Neste sábado (7), depois de decisão judicial, será eleito o presidente do Vasco, em São Januário, para o triênio de 2021 a 2023.
O ESPN.com.br entrevistou alguns dos candidatos à eleição do clube, em uma série de publicações sobre suas propostas para o clube.
Após publicar uma entrevista com o atual presidente, Alexandre Campello, candidato a reeleição, a reportagem divulga o conteúdo do segundo entrevistado: Julio Brant. Ele é o representante da chapa Sempre Vasco e está em sua terceira tentativa de se eleger.
Vale ressaltar que, por conta do adiantamento do pleito, as entrevistas com os candidatos Jorge Salgado e Leven Siano, marcadas para a próxima semana, não puderam ser realizadas.
Confira abaixo a entrevista com Julio Brand:
ESPN: Caso eleito, qual seria sua primeira ação como presidente do clube?
A primeira ação nossa, claro, é conversar com os funcionários e atletas e colocar os salários em dia. Essa é a nossa primeira obrigação. Eu sempre digo para a turma o seguinte: não existe projeto pirotécnico, mirabolante, sem salário em dia. O nosso compromisso é colocar o salário em dia. Sei que muitas vezes não é muito charmoso, mas é obrigação nossa. Os salários não são pagos (em dia) no Vasco há 20 anos, há 20 anos o Vasco não cumpre com uma obrigação básica de qualquer empregador, que é o pagamento de salário. Quando você não cumpre o contrato mais básico da sua empresa, da sua organização, você dá um sinal péssimo para o mercado de que você não cumpre contrato nenhum, porque o contrato mais básico de uma empresa, de uma organização, como o Vasco, é contrato de salário, contrato de trabalho, que prevê o pagamento de salário, e o Vasco não paga os salários. Nossa primeira medida é colocar os salários em dia, e depois, em paralelo, começa uma profunda remodelação do modelo de gestão do clube, que nós chamamos de Plano de 100 dias, um plano de reformulação total do nosso modelo de gestão e de trabalho dentro do clube. Isso finaliza ao fim de 100 dias, e aí você tem o clube totalmente rodando numa outra plataforma de gestão.
ESPN: Como vai funcionar a gestão salarial do Vasco? Qual a solução para você conseguir, imediatamente, caixa para colocar os salários em dia? Haverá algum investidor, como vai funcionar?
Na verdade, não é um problema, é uma escolha. É um modo de gestão, o Vasco optou, passou a funcionar de forma a não pagar salários. É um modelo de gestão que o Vasco decidiu fazer. O que nós vamos fazer? Nós vamos mudar essa lógica, inverter essa lógica. É claro que não se inverte essa lógica sem dinheiro, e o Vasco tem dinheiro. É um clube que fatura R$ 230, R$ 240 milhões por ano, dependendo do número que aparece, não é qualquer coisa. Você tem uma folha salarial de futebol que ronda os R$ 4 milhões, R$ 4,5 milhões por mês, mais a folha dos funcionários, quer dizer, não tem muito sentido o Vasco não pagar salários em dia. É claro que temos uma série de obrigações, de passivos, que cada vez são criados, cada vez aumentam, esse é o problema, e que devem ser tratados. E nós vamos tratar isso como? Com gestão de recursos. O Vasco precisa crescer, faturar mais, está muito aquém do faturamento potencial que ele tem. E não estou falando de sonho, estou falando de mercado, se você olhar os outros clubes do tamanho do Vasco, o Vasco tem que estar faturando pelo menos 100% do que fatura hoje. Faturando mal, teria que faturar na onda de R$ 450 milhões por ano. Fazendo um trabalho pleno, como a gente quer fazer, deveria rondar os R$ 700, R$ 750 milhões, esse é o tamanho que o Vasco tem que ter. Isso não é clubismo e nem é um dado de política, é um dado técnico, é mercado, é um estudo que nós fizemos. Esse é o potencial de faturamento do Vasco, desde que feito o trabalho correto, competente. E o que nós vamos fazer? Para fazer frente às obrigações do Vasco imediatas, estamos desenvolvendo , e está quase pronto, um fundo de direitos creditórios, que vai receber parte dos recursos dos projetos que nós já estamos fazendo com os nossos parceiros para que a gente tenha no início já à disposição, no primeiro ano, de R$ 70 a R$ 200 milhões à disposição para o clube. O que determina isso? Tem algumas premissas, uma delas é o nosso desempenho no futebol. Parte desses direitos estão ligados à essa questão, a participação do clube no futebol. Vamos ter que, obviamente, qual é o final, como que o Vasco inicia a próxima temporada. Mas no pior cenário, já falando aí de aumento, miseravelmente de 40% num primeiro ano em termos de receita. É um faturamento importante e queremos regularizar os salários, fazer contratações, investimentos importantes no clube, rapidamente ganhar mais competitividade. Queremos que no primeiro ano o Vasco seja campeão, pelo menos de um campeonato, então queremos começar a mudar o clube do começo, logo de início, e isso se faz com gestão competente, com parceiros corretos e pés no chão. Sem maluquice e sem demagogia.
