não é problema nenhum. Fazer o que é bem-feito no time do interior do Pernambuco, também não é problema nenhum”, disse.

Antes de assumir o Náutico, onde já conquistou o Campeonato Pernambucano na atual temporada, Hélio tentou implementar novas ideias em seu trabalho no Paysandu. Por lá, porém, sofreu com repreensão e críticas do próprio presidente ao ser mandado embora.

“O que eu vejo no meu trabalho é que, pela minha maneira de ser, eu estou com uma facilidade de implementar aquilo que eu estou pensando de melhor no futebol atual. Eu tive problema no Paysandu, sendo ridicularizado pelo presidente pela linha alta. Mas ele não entende nada de futebol. Agora, aquilo que eu fiz em alguns momentos no Paysandu e trouxe para o Náutico. E posso dizer, técnica e taticamente, a grande evolução que nós tivemos foi essa condição”, afirmou.

Preconceito com os técnicos mais velhos

Atualmente, muitos clubes têm buscado novas alternativas para o comando técnico, seja no exterior ou dentro da própria equipe, com comandantes mais jovens. Neste contexto, Hélio relata que vê uma dose de preconceito com a geração anterior. Ainda assim, vê nisso uma forma de se superar. Mais do que isso, ele diz estar ‘curtindo’ o momento que vive.

“Buscar conhecimento, cultura, naquilo que você faz não é algo que vem da idade, vem do seu querer. Outro dia, eu vi uma reportagem sobre a média de idade da Série A ser a mais baixa dos últimos anos. E um treinador jovem brasileiro falou que a diferença do jovem para o experiente, no Brasil, é que o jovem é sedento de conhecimento. Eu achei isso um preconceito, de um próprio colega. Eu não vejo isso, fui para os cursos da CBF com 54 anos”, apontou.

“Eu estou adorando esse momento do futebol mundial, de estar inserido. Mas não é o momento pelo título pernambucano, pela recuperação e bom início do Náutico. Eu estou me sentindo bem no futebol, bem adaptado a essa realidade, que é bonita. Porque não adianta pensar o que aconteceu em 1970, o futebol mudou. E não posso ficar criticando o preconceito pela idade, eu tenho que agir”, completou.

Os segredos do Náutico

O Hélio dos Anjos fã de Jürgen Klopp

Neste momento, Hélio também tem se dedicado a estudar mais sobre futebol em livros e artigos, além, claro, de assistir a jogos de fora. E um treinador em especial ‘ganhou o coração’ do comandante do Timbu: Jürgen Klopp.

“A literatura de futebol que eu estou voltado está no celular. É uma maravilha. Vou dar uma lida naquilo que o Klopp falou quando foi para o Liverpool, daqui a pouco, estava começando a ler o último lançamento do Tostão. Agora, minha literatura de futebol não se limita a livros. Eu acho que temos, toda hora, artigos interessantíssimos”, relatou.

“Eu gosto de alguns times europeus e até comento. O Liverpool ficou quatro anos sem ganhar e manteve o estilo de jogo, não mudou. Essa mobilidade dos volantes, a loucura dos laterais enfiados o tempo todo e a intensidade. Porque o time do Liverpool, a característica do time campeão era totalmente diferente do Barcelona do Guardiola. Eu gostei muito de ver o Barcelona e o Bayern de Munique com Guardiola, mas eu sempre fui apaixonado pelo futebol do Liverpool. Por aquela intensidade, por aquela loucura. Que só vai conseguir fazer tendo quatro anos sem ninguém achar ruim porque não ganhou título. Aqui, no Brasil, você não tem isso”.

O ponto em que os brasileiros ganham dos europeus

Hélio teceu grandes elogios à escola de pensamento da Europa e seus treinadores. Ainda assim, um ponto foi destacado que os comandantes do Velho Continente ainda ficam atrás dos brasileiros: o gerenciamento dos elencos.

“A minha literatura em termos mundiais é sobre gerir grupo. É totalmente diferente fazer isso na Europa e no Brasil. E o treinador brasileiro é rico nisso, porque administramos milhares de problemas. O conhecimento tático da Europa é maravilhoso, mas o gerir o grupo, não tem lugar mais rico para se aprender com futebol brasileiro”, declarou.

“Pelo salário que não é em dia, pelas questões culturais dos jogadores, as necessidades do jogador brasileiro ganhar dinheiro pela origem, família pobre e mudança de elenco. Eu sou líder da Série B, perdi dois jogadores importantíssimos e não posso ficar lamentando, tenho que criar a situação”.

O que esperar do próximo jogo, contra o Vasco?