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Negros são protagonistas em campo, mas minoria na gestão de clubes da Série A e B

Quando se fala em racismo no futebol, é comum vir à cabeça as injúrias raciais e agressões verbais que jogadores negros sofrem frequentemente. Existe um tipo de racismo, no entanto, mais enraizado e até invisível aos olhos de quem não sofre com ele.

“Quando o campo se encerra e você quer passar para um outro degrau da hierarquia nas questões de gestão, ex-atletas brancos acabam tendo mais espaços do que ex-atletas negros”. O técnico de futebol Roger Machado, atualmente sem clube, ilustra em uma frase a realidade do futebol brasileiro.

Levando em conta os cargos de técnico, diretor, vice de futebol e presidente na Série A do Campeonato Brasileiro, apenas Jair Ventura, do Sport, é negro e trabalha como treinador.

Na Série B, Sebastião Arcanjo, conhecido como Tiãozinho, é a exceção da regra, sendo o único presidente entre os 20 clubes. Ele assumiu a Ponte Preta em novembro de 2019 e montou uma diretoria inclusiva, com três negros e uma mulher.

“A riqueza do Brasil é a sua diversidade, a sua pluralidade, e a nossa gestão é estruturada desta forma. Isso desconstrói, porque tentam nos desqualificar, mas todo mundo que está lá é bem-sucedido”, disse o dirigente.

Apesar do protagonismo em campo e de serem maioria entre ídolos brasileiros, esses jogadores ainda têm dificuldades de ascender a cargos superiores.

Mas por que isso acontece?

ORIGEM E FALTA DE OPORTUNIDADES

O Brasil foi o último país do Ocidente a abolir a escravidão. Durante três séculos (1550 a 1888), os negros foram expostos à condições desumanas. Mesmo após a abolição, eles não contaram com políticas públicas para terem seus direitos reparados - sendo privados durante anos do acesso à terra, à saúde, à educação e ao mínimo de infra-estrutura. Isso tudo é refletido nos dias de hoje.

“Por conta da escravidão, foi colocado na cabeça da sociedade brasileira que os negros eram bons somente para ações que envolvem o corpo e não o intelecto. A gente ainda atribuiu às pessoas negras o corpo. O futebol envolve habilidades físicas, estar numa posição de gestão envolve o intelecto”, explicou Marcelo Carvalho, diretor executivo do Observatório da Discriminação Racial no Futebol.

Mesmo os ex-atletas que quebraram barreiras e conseguiram alçar coisas maiores ainda sofrem com uma discriminação velada e, portanto, mais difícil de ser combatida.

“Quando me deparo com críticas relacionadas à minha capacidade de gestão, vejo resquícios disso. A gestão está ligada à intelectualidade, e a história conta que teríamos mais dificuldades nesses aspectos. Se conversar com jogadores que treinaram ao meu lado, tenho certeza que a maioria vai falar do meu trabalho de desenvolvimento de grupo”, disse Roger Machado.

Segundo levantamento realizado pelo Vagas.com, apenas 4,1% dos trabalhadores negros ocupam cargos de gerência e diretoria em empresas brasileiras. Um estudo da OXFAM ainda revela que 72% dos brasileiros acreditam que a cor da pele influencia na contratação pelas empresas.

Ainda há um longo caminho para trilhar, mas temos dois bons exemplos. Há cinco anos, Mauro Silva foi contratado para a vice-presidência da Federação Paulista de Futebol. Recentemente, Aline Pellegrino assumiu a Coordenadoria de Competições Femininas da CBF (Confederação Brasileira de Futebol). São ex-jogadores negros em posições importantes.

COMO É POSSÍVEL MELHORAR?

Podemos usar como exemplo o futebol americano. Em 2003, a NFL aprovou a "Lei Rooney", que exige que as equipes façam entrevistas para técnicos e posições sênior com candidatos de minorias étnicas.

Essa regra foi nomeada em homenagem a Dan Rooney, ex-presidente do Pittsburgh Steelers, que serviu ao comitê de diversidade da Liga.

“No Brasil, temos um problema muito grande que toda vez que se fala em cota, existe uma antipatia. Então se criarmos algo assim nos clubes, pode haver uma antipatia dos torcedores”, explicou Carvalho.

O ativista sugere que a mudança deve começar pela diretoria dos clubes, com torcedores e jogadores reivindicando um ambiente de maior inclusão.

“Para as pessoas brancas, a presença do negro jogando futebol indica que existe diversidade. É preciso entender que, quando não existem negros nos cargos de poder, há de fato um problema com o racismo estrutural. Mas esse é um entendimento que diretores e presidentes de clubes precisam ter para provocar mudanças”, concluiu.