ESPN: Qual será o padrão de reforços para o clube?
O Vasco virá forte para o mercado para trazer nomes de peso, mas não significa que sejam jogadores famosos. Nós vamos usar isso, vamos trazer jogadores que vão suprir, de imediato, necessidades do elenco, mas que vão estar dentro da realidade do clube. Nosso principal objetivo é pagar salário. Não faz sentido nenhum se contratar um jogador de 22 milhões de reais e estar com três, quatro meses de salário atrasado. O cara não joga sozinho, o elenco olha para você e diz: ‘Você arruma 22 milhões para comprar um jogador, mas não arruma para pagar salário?’ Esse é o vestiário. Além disso, tem uma questão ética, de priorização, que para mim é inegociável. E não é o salário do mês, é a programação salarial do ano. Nós vamos para o mercado com inteligência. Nomes que se tornar grandes nomes no Vasco, por fazerem desempenho bom no Vasco e se tornarão ídolos no Vasco. E, a partir daí, serão vendidos e o clube ganhará com essas vendas. Para isso nós damos um foco para gerência de análise de mercado, que vai ter toda estrutura suficiente para o Vasco ter que ser o melhor conhecedor do mercado brasileiro e sul-americano. Tem clubes que estão disputando a primeira colocação que fizeram isso, com jogadores que vieram dessa maneira. Contratar com 600 milhões de euros é mole, contrata Messi e Cristiano Ronaldo e pronto, melhor time do mundo.
ESPN: Como vai administrar os problemas internos do Vasco?
O que tem que acontecer é que as regras têm que ser respeitadas. Divergências sempre vão acontecer, faz parte do processo. Agora, existem regras que norteiam o tratamento dessas divergências. E essas são comumente desrespeitadas no clube. Esse é o problema. Quando se tem isso acontecendo, passa a ter um problema de legitimidade no processo como um todo, de falta de credibilidade, de seriedade. As pessoas têm que respeitar as regras do jogo, o Estatuto, os poderes, o funcionamento do clube. Porque se isso acontecer o clube roda sem nenhum problema. O que tem acontecido no Vasco é um constante desrespeito às regras, que tem trazido uma instabilidade para todos. Existe um dado de que as agências de risco financeiro analisam que é o risco político. Quanto maior, mais chances de um problema acontecer e o Vasco é isso. Esse tipo de problema tem que começar a ser entendido como algo do passado. Tem que pensar que se perder a eleição, perdeu, tenta na outra eleição. Qual o problema disso? Mas não, se impede o tempo todo de se fazer mudanças e todo processo político fica contaminado.
ESPN: Como vê adiamento ou não das eleições e o processo eleitoral do Vasco?
Eu vejo com muita tristeza tudo isso. Essa confusão entre o Campello e o Mussa, essa briga de poder. O Campello está invadindo o poder do Mussa. É a mesma coisa que o Mussa chegar e falar: ‘Não, eu não quero o Benítez, contrata outro jogador’. É a mesma coisa. A eleição é coordenada por um poder, que é a Assembleia Geral. O presidente administrativo não pode convocar, decidir, dizer como vai ser. Isso é muito claro, expresso no Estatuto. Então, essa briga entre os dois, que é uma tentativa, na minha opinião, de o Campello ganhar alguma sobrevivência, acaba com que se crie um caos político que só beneficia quem está lá. Eu quero tranquilidade no processo eleitoral. Eu estou indo para a terceira eleição e sempre participei de acordo como é colocada de acordo com a Assembleia Geral vigente. Todas elas contra mim, e sempre cumpri. É um absurdo, agora, ele querer usurpar um poder da Assembleia Geral e dar para ele. Só restou ao Mussa ir à Justiça para fazer valer o seu poder. Aí, quando se coloca na Justiça, ela toma a decisão. Esse é o problema de se Judicializar o processo. Diga-se de passagem, a eleição de 2017 ainda não acabou. O Campello está presidente por força de uma liminar que eu ganhei á atrás. Então, os processos nunca terminam, fica um bolo de decisão que só prejudica ao clube.
ESPN: O que pode falar sobre as obras no CT e em São Januário?
