Não fosse a realidade de pandemia, o português Hermano Sanchez-Ruivo estaria no café do César e do Paulo para assistir, em Paris, ao jogo entre França e Portugal pela Liga das Nações. Uma partida que talvez reúna maior familiaridade à França, ainda que o jogo seja em Lisboa.
Em 2021, o vereador da Câmara de Paris para os assuntos europeus completará 50 anos de França, país no qual reside desde os 5 anos de idade, uma realidade vivenciada por muitos outros portugueses. Alguns deles até nasceram já em solo francês, como os casos de Anthony Lopes e Raphael Guerreiro, atletas convocados pela seleção lusa.
O político é um dos cerca de 2 milhões de portugueses de primeira, segunda ou terceira geração entre os 66 milhões de habitantes na França atualmente - o site do consulado português em Paris fala em 910 mil inscrições consulares. “É evidente que a comunidade portuguesa é importante na França. Todos têm amigos ou pessoas que trabalham na empresa deles que são portugueses.”
Até mesmo que não é do país ibérico tem uma relação, como, por exemplo, Lilian Thuram, campeão mundial em 1998 que atuou quando criança no Club Sportif et Culturel des Portugais de Fontainebleau. Marcus, filho dele, acaba de ser convocado de forma inédita pela seleção francesa.
O sotaque português, sobretudo em Paris, onde está um terço da população franco-portuguesa, segundo Sanchez-Ruivo, passou a ser significativamente mais forte a partir das décadas de 60 e 70, justamente quando sua voz baixou na África e foi reprimida dentro de suas próprias fronteiras, uma vez que o país vivia os últimos anos da ditadura de António Salazar.
“A imigração portuguesa, da forma como nós conhecemos, é dos anos 70, quando uma situação econômica obviamente difícil, mas também por conta das guerras no ultramar (processo de descolonização na África), uma parte dos jovens não tinham futuro, ou não queriam ir à guerra, ou já tinham ido, mas não tinham trabalho em Portugal. Por isso em 1969, 1970 e 1971 são conhecidos como os anos em que mais de 100 mil portugueses por ano saíram de Portugal a caminho da França”, disse Sanchez-Ruivo.
Mas por que escolheram a França?
“Era já uma grande potência europeia, um país em franco desenvolvimento, a imigração já tinha começado nos anos 50 e 60, só que com menos pessoas, mas essas pessoas na esmagadora maioria vinham de regiões de interior, e lembro que em Portugal durante a ditadura, a França era a segunda língua, era a língua que era mais ensinada antes que inglês ou mesmo espanhol. Portanto, a cultura francesa estava de fato presente, mesmo nas aldeias mais remotas, todos tinham ouvido falar da França”, afirmou o político, que torce mais pelo Benfica do que pelo Paris Saint-Germain.
“Era o país mais próximo, depois da ditatura espanhola. Havia uma lógica de ir ao primeiro país que estivesse mais perto e mais acessível. Era um país de maior riqueza, a Suíça era muito mais difícil, a Alemanha ainda estava dividida em dois e, portanto, havia menos ‘espaço’ para ir e também a língua alemã era muito mais difícil do que a francesa. Essa é uma explicação, mas a principal explicação é que os primeiros a imigrarem vão essencialmente à França e depois chamam a aldeia inteira.”
Em questão de décadas, os filhos ou netos das pequenas aldeias de Portugal viram diretamente da França sua terra natal conquistar forma inédita a Eurocopa, o primeiro grande título da seleção masculina de futebol.
“A seleção portuguesa é a única jogar em casa quando vem à França depois da seleção francesa. Na Eurocopa foi evidente. A Torra Eifel era colocada com as cores da seleção mais votada no dia em que jogava. Nos dias que a seleção portuguesa jogou, foi a mais votada, só não foi mais votada no dia da final, porque foi a francesa”, contou Sanchez-Ruivo, que estará com a cerveja portuguesa e os pasteis de nata à mesa neste sábado.