Prioridade nossa é o CT, número um. Sem estrutura não se faz nada. Os jogadores precisam do local para seu treinamento e conseguir condicionamento físico, fisiologia. Vale lembrar que nós, em 2014, trouxemos a Tecnoplan, porque fomos a primeira chapa a colocar em discussão a estrutura. É importante dizer, essa empresa é responsável pelo CT hoje, nós colocamos a disposição a Tecnoplan para fazer o projeto. O que eu tenho falado sobre São Januário não é manter o estádio velho, é manter a tradição do estádio. Um estádio como ele é, raiz, e não uma Arena moderna no sentido de atropelar as nossas tradições. O que é isso? Se fazer um estádio muito caro se tem dois problemas: a dificuldade por razões econômicas e ter que se cobrar muito caro pelo ingresso. E quem vai vir a um jogo em São Januário custando 150, 200 reais? Ninguém. Não é a nossa origem. Queremos um estádio que seja viável economicamente, que mantenha nossas tradições populares, barato de se ver jogo, onde o torcedor se sinta em casa. Reeditar aquilo que tínhamos no passado da geral, que o ingresso custa cinco, oito reais. E vai se ter, também, a área cara, que custa 500 reais. Mas vai ser um camarote com todo conforto. E nós queremos que a definição do modelo arquitetônico, a gente coloca três projetos a disposição e seja feita a escolha pela torcida. Não pode ser escolhido por meia dúzia em uma sala de reunião. Aí sim vamos ter um estádio que é a cara do Vasco. E nossa visão é que o projeto possa gerar recursos suficientes para dar a contrapartida que o Vasco tem que dar em um projeto como esse e não ficar na mão de terceiros. O Vasco tem que ser sócio do projeto. Porque se entrega o projeto para terceiros, você vira visitante na sua casa. Claro, óbvio que vai ter uma agenda que vai trabalhar junto com o parceiro, mas o nosso negócio prevalece. E, para isso, nós criamos, dentro do nosso projeto, propriedade que suportam, no mínimo, um terço do valor do projeto. E o projeto é a parte do nosso orçamento, que não contamina o orçamento do clube. Ele se paga e ele gera lucro, de forma independente.
ESPN: Como vai tratar a questão da gestão conjunta do Maracanã?
Eu acho que o Vasco tem que liderar essa conversa com o Maracanã. O Maracanã é o maior palco do futebol mundial e se tornou graças, também, ao Vasco, que foi protagonista de momentos históricos do estádio. É fundamental que o Vasco participe do Maracanã, e o Maracanã precisa do Vasco. O Vasco é o único clube que coloca 80 mil no Maracanã, além do nosso rival, lota o estádio com um jogo de Série B. E nós temos que usar isso para o nosso engrandecimento, podemos usar de forma inteligente, balanceando os jogos. Jogos de público maior, Maracanã. Menor, São Januário. Jogos de pressão, que precisa virar resultado, São Januário. Finais de campeonato, Maracanã. De forma a conseguir o melhor resultado financeiro na equação de bilheteria.
ESPN: Dá para competir com o Flamengo?
O Vasco será, de fato, uma referência no futebol brasileiro e mundial. Não só contra o Flamengo, mas contra clubes do mundo inteiro. Não tenham a menor dúvida. É nossa obrigação colocar o Vasco no tamanho que ele tem, isso sem clubismo algum. Estou falando de fatores reais. O Vasco nasceu para ser um clube grande. Eu não estou falando que a gente entra e isso acontece no dia seguinte, lógico que não. Ganhar do Flamengo, sem dúvida. É inadmissível que o Vasco entre em campo e perca um jogo para o Flamengo. Tem que entrar suando sangue para ganhar do rival. E nós vamos ganhar. É inadmissível passar um mandato sem ganhar do rival. Qualquer jogador que vista a camisa do Vasco tem que saber que esse jogo é vida ou morte. Aí tem as questões objetivas, sobre gestão. Nessas, a curva é um pouco mais longa. Tem que fazer o dever de casa. E nós vamos fazer de imediato. Eu quero chegar no final do meu mandato com o Vasco como referência de futebol e de gestão de futebol.
ESPN: Qual seu plano para a gestão do futebol feminino e dos outros esportes?
Infelizmente, foi sucateado ou paralisado. Tudo aquilo que gerar resultado, inclusive financeiro, foi paralisado. Nós vamos retomar isso. E temos um projeto finalizado para retomar através de leis de incentivo, tanto no basquete, quanto no vôlei, no paralímpico, em várias modalidades. No remo, para se ter uma ideia, nós já enquadramos na lei de incentivo para a reforma de toda estrutura, para a parte de apoio, nutrição, fisiologia, psicologia. A gente vê clubes locais como o Minas, Franca, Pinheiros que, por ano, levantam 25, 30 milhões de reais por leis de incentivo. Nós temos isso no nosso projeto, para o primeiro ano 25, segundo 38 e terceiro 47 milhões. Isso é possível. E, claro, queremos, no futebol feminino, ir além do que a CBF obriga. Queremos de fato profissionalizar o futebol feminino, com parceiros de patrocinadores que se interessem na modalidade e que entrem querendo montar um time campeão e profissionalize toda a categoria, como o masculino.
ESPN: Teme que o processo eleitoral ocorra como em 2017?
Isso existe, sempre existe, nós estamos preparados para isso. E vamos batalhar da mesma forma que em 2017. Nosso grupo jurídico conhece muito bem o processo eleitoral do Vasco, porque são três eleições, com fraudes muito grandes, lutando contra grupos políticos muito poderosos que estavam na política há mais de 50 anos.